Diretor do Unicef visita Cabo Delgado e relata drama dos que fogem da violência BR

Família deslocada em Palma, província de Cabo Delgado, Moçambique
© PMA/Grant Lee Neuenburg
Família deslocada em Palma, província de Cabo Delgado, Moçambique

Diretor do Unicef visita Cabo Delgado e relata drama dos que fogem da violência

Ajuda humanitária

Manuel Fontaine conversou com os deslocados internos, autoridades locais e famílias anfitriãs em Pemba, capital da província após o ataque à cidade vizinha de Palma; agência da ONU está preocupada má nutrição e doenças como cólera e Covid-19.

O diretor de emergências do Fundo das Nações Unidas para a Infância, Unicef, Manuel Fontaine, visitou a província de Cabo Delgado, em Moçambique.

A região, no norte do país africano de língua portuguesa, vive um confronto entre tropas do governo e extremistas islâmicos desde 2017.

Cidade costeira de Palma foi palco de confrontos recentes de terroristas com as forças de segurança
© PMA/Grant Lee Neuenburg
Cidade costeira de Palma foi palco de confrontos recentes de terroristas com as forças de segurança

Cidades

Em entrevista a jornalistas, nesta terça-feira, Fontaine afirmou que a crise humanitária deve durar muito tempo. Ele disse que em anos de experiência com crises humanitárias, a impressão é de existe uma crise grande e longa. Um terço da população em Cabo Delgado está vivendo fora de suas casas. Em algumas cidades que acolheram os que fugiam da violência, a população chegou a triplicar.

O diretor do Unicef afirmou que a situação da má nutrição preocupa especialmente entre os deslocados internos.  A Organização Internacional para Migrações, OIM, e o Unicef já cadastraram mais de 16,5 mil pessoas chegando de Palma em busca de abrigo.

 Em Moçambique, pessoas deslocadas internamente que fogem da insegurança em Cabo Delgado chegam de barco na praia de Paquitequete, em Pemba.
OIM/Sandra Black
Em Moçambique, pessoas deslocadas internamente que fogem da insegurança em Cabo Delgado chegam de barco na praia de Paquitequete, em Pemba.

Proteção

Uma outra ameaça é o cólera, que havia começado a diminuir na região, mas que pode aumentar com as condições atuais.
Manuel Fontaine ouviu diretamente os deslocados internos, as famílias que acolhem os que fogem dos confrontos e autoridades locais. Ele se disse alarmado com os relatos de violência como sequestros, violência de gênero e histórias terríveis de sofrimento por pessoas que passaram dias tentando escapar a pé, e que chegaram a Pemba com os pés inchados e marcas de ferimentos. Para ele, a crise é também de proteção.

A escalada do conflito em Cabo Delgado nos últimos meses causou uma grave crise humanitária, forçando quase 700 mil pessoas a deixarem suas casas
Acnur/Martim Gray Pereira
A escalada do conflito em Cabo Delgado nos últimos meses causou uma grave crise humanitária, forçando quase 700 mil pessoas a deixarem suas casas

Trauma

O Unicef já identificou 220 crianças desacompanhadas. Muitas famílias foram separadas quando os grupos armados invadiram a cidade de Palma. Uma das crianças contou ao Unicef que viu a mãe ser assassinada e por isso correu para fugir dos criminosos. 

O pai dele que estava noutra parte da cidade, na hora do ataque, até agora não foi encontrado. Muitas crianças sequer conseguem articular o que aconteceu com elas por causa do trauma sofrido.

O diretor do Unicef elogiou a solidariedade de famílias de cinco pessoas que abrigam 20, 30 deslocados em casa. 

Mais de 670 mil pessoas já fugiram da violência em Cabo Delgado, no nordeste de Moçambique
© Acnur/Martim Gray Pereira
Mais de 670 mil pessoas já fugiram da violência em Cabo Delgado, no nordeste de Moçambique

Volta às aulas

A agência da ONU contou que precisa de assistência alimentar, água e itens básicos para os moçambicanos que estão fugindo da violência em Cabo Delgado. O Unicef também quer apoiar o retorno dos alunos às aulas.
Fontaine disse que partes de Palma continuam inseguras para os agentes humanitários.

O porta-voz do Programa Mundial de Alimentos, PMA, Tomson Phiri, informou que a agência está pedindo US$ 82 milhões para assistir a população. No momento, existem 950 mil pessoas passando fome severa no norte de Moçambique.