Comissão diz que sofrimento de civis segue sendo ignorado com violações e assassinatos na Síria
BR

15 setembro 2020

Atos continuam ocorrendo apesar de redução da violência com cessar-fogo declarado em 5 de março; novo relatório, de 25 páginas, lista violência de gênero a meninas e mulheres; Comissão é presidida pelo professor brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro.

A Comissão Internacional de Inquérito sobre a Síria afirmou que o país continua sofrendo as consequências de uma guerra que já dura mais de nove anos. Em seu mais novo relatório, de 25 páginas, o grupo afirma que os civis estão sendo alvos do conflito e das violações e abusos cometidos por quase todos os agentes armados no país.

Epicentros

O documento compilado pelos três membros da Comissão, que é presidida pelo professor Paulo Sérgio Pinheiro, revela um aumento em padrões de abusos determinados como assassinatos, violência sexual a meninas e mulheres, saques e roubos de propriedade com nuances sectárias.

Em julho, a Comissão publicou uma investigação especial na província de Idlib e áreas adjacentes. O documento desta terça-feira se concentra em violações fora dos epicentros da guerra durante o primeiro semestre deste ano.

Quase todas as partes da guerra na Síria continuam espalhando medo e repressão à população, que também sofre com extorsões para obtenção de dinheiro. 

O relatório documenta uma série de violações e detenções pelas forças do governo, o Exército Nacional da Síria, ENS, as Forças Democráticas da Síria, Hay’at Tahrir al-Sham e outros lados do conflito.

Crimes contra a humanidade

Para a Comissão, os desaparecimentos recentes, casos de tortura, violência sexual e mortes sob custódia podem ser considerados crimes contra a humanidade. Na cidade de Afrin e áreas ao redor, o relatório documenta como o ENS pode ter cometido crimes de guerra como tomada de reféns, tratamento cruel e tortura além de estupro.

Na mesma região, centenas de civis foram assassinados e mutilados por explosivos improvisados, assim como bombardeios e ataques com foguetes. Como resultado, mulheres, crianças e homens foram mortos enquanto faziam compras na feira ou em mercados lotados. Os saques também proliferaram nas áreas curdas atacando não somente os civis, mas comunidades e culturas inteiras. A Unesco tem imagens de satélites para provar esses crimes.

Acnur/Antwan Chnkdji
Campo de deslocados em Aleppo, na Síria, para habitantes de Afrin.

Insegurança alimentar

A pandemia da Covid-19, a crise econômica e o impacto das sanções reduziram a possibilidade dos sírios de viverem dignamente. As condições estão piorando a cada dia pelo país.

Uma das integrantes da Comissão, Karen Koning AbuZayddis disse que o aumento dramático do sofrimento dos sírios com a insegurança alimentar na primeira metade deste ano é “profundamente preocupante”.

O relatório conclui que todos os lados da guerra devem respeitar as recomendações e o acordo do cessar-fogo nacional com base na resolução 2254 do Conselho de Segurança. A Comissão também pede ao governo sírio que tome medidas urgentes para revelar o paradeiro dos presos e desaparecidos.

O presidente da Comissão, Paulo Sérgio Pinheiro, pediu a todos que sigam as recomendações para alcançar a paz sustentável num conflito que tem ignorado a proteção de mulheres, homens, meninos e meninas.

Para Pinheiro, ninguém tem as “mãos limpas” na guerra da Síria, e esta situação não pode mais continuar.

O relatório final será apresentado ao Conselho de Direitos Humanos em 22 de setembro.

OMS Síria
Um hospital de 400 leitos em ruínas por causa do conflito na Síria.

 

 

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