11 julho 2019

Secretário-geral da ONU visita o país esta quinta e sexta-feira; em março e abril, ciclones Idai e Kenneth afetaram mais de 2,2 milhões de pessoas; esforços de reconstrução estão estimados em US$ 3,2 bilhões.*

Quando os ventos começaram a soprar na cidade da Beira na noite de 14 de março, com rajadas chegando aos 195 quilómetros por hora, o telhado de chapa foi a primeira parte da casa dos Mutizo que voou.

Dentro da pequena habitação, construída com lonas de plástico, cartão e tijolos, Laurinda, de 62 anos, os seus dois filhos adultos, Teresa e Ernesto, a filha de um ano de Teresa e as duas crianças que a família adotou há uns anos abraçaram-se.

Todos os campos ainda em funcionamento são de reassentamento. Foto: ONU/ Eskinder Debebe

Pouco depois, o salão de cabeleireiro de Teresa, mesmo junto a casa, foi destruído.

Momentos depois, foi o negócio de fotocópias de Ernesto, quando os ventos arrasaram a cabana onde estava guardado o computador e a fotocopiadora que comprara com o dinheiro poupado durante anos trabalhando como barbeiro.

Sobreviver 

A família rezou para que fosse poupada a última forma de subsistência: duas hortas familiares, localmente chamadas machambas. Lá, Laurinda cultivava arroz para sobreviver, mas pela manhã descobriram que os terrenos também tinham sido destruídos.

Muitas outras famílias passavam pelo mesmo. Segundo as Nações Unidas, o ciclone Idai afetou 1,85 milhão de pessoas nas províncias de Inhambane, a sul, e áreas centrais de Manica, Tete, Zambézia e Sofala. Na cidade da Beira,  no coração do país, 90% de toda a infraestrutura foi destruída.

Seis semanas mais tarde, cerca de 1,5 mil quilômetros ao norte, o ciclone Kenneth atingiu as províncias de Cabo Delgado e Nampula afetando mais de 400 mil pessoas.

Os dois ciclones foram seguidos por semanas de chuvas torrenciais. A certa altura, um coordenador humanitário da ONU descreveu uma zona inundada, do tamanho do Luxemburgo, como “um oceano dentro do continente.”

O secretário-geral António Guterres é recepcionado em sua chegada a Maputo, capital de Moçambique. , by ONU/Eskinder Debebe

Visita

O secretário-geral da ONU, António Guterres, chegou ao país nesta quinta-feira, 11 de julho, quatro meses após o primeiro desastre natural. O chefe da ONU terá um encontro com o presidente de Moçambique, Filipe Jacinto Nyusi,  receberá uma atualização das agências presentes no campo e visitará algumas das áreas afetadas.

No mês passado, o país acolheu uma conferência de doadores para angariar os US$ 3,2 bilhões necessários para a reconstrução. Os representantes internacionais prometeram US$ 1,2 bilhão.

Nessa altura, Guterres disse que “este é o momento de traduzir em gestos concretos a solidariedade com um país afetado por uma das piores catástrofes relacionadas com o clima na história de África”. Para ele, o desastre “também nos adverte sobre a urgência de combater das Alterações Climáticas."

Resiliência

Um dos locais que Guterres visitará na Beira é a Escola 25 de Junho. Foi aqui que a família Mutizo viveu durante semanas, dormindo em salas lotadas e comendo refeições distribuídas por agências da ONU e parceiros, até que pudessem consertar a casa com pedaços de chapa recolhidos na cidade.

Tome Raimunda dá de comer a uma criança da sua família, Teraza. A família ficou sem casa depois do ciclone Idai. Foto: UNICEF

O diretor Frederico Francisco responde por cerca de 5 mil crianças, do 1º ao 9º ano. Organizados em três turnos, a partir das 6h da manhã, meninos e meninas vestidos com uniformes azuis-escuros e claros enchem salas de aula que chegam a ter 90 alunos de cada vez.

O diretor do estabelecimento disse à ONU News que “antes do ciclone, a prioridade era construir sanitários.” A escola só tem uma sanita para meninos e outra para meninas. Mas ele diz que "agora os telhados são a principal preocupação."

A escola tem cinco pavilhões. O vento quebrou todas as janelas e destruiu os telhados de lata, com a exceção de algumas peças que agora pairam sobre os estudantes enquanto estes aprendem português, matemática e ciências expostos ao sol.

No meio do local, um pavilhão sobreviveu intacto. Foi inaugurado em fevereiro, um mês antes do ciclone, e foi construído pelo Escritório da ONU sobre Assentamentos Humanos, ONU-Habitat, para ser resiliente a eventos climáticos extremos.

