Especial: sofrimento de crianças na Síria é tema de reunião no Conselho de Segurança
BR

19 fevereiro 2020

Presidente da Comissão Internacional de Inquérito sobre a Síria, Paulo Sérgio Pinheiro, fala à ONU News sobre relatório preparado para o Conselho de Direitos Humanos; Pinheiro conversou com Monica Grayley sobre a tragédia enfrentada por 2,6 milhões de crianças e adolescentes forçados a fugir de suas casas em nove anos de conflito no país árabe.

O que o sr. deve dizer ao Conselho de Segurança?

Basicamente, apresentar alguns pontos altos deste relatório sobre as violações contra as crianças. Se você se lembra bem, desde o começo da crise, houve caso de mortes e de tortura de crianças. E durante quase nove anos de conflito, as crianças e adolescentes não são alvos simplesmente de uma violação, mas são camadas de violação.

Por exemplo, cada vez que as famílias são obrigadas a se deslocar internamente, dentro da Síria, e também os 6 milhões de refugiados. As crianças que no começo deviam ter cinco (anos), hoje já são adolescentes. Então os problemas são terríveis. Mas também por causa de detenção arbitrária dos pais. E detenção também de crianças e adolescentes.

Desde janeiro, 299 sírios foram mortos na ofensiva às áreas chaves de Idlib e Alepo. Foto: Unicef/Forat Abdoullah

E passando por todos estes traumas de violência, guerras, bombardeios. Professor, já são 2 milhões e 600 mil crianças que foram deslocadas de suas casas. Quantas mais precisaram passar por essa situação até que se alcance uma solução?

Não. O que é patético, no atual momento, é que contrariou alguma coisa que a Comissão vem repetindo faz oito anos. Não há solução militar para esse conflito.   Somente uma negociação inclusiva com os sírios pode terminar esse conflito. Mas agora, parece que estão apostando na solução militar, quer dizer, a situação trágica em Idlib, uma das províncias, da Síria, onde no último mês foram 900 mil pessoas deslocadas e muitas delas crianças.

O que o relatório nosso mostra é uma continuidade de desrespeito do direito básico das crianças e dos adolescentes. As crianças e os adolescentes estão na linha de frente do ataque aos direitos humanos.

A sua equipe não recebeu acesso direto à Síria. Como é que os senhores têm coletado este material?

Não é muito difícil. Depois de oito anos eu posso dizer que não é muito difícil. Porque, primeiro através dos meios normais e eletrônicos, que não são censurados, aliás, diretamente da Síria. E também, nos campos refugiados, na Europa e no Oriente Médio, ou em entrevistas de indivíduos que saem da Síria para conversar conosco. E além do mais, é evidente que nós contamos com a ajuda de outros mandatos ONU, como o Unicef, ou a representante especial para Crianças e Conflitos Armados, que é a nossa amiga, Virginia Gamba, então nós conseguimos.

E também os nossos colegas que estão na Síria e que têm condições de falar conosco. É difícil, mas não foi impossível.

Criança caminha na neve em um assentamento informal que continua recebendo famílias recém-deslocadas do sul de Idlib e das províncias rurais de Alepo, no noroeste da Síria. Foto: Unicef/Baker Kasem

Professor Paulo Sérgio Pinheiro, o senhor tem bastante experiência nessa área, e já vem trabalhando com este tema há bastante tempo. Eu queria saber. O que se faz com essa informação? Quando por exemplo, a sua equipe vem falar ao Conselho de Segurança, expõe a situação.  Qual é o feedback depois desse encontro?

A nossa esperança é que isso influencie os que têm o poder de decidir. Não há órgão maior nas Nações Unidas do que o Conselho de Segurança. Então, é um pouco, uma mensagem desesperada dizendo é preciso acabar com essa carnificina. É preciso acabar com esse desrespeito total dos direitos da criança. Embutido, esse desrespeito, no desrespeito das regras do direito da guerra e do direito humanitário.

Então, o momento atual é preocupante porque há uma concentração de tudo o que se fez em outras partes do território da Síria e que as partes estão em conflitos inimagináveis, com um Estado-membro contra outro, e que estava aliado num outro momento. É uma situação gravíssima. E nós ficamos de certa maneira contentes porque o apelo que o secretário-geral fez, ontem, reforçando o que nós vínhamos repetindo, que agora nesse caso, no caso da província de Idlib, só um cessar-fogo pode impedir que as crianças continuem a sofrer.

Isso renova a sua esperança para  um cessar-fogo?

Olha, esperança... Todo o cessar-fogo, nós investimos, porque a nosso ver, não há outra solução: Cessar-fogo e negociação. Não há outra receita para acabar com esse conflito na Síria e as gravíssimas violações contra os direitos das crianças.

 

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