Vítimas de ciclone em Moçambique podem receber casas sociais resilientes

9 julho 2019

Neste destaque #ONUNewsEspecial, as 3.000 vítimas que perderam suas moradias por causa do ciclone Idai,  em março de 2019, poderão receber ajuda para construir suas casas. A informação foi dada pelo presidente da Fundação Tzu Chi, organização filiada à Ecosoc, Conselho Econômico e Social da ONU, em entrevista para ONU News. Dino Foi esteve na sede das Nações Unidas, participando do Fórum Político de Alto Nível, que iniciou nesta terça-feira em Nova Iorque.

Presidente de uma fundação representada em Moçambique, que reagiu prontamente à situação de desastre provocado pelo Idai, o que vem trazendo a Nova Iorque?

Primeiro, agradecer pela oportunidade e dizer que a Fundação Tzu Chi está em cerca de 98 países. Nós estamos sempre no terreno quando existem intempéries. No caso concreto de Moçambique, nós avançamos para a Beira no dia 22 de março que foi mais ou menos sete dias depois para fazer um assessment no terreno. Pusemos muitos recursos, demos insumos agrícolas. Demos equipamento para reconstrução, demos material escolar, demos alimentação, material de higiene e agora vamos construir 3 mil casas sociais para as pessoas que são reassentadas. Porque é que estamos nas Nações Unidas? Nós somos representantes aqui via Ecosoc (Conselho Económico e Social da ONU). Estamos em todos os estados aqui dos Estados Unidos. Aqui em Nova Iorque estamos em Manhattan e fui convidado para aqui para, de uma maneira, explicar o que é que nós fizemos, o que é que vamos fazer e em função disso como é que isso casa com a resiliência. Como deve saber, por causa das mudanças climáticas a terra vai reagindo. Infelizmente, muito possivelmente os que mais poluem ou mais contribuem para as mudanças climáticas não são os que sofrem mais. No caso concreto de Moçambique, por exemplo sua “sujidade” no sistema é de 0.3%, em contrapartida nós tivemos o Idai que criou uma situação muito má. Matou 604 moçambicanos, cerca de 644 zimbabueanos, 60 malauianos e um malgaxe. Nós estamos numa situação de estar a sofrer porque não estamos a fazer o suficiente de modo que possamos proteger a terra. E por causa disso nós pusemos cerca de 600 voluntários no terreno. De uma ou de outra maneira ajudaram cerca de 150  mil famílias moçambicanas em várias maneiras.

 

Eu sei que esteve também no terreno. Que imagens que vai trazer aqui, que histórias de pessoas que sofreram é que vai trazer aqui às Nações Unidas?

Sinceramente nós não estamos aqui para chocar pessoas. Porque, na verdade, o que aconteceu em Moçambique o mundo viu, nós tivemos as maiores televisões no país, mas o que é preciso trazer para aqui é na verdade é o que é que pode ser feito, o que é que poderia ter sido feito ou o que é que deveremos fazer para que futuramente, possivelmente, não possamos ter as situações do gênero. Porque o mundo está de uma maneira, porque o grosso das grandes potências, dos grandes líderes nem sequer estão com uma agenda clara em relação às mudanças climáticas, ao fato de que por exemplo dos Estados Unidos estar a sair da agenda é uma das razões, de um lado. Do outro lado está a falta da cidadania global em nós, porque se nós estamos de um lado a olhar para o desenvolvimento dos nossos países, também do outro lado não estamos a olhar os efeitos nefastos deste desenvolvimento. De modo que seria bom, mesmo na nossa maneira de comer, por exemplo, nós temos que ver se não reduzimos pelo menos um pouco a maneira como nós comemos. Na nossa maneira de comer, por que que é importante?  É que como deve saber a maioria das pessoas come carne, e a carne tem efeitos nefastos. E isso aqui não é necessariamente aquela nossa gente matando ou que cria as suas galinhas, mas são as emissões dos grandes países que têm terras com milhares e milhares de animais que são mortos diariamente. Então é neste molde que nós queremos de uma ou outra maneira debater, trazer a experiência de Moçambique não como país, mas como parte da Fundação Tzu Chi, o que nós fizemos.

O que aconteceu em Moçambique o mundo viu, nós tivemos as maiores televisões no país, mas o que é preciso trazer,na verdade, é o que é que pode ser feito, o que é que poderia ter sido feito ou o que é que deveremos fazer para que futuramente, possivelmente, não possamos ter situações do gênero.