É numa dessas salas que Ivanilda Samuel, de 10 anos, estuda português, a sua disciplina preferida. A aluna espera que a sua escola tenha um novo teto, mas ficou feliz quando as aulas recomeçaram apenas duas semanas depois do desastre. Ela disse que "teve muito medo" durante o ciclone, mas voltar para as aulas, com todos os amigos, ajuda a não pensar naquela noite.

De volta à vida

Assim, como Ivanilda, a maioria dos moçambicanos também tenta voltar à vida normal.

Famílias afetadas pelo ciclone Idai deixam abrigo temporário na Beira, Moçambique., Foto: Acnur/ Luiz Fernando Godinho

A família Mutizo prepara bolinhos, feitos com massa frita, que  vende na rua com outros doces. A cidade da Beira foi limpa, com a ajuda de mais de 40 camiões disponibilizados por empresas privadas.

Nas áreas afetadas pelo Idai, a distribuição alimentar de emergência está chegando ao fim, após um período de três meses que foi prolongado. As entregas terminam no final de julho nos distritos atingidos pelo Kenneth.

O coordenador de Emergência para o Idai do Programa Mundial de Alimentos, PMA, Peter Rodrigues, disse que a ajuda da agência chegou a 1,6 milhão de pessoas nestes meses. Depois da emergência, o plano é ajudar “cerca de 600 a 700 mil pessoas das mais vulneráveis” na segunda fase, que deve durar até à próxima colheita, em março de 2020. Rodrigues diz que “o custo é de US$ 110 milhões.”

Também já não existem pessoas vivendo em abrigos temporários. Todos os campos ainda em funcionamento são de reassentamento, o que significa que os residentes não podem voltar aos seus locais de origem. Na Beira, há cerca de 46 mil pessoas vivendo em cerca de 15 campos. Nas áreas do norte  afetadas pelo segundo ciclone, são cerca de 1,3 mil em dois campos.

Hortênsia Arnaldo Abreu Júlio, de 26 anos, e os três filhos são uma das famílias que não voltarão para casa. A família morava em Mataquane, um bairro da Beira, mas a casa foi destruída. Ela diz que não tem “nada para voltar."

Abrigo 

Quando o ciclone atingiu, Hortênsia e os filhos, com idades entre os cinco e 11 anos, mudaram-se para a casa da mãe. Quando a casa se tornou perigosa, encontraram refúgio no carro do irmão por alguns dias. Viveram depois num abrigo temporário em uma escola e, mais tarde, em um centro comunitário.

Uma das moçambicanas que deu à luz durante o ciclone Idai. Foto: UNFPA Moçambique

A moçambicana diz que “não tinha mais como encontrar algo para alimentar as crianças”. Nesses centros, ela encontrou “algo para dar de comer, pelo menos um pouco de arroz, farinha, feijão.”

No último mês, recebeu um lugar permanente no campo de Mandruzi, cerca de 40 minutos a norte da Beira. Este é o campo que receberá a visita de António Guterres na sexta-feira.

Hortênsia e outras 375 famílias vivem em tendas cedidas pela Agência de Refugiados da ONU, Acnur, a Organização Internacional para as Migrações, OIM, e outros parceiros.

Os três filhos de Hortênsia voltaram às aulas no campo, em uma escola apoiada pela ONU. Mas ela se preocupa que não seja "uma escola permanente", onde receberão um certificado.

A tenda que acolheu a família está imaculada, perfeitamente organizada, roupas dobradas, organizadas em pequenas pilhas. Os potes e as panelas estão na entrada, para ficar perto da fogueira que acende algumas vezes ao dia para cozinhar.

Verduras 

Ao redor da tenda, em poucas semanas, Hortênsia conseguiu cultivar cerca de uma dúzia de variedades de vegetais. Tem feijão, batata-doce, cebola e até já começou a colher algumas verduras.

“O meu sonho, sempre foi meu sonho, é ter um terreno e ter uma casa. Gostaria muito de ter uma casa, para os meus filhos e para mim, para eles estarem seguros. É a coisa que eu quero mais. Choro muito. E orava muito a Deus para que um dia possa ter terreno. E hoje agradeço muito a Deus por ter esse espaço.”

ONU/Eskinder Debebe
Telhados são a principal preocupação na escola 25 de Junho da Beira.

No acampamento, ela começou a sonhar com uma casa novamente. Apenas pede materiais, para que possa construir ela mesma. Também foi no acampamento que descobriu que tem o nome de uma flor, hortênsia.

 Quando lhe mostraram fotografias num telefone, não conseguia parar de sorrir: “Uma flor! Tenho o nome de uma flor.”

Agora, quando pensa na sua casa, imagina uma fila de hortênsias na frente.

“Depois de tudo isto, ter uma casa, com flores? Com o meu nome? As pessoas não vão acreditar. Pensar nisso deixa-me tão feliz.”

*Por Alexandre Soares, enviado especial da ONU News a Moçambique.

 

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