Zimbábue enfrenta fome causada pelo homem, diz especialista da ONU
BR

29 novembro 2019

Estima-se que insegurança alimentar esteja afetando 5,5 milhões de pessoas nas áreas rurais do país africano; nas áreas urbanas, problema é enfrentado por 2,2 milhões de pessoas.*

Apesar da proteção constitucional do direito à alimentação e de um conjunto sofisticado de leis e políticas nacionais, a fome causada pelo homem está crescendo lentamente no Zimbábue.

O alerta foi feito pela relatora especial sobre o direito à alimentação da ONU, Hilal Elver, após visitar o país de 18 a 28 de novembro de 2019.

Relatora disse que as mortes de crianças por desnutrição grave têm aumentado nos últimos meses no Zimbabué.
Relatora disse que as mortes de crianças por desnutrição grave têm aumentado nos últimos meses no Zimbabué.  Foto: Unicef/ Tsvangirayi Mukwazhi

Insegurança Alimentar

Elver disse que "mais de 60% da população de um país que antes era visto como o celeiro da África” agora enfrenta a insegurança alimentar. Ela acrescentou que a maioria das famílias são “incapazes de obter comida suficiente para atender às necessidades básicas devido à hiperinflação."

Nas áreas rurais, atualmente, cerca de 5,5 milhões de pessoas estão enfrentando insegurança alimentar, devido a chuvas fracas e padrões climáticos irregulares que afetam as colheitas e os meios de subsistência. Nas áreas urbanas, a insegurança alimentar afeta 2,2 milhões de pessoas, que não têm acesso a serviços públicos mínimos, incluindo saúde e água potável.

Para a relatora, esses "são números chocantes”. Ela alertou que “a crise continua a piorar devido à pobreza e ao desemprego, corrupção generalizada, grave instabilidade de preços, falta de poder de compra, baixa produtividade agrícola, desastres naturais, secas recorrentes e sanções econômicas unilaterais."

Crianças

Mulheres e crianças são as que sofrem mais. A relatora disse que "as mortes de crianças por desnutrição grave têm aumentado nos últimos meses.” Cerca de 90% das crianças do Zimbábue com idades entre seis meses e dois anos não estão consumindo a dieta mínima aceitável.

Em um esforço desesperado para encontrar meios alternativos de subsistência, algumas mulheres e crianças estariam recorrendo a mecanismos que violam seus direitos e liberdades mais fundamentais. Por isso, existe um aumento no abandono escolar, casamento precoce, violência doméstica, prostituição e exploração sexual.

Elver disse que conheceu pessoas nas áreas afetadas pela seca de Masvingo e Mwenezi que comiam apenas uma porção de milho cozido por dia. Mulheres, idosos e crianças mal conseguem satisfazer suas necessidades alimentares mínimas e dependem em grande parte da assistência alimentar, enquanto a maioria dos homens está no exterior em busca de trabalho.

Fenômeno pode depois mover-se para os vizinhos Zimbabué e Botsuana
Foto: Unhcr/Zinyange Auntony
Fenômeno pode depois mover-se para os vizinhos Zimbabué e Botsuana

Apelo

A relatora apontou que "sem acesso a uma dieta diversificada e nutritiva, os zimbabuanos rurais, principalmente as crianças mais jovens, mal sobrevivem." Segundo ela, o sistema agrícola e alimentar precisa de reformas imediatas.

Ao fazer um apelo ao governo do país, Elver destacou que é preciso tomar “medidas necessárias para reduzir a dependência do país de alimentos importados, principalmente o milho” e apoiar produções alternativas. Ela acrescentou que o governo deve criar as condições para a produção de sementes tradicionais para garantir a autossuficiência e preparação para os choques climáticos que atingem o país.

Cidades

A crise nas cidades é tão grave quando nas áreas rurais. A especialista da ONU viu os efeitos da crise econômica nas ruas de Harare, capital do país, com pessoas esperando horas em longas filas em frente a postos de gasolina, bancos e fornecedores de água.

Elver também disse que recebeu informações "perturbadoras" de que hospitais públicos têm procurado organizações humanitárias depois que seus próprios estoques de remédios e alimentos esgotarem.

 

*Os relatores de direitos humanos têm mandato independente das Nações Unidas e não recebem salário pelo seu trabalho.

 

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