Angola e Moçambique em lista dos pontos de maior atenção por falta de alimentos 
BR

30 julho 2021

Países de língua portuguesa integram nova relação global com 23 focos de fome*; estudo foi produzido pela FAO e pelo PMA; confrontos, burocracia e falta de fundos minam esforços de alívio, agravando a situação em várias partes do mundo. 

Angola e Moçambique estão entre 23 pontos de fome identificados em novo relatório de agências humanitárias.  

O documento da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, FAO, e do Programa Mundial de Alimentos, PMA, alerta sobre um aumento da insegurança alimentar aguda no período entre agosto e novembro deste ano.

Angola 

A publicação lançada esta sexta-feira, em Roma, revela que o mais preocupante é que a insegurança alimentar continua “crescendo em escala e gravidade” devido a conflitos, às repercussões econômicas da Covid-19 e à crise climática. 

Cerca de 1,4 milhão de pessoas devem enfrentar insegurança alimentar no norte de  Moçambique
Acnur Moçambique
Cerca de 1,4 milhão de pessoas devem enfrentar insegurança alimentar no norte de Moçambique

 

A previsão é que esses fatores elevem os níveis de insegurança alimentar aguda nos 23 focos de fome nos próximos quatro meses, com destaque para os conflitos. Etiópia e Madagascar são os mais novos focos de fome com “maior alerta” no mundo, de acordo com o relatório. 

Em relação a Angola, a seca e os desafios macroeconômicos são os principais fatores de insegurança alimentar. Este ano começou com 3,8 milhões de angolanos sem comida suficiente, o que levou 62% das famílias a recorrer a estratégias de crise para enfrentar a emergência.  

Temperaturas 

O documento destaca a urgência na assistência às vítimas que tentam lidar com choques múltiplos, uma situação que deve agravar de forma acentuada nos próximos meses em áreas afetadas pela seca no sul. 

As províncias do Cunene, Cuanza Sul, Cuando Cubango, Benguela, Huambo, Namibe e Huíla devem enfrentar uma longa temporada de fome. A chuva sazonal está mais de 30% abaixo da média e as temperaturas anormais causaram a pior seca em 40 anos. 

Em Moçambique, cerca de 1,4 milhão de pessoas devem enfrentar insegurança alimentar no extremo norte. A situação deve agravar, refletindo o aumento da violência, do deslocamento e dos eventos naturais recorrentes. 

Uma mãe espera receber comida para seu filho em área do sul de Madagascar afetada pela seca.
PMA/Fenoarisoa Ralaiharinony
Uma mãe espera receber comida para seu filho em área do sul de Madagascar afetada pela seca.

 

O conflito em Cabo Delgado combinado com déficits de chuva, tanto na região como na vizinha província de Nampula, criou perturbações em atividades agrícolas. A situação melhorou em parte durante o primeiro trimestre de 2021, mas a produção agrícola anual estará abaixo da média. 

Tropas da Sadc  

Cabo Delgado teve um deslocamento de mais de 732 mil deslocados até o final de abril. Com o anúncio de envio para Moçambique de tropas da Comunidade de Desenvolvimento de Africa Austral, Sadc, e do Ruanda, crescem as previsões de um risco de uma nova escalada de violência nos próximos meses que pode exacerbar as necessidades humanitárias.  

Em nível nacional, a insegurança alimentar aguda entre abril e setembro deve baixar em áreas rurais, à medida que as famílias têm acesso aos alimentos com a produção e os preços dos alimentos mais estáveis.  

No entanto, cerca de 17 milhões de moçambicanos em áreas rurais e urbanas devem enfrentar altos níveis de insegurança alimentar aguda.

O relatório ressalta que esforços para combater o aumento global da insegurança alimentar aguda estão sendo atrasados em vários países por conflitos e bloqueios que cortaram a ajuda que salvava vidas às famílias à beira da fome. 

Obstáculos 

O documento também aponta obstáculos como aspetos burocráticos e  falta de financiamento. Estes fatores atrasam os esforços para fornecer ajuda alimentar de emergência e permitir que agricultores plantem em escala e no momento certos. 

Em 2020, a FAO e o PMA alertaram que 41 milhões de pessoas corriam o risco de ser empurradas para a fome, a menos que recebessem comida imediata e auxílio para subsistência. 

Milhares de etíopes da região de Tigray fugiram para o Sudão e muitos estão vivendo no acampamento Um Rakuba
Acnur/Ahmed Kwarte
Milhares de etíopes da região de Tigray fugiram para o Sudão e muitos estão vivendo no acampamento Um Rakuba

 

De acordo com o Relatório Global sobre Crise Alimentar, divulgado em maio  desse ano, cerca de 155 milhões de pessoas enfrentavam insegurança alimentar aguda em crises ou piores níveis em 55 países. 

O aumento desde o período anterior foi de mais de 20 milhões de pessoas, numa tendência que deve piorar em 2021. 

O relatório ressalta que conflitos, extremos climáticos e choques econômicos, muitas vezes relacionados às consequências econômicas da Covid-19, provavelmente continuarão sendo os principais causadores da insegurança alimentar aguda entre agosto a novembro de 2021.  

Colapso  

As ameaças transfronteiriças também agravam em algumas regiões. Em particular estão ainda as infestações de gafanhotos do deserto no Chifre da África e de gafanhotos migratórios na África Austral. 

As restrições de acesso humanitário são outra causa de preocupação por dificultarem os esforços para conter as crises alimentares e prevenir a fome, a morte e um colapso total dos meios de subsistência, aumentando o risco de fome. 

*Os 23 focos de fome são: Afeganistão, Angola, República Centro-Africana, América Central - Guatemala, Honduras, Nicarágua, Sahel Central - Burquina Fasso, Mali e Níger, Chade, Colômbia, República Democrática do Congo, Coreia do Norte, Etiópia, Haiti, Quênia, Líbano, Madagáscar, Mianmar, Moçambique, Nigéria, Serra Leoa e Libéria, Somália, Sudão do Sul, Sudão, Síria e Iêmen. 

Nuvem de gafanhotos em Kipsing, no Quénia
FAO/Sven Torfinn
Nuvem de gafanhotos em Kipsing, no Quénia

 

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