Crescimento econômico acelera em 2020, mas incertezas e disputas comerciais preocupam
BR

16 janeiro 2020

Em cerca de 20% dos países, renda per capita deverá estagnar ou diminuir; nações de língua portuguesa estão em fase de recuperação; especialista em assuntos econômicos explicou à ONU News principais conclusões de novo relatório.

Sofrendo as consequências de guerras comerciais, a economia global teve o menor crescimento em uma década em 2019, caindo para 2,3%. Esse ano, no entanto, a atividade econômica pode ter um ligeiro aumento se os riscos forem controlados.

Essa é a principal conclusão do relatório Situação Econômica Mundial e Perspectivas, publicado esta quinta-feira, em Nova Iorque, pelas Nações Unidas.

Especialista em assuntos econômicos do Desa, Helena Afonso, ONU News/Daniela Gross

Estimativas

Em 2020, a economia global pode crescer 2,5%, mas um aumento das tensões comerciais, turbulência financeira ou tensões geopolíticas podem prejudicar essa recuperação. Em um cenário negativo, o crescimento pode desacelerar para 1,8%.

Em entrevista à ONU News, a especialista em assuntos econômicos do Departamento de Assuntos Econômicos, Desa, Helena Afonso, explicou o que seria necessário para inverter este cenário.

“Seria essencial reduzir as tensões comerciais e o clima de incerteza que se vive a nível global. Também chamamos a atenção para a desigualdade no crescimento e a necessidade de complementar a análise dos números do crescimento do PIB com medidas de bem-estar, como ambiente e desigualdades sociais, e por último, aspetos macroeconômicos da transição para energias mais limpas.”

Segundo o relatório, a política monetária não é insuficiente para recuperar o crescimento e tem grandes custos, incluindo para a estabilidade financeira.

Helena Afonso diz que é necessária uma mistura de políticas mais equilibrada, que estimule o crescimento econômico, a inclusão social, a igualdade de gênero e uma produção sustentável.

Desenvolvimento sustentável

A fraca atividade econômica pode causar dificuldades significativas para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, ODS, incluindo as metas de erradicar a pobreza e criar empregos decentes para todos. Ao mesmo tempo, um aumento das desigualdades e da crise climática alimentam um clima de descontentamento em muitas partes do mundo.

No relatório, o secretário-geral da ONU, António Guterres, disse que “esses riscos podem causar danos graves e duradouros às perspectivas de desenvolvimento.” Segundo o chefe da ONU, “também ameaçam um aumento das políticas voltadas para dentro dos países, em um momento em que a cooperação global é fundamental.”

Lusófonos

Sobre os países lusófonos, a especialista do Desa disse que “estão em fase de recuperação econômica.”

“No Brasil, o crescimento deve recuperar gradualmente, de 1% para 1,7%, fruto de uma procura doméstica mais forte, mas a recuperação é frágil e há algumas incertezas, por exemplo, em relação à capacidade real para implementar reformas que são necessárias ou o crescimento nos principais parceiros comerciais, como Estados Unidos e China.”

Já Moçambique verá uma recuperação bastante significativa, passando de 1,5% para cerca de 5,5%, graças às atividades de recuperação após os ciclones Idai e Kenneth.

Helena Afonso diz que, a médio prazo, “as condições econômicas continuam complicadas, porque a economia continua muito exposta não só ao clima, mas também aos ciclos econômicos, nomeadamente preço das matérias primas.” Tudo isso acontece “num contexto em que é importante manter a dívida externa num caminho de sustentabilidade.”

Angola deve continuar em situação de recessão técnica, com a economia retraindo 1%, devido à queda acentuada e continuada na produção de petróleo e as dificuldades em atrair investimento estrangeiro. Em 2021, a economia do país poderá voltar a crescer.

Já Portugal crescerá cerca de 2,1%. Em Cabo Verde e Guiné-Bissau, a economia deve aumentar 4,6%. Em São Tome e Príncipe, a economia acelerará e crescerá 3,5%, e o mesmo se passará em Timor-Leste, com um crescimento de 4,8%.

Mudança climática

Outro dos temas do relatório é o combate à mudança climática. Esse esforço exige grandes ajustes no setor de energia, que é responsável por cerca de 75% das emissões globais de gases de efeito estufa.

Apesar das dificuldades, Helena Afonso diz que “existe todo o espaço para haver crescimento econômico e combate às alterações climáticas.”

“Isto é urgente porque as emissões estão a aumentar em todo o mundo, mas especialmente em países em desenvolvimento. E, no entanto, esta urgência está a ser subestimada. Continuamos a ver investimentos na exploração de gás, petróleo e carvão. Isto poderá levar os investidores a perdas repentinas e, no fundo, atrasar esta transição energética poderá duplicar os eventuais custos.”

Custos de transição energética podem duplicar se for esperado muito tempo, by Pnud Eritrea/Elizabeth Mwaniki

Recuo

Muitos países ainda sofrem as consequências da desaceleração dos preços das commodities, ou matérias primas, que aconteceu entre 2014 e 2016.

Em um terço dos países em desenvolvimento que dependem desses bens, a renda real média é hoje menor do que era em 2014. Essa situação inclui dois países lusófonos, Angola e Brasil.

Ao mesmo tempo, o número de pessoas que vivem em extrema pobreza aumentou em vários países da África Subsaariana, América Latina e Ásia Ocidental. A ONU estima que, para erradicar a pobreza em grande parte da África, será necessário um crescimento anual per capita superior a 8%.

Regiões

Nos Estados Unidos, recentes cortes nas taxas de juros podem ajudar a atividade econômica. No entanto, dada a persistente incerteza política, a fraca confiança das empresas e o estímulo fiscal em declínio, prevê-se que o crescimento do PIB no país diminua de 2,2% em 2019 para 1,7% em 2020.

Na União Europeia, a manufatura continuará sendo afetada pela incerteza global, mas o crescimento do consumo privado deverá permitir um aumento modesto no crescimento do PIB, que passará de 1,4% em 2019 para 1,6% em 2020.

O Leste da Ásia continua sendo a região que mais cresce no mundo. Na China, o crescimento deve passar de 6,1% para 6,0%, apoiado por políticas monetárias e fiscais mais flexíveis.

 

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