Diretor do Unicef visita Cabo Delgado e relata drama dos que fogem da violência
BR

13 abril 2021

Manuel Fontaine conversou com os deslocados internos, autoridades locais e famílias anfitriãs em Pemba, capital da província após o ataque à cidade vizinha de Palma; agência da ONU está preocupada má nutrição e doenças como cólera e Covid-19.

O diretor de emergências do Fundo das Nações Unidas para a Infância, Unicef, Manuel Fontaine, visitou a província de Cabo Delgado, em Moçambique.

A região, no norte do país africano de língua portuguesa, vive um confronto entre tropas do governo e extremistas islâmicos desde 2017.

© PMA/Grant Lee Neuenburg
Palma foi palco de confrontos de terroristas com as forças de segurança do país

Cidades

Em entrevista a jornalistas, nesta terça-feira, Fontaine afirmou que a crise humanitária deve durar muito tempo. Ele disse que em anos de experiência com crises humanitárias, a impressão é de existe uma crise grande e longa. Um terço da população em Cabo Delgado está vivendo fora de suas casas. Em algumas cidades que acolheram os que fugiam da violência, a população chegou a triplicar.

O diretor do Unicef afirmou que a situação da má nutrição preocupa especialmente entre os deslocados internos.  A Organização Internacional para Migrações, OIM, e o Unicef já cadastraram mais de 16,5 mil pessoas chegando de Palma em busca de abrigo.

OIM/Sandra Black
Em Moçambique, pessoas deslocadas internamente que fogem da insegurança em Cabo Delgado chegam de barco na praia de Paquitequete, em Pemba.

Proteção

Uma outra ameaça é o cólera, que havia começado a diminuir na região, mas que pode aumentar com as condições atuais.
Manuel Fontaine ouviu diretamente os deslocados internos, as famílias que acolhem os que fogem dos confrontos e autoridades locais. Ele se disse alarmado com os relatos de violência como sequestros, violência de gênero e histórias terríveis de sofrimento por pessoas que passaram dias tentando escapar a pé, e que chegaram a Pemba com os pés inchados e marcas de ferimentos. Para ele, a crise é também de proteção.

Acnur/Martim Gray Pereira
A escalada do conflito em Cabo Delgado nos últimos meses causou uma grave crise humanitária, forçando quase 700 mil pessoas a deixarem suas casas

Trauma

O Unicef já identificou 220 crianças desacompanhadas. Muitas famílias foram separadas quando os grupos armados invadiram a cidade de Palma. Uma das crianças contou ao Unicef que viu a mãe ser assassinada e por isso correu para fugir dos criminosos. 

O pai dele que estava noutra parte da cidade, na hora do ataque, até agora não foi encontrado. Muitas crianças sequer conseguem articular o que aconteceu com elas por causa do trauma sofrido.

O diretor do Unicef elogiou a solidariedade de famílias de cinco pessoas que abrigam 20, 30 deslocados em casa. 

© Acnur/Martim Gray Pereira
Mais de 670 mil pessoas já fugiram da violência em Cabo Delgado, no nordeste de Moçambique

Volta às aulas

A agência da ONU contou que precisa de assistência alimentar, água e itens básicos para os moçambicanos que estão fugindo da violência em Cabo Delgado. O Unicef também quer apoiar o retorno dos alunos às aulas.
Fontaine disse que partes de Palma continuam inseguras para os agentes humanitários.

O porta-voz do Programa Mundial de Alimentos, PMA, Tomson Phiri, informou que a agência está pedindo US$ 82 milhões para assistir a população. No momento, existem 950 mil pessoas passando fome severa no norte de Moçambique. 
 

 

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