Que perguntas já tem sido feitas sobre essa experiência Moçambicana? Resiliência é uma palavra que se aplica em vários contextos. O que é que tem dito as pessoas sobre a necessidade de resiliência em Moçambique?

Isto começa primeiro de uma parte nossa com Moçambique. Como deve saber o grosso da população é iletrada, e por causa disto as tantas, estas partes de resiliência pode parecer um chavão. As populações têm, de uma ou de outra maneira, regressado aquelas zonas que por exemplo talvez há cinco anos atrás foram tiradas por causa das cheias por exemplo. As pessoas não estão a levar isto à sério, mas muitas vezes por falta de conhecimento. Eu penso que para além de nós criarmos um mecanismo de salvação nós temos que passar uma mensagem clara e até em línguas nacionais para as pessoas perceberem que algumas atividades que nós fazemos tem um efeito direto no clima. Então nós como Fundação temos na nossa diretiva a proteção ambiental. Por exemplo nós não usamos plástico. E no caso de cluster (área) de proteção por exemplo falava-se em lonas, em plásticos para as pessoas cobrirem, mas nós estávamos preparados a avançar para uma situação de pôr zinco se fosse necessário, mas não iriamos para o plástico porque nós sabemos que o plástico tem um efeito nefasto.  É contra aquilo que é a diretiva da nossa Fundação. De modo que temos de um lado esta falta de educação, e de outro lado tem gente muito bem posicionada, muito bem letrada, gente que é presidente ou chefe de Estado de um país de grande gabarito, de primeira linha, de primeiro mundo como se diz por aí, mas que não leva a questão das mudanças climáticas à sério. E não porque não lhes interessa, mas as pessoas estão mais preparadas a não fazer um trade-off (troca) de desenvolvimento econômico contra a questão por exemplo da poluição.

Ocha/Saviano Abreu
Maria Andarus, 25 anos, perdeu a casa durante o ciclone Idai e o marido perdeu o barco

 

Como consideraria a sua presença aqui um sucesso para falar de um fenómeno que abalou Moçambique, pode abalar qualquer país, mas precisa ainda de alguma atenção?

Aqui eu teria que abordar a coisa do lado pessoal. Eu venho de uma família muito pobre de pais analfabetos em Inhassunge e que começou a pôr sapato aos oito anos. Hoje, estou aqui na sede das Nações Unidas para falar de uma questão premente como as mudanças climáticas. Como a resiliência, digo-lhe que se eu tivesse que explicar isso à minha mãe, eu tenho que arranjar uma maneira muito forte, possivelmente na nossa língua chuabo, para ela perceber do que estamos a falar. É uma questão que interessa a toda a gente. O ponto fraco disto tudo é que a mensagem não está a passar claramente. Sobre o sucesso como tal, nós na verdade não medimos as coisas nesses moldes. Eu venho aqui representar a minha fundação que está a fazer muito trabalho na área da resiliência, tanto mais que as 3 mil casas que nós vamos construir e estamos à espera que o governo moçambicano dê o go ahead. Nós não vamos construir casas que estão abaixo dos standards da UN Habitat.  É mais ou menos nesses moldes que eu posso olhar a sua questão.

Acnur/ Luiz Fernando Godinho
Nas áreas afetadas pelos ciclones Idai e Kenneth, mais de 80% da população é dependente da agricultura como fonte primária de renda.

 

Para terminar, vamos falar desta relação com o sistema das Nações Unidas. Falou da inspiração do projeto na construção de casas da ONU Habitat. Está aqui no Ecosoc, sua apresentação terá uma componente do Ocha, que é o Escritório dos Assuntos Humanitários. Como acha que a parceria com as Nações Unidas pode enriquecer e valorizar a vossa ação?

As Nações Unidas são o que elas são. Obviamente, o facto de nós estarmos aqui significa a grandeza das Nações Unidas. Então, estar neste meio significa puder mudar, significa puder criar algum. Um dos grandes problemas dos grandes projetos mesmo sociais é que às vezes é apenas um copy and paste. Quando não estamos a falar de resiliência, estamos a falar do que é uma resiliência num sítio como guara-guara (localidade de Moçambique).

 

E qual é a resposta?

A resposta é criar uma casa que não seja necessariamente a que estava ali anteriormente. Aquelas casas que são construídas naquelas zonas não são resilientes. Então, é preciso que o nosso governo comece a criar consciência nas populações principalmente naquelas zonas expostas a desastres naturais.

Vamos ficar por aqui, muito obrigado por esta conversa com a ONU News. Dino Foi, presidente da Fundação Tzu Chi em Moçambique. 

 

 

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