Acnur pede mais apoio para deslocados por violência no norte de Moçambique
BR

7 fevereiro 2020

Funcionário da agência falou à ONU News sobre situação em Cabo Delgado; área é alvo de ataques de insurgentes incluindo decapitações; escalada de violência fez subir para 100 mil, número de pessoas que abandonaram suas casas com medo dos confrontos.

A Agência da ONU para Refugiados, Acnur, quer aumentar suas atividades para socorrer as vítimas de atos de violência na província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique.

Milhares de pessoas tiveram que fugir das suas casas devido à recente escalada que elevou o total de deslocados para mais de 100 mil. Segundo agências de notícias, as forças do governo combatem os grupos armados ainda não-identificados.

Distribuição de comida em Mocimboa da Praia, província de Cabo Delgado, Moçambique. Foto: Acnur/Eduardo Burmeister

Necesssidades 

O brasileiro Eduardo Burmeister é especialista de Proteção do Acnur e avalia as necessidades locais. Falando à ONU News de Pemba, capital da província de Cabo Delgado, ele contou o que tem visto entre os que tentam sobreviver.

“Na ilha de Matemo tive que entrevistar um refugiado que teve que fugir. A vila foi atacada. Um dos filhos ficou para trás para tentar salvar alguns bens da família e para levar junto. Ele foi pego por um desses membros desses grupos armados e acabou sendo decapitado. O pai acabou voltando e vendo o filho decapitado. Isso não é um relato isolado, é um relato que acontece, e acontece já há bastante tempo.”

Na incursão às aldeias, os grupos armados aterrorizam a população local com atos que incluem mutilações e torturas. Várias casas, plantações e lojas foram queimadas ou destruídas e ocorreram sequestros e desaparecimentos de mulheres e crianças.

Reserva

A agência pediu um “apoio urgente e forte” aos doadores para aumentar a resposta à situação, para a qual já recorreu a US$ 2 milhões da sua reserva de operações para atender às necessidades iniciais.

Eduardo Burmeist explicou como poderá ser apoiada a resposta à crise.

“Junto com outros atores humanitários, aqui na província, a missão é coordenar as atividades, identificar as necessidades de proteção, saber quais são os recursos necessários e quais são os recursos existentes aqui. Entramos nesse momento com uma ajuda de materiais, restrita, mas principalmente no momento de tentar organizar e coordenar a resposta de todos os atores humanitários aqui em parceria, sempre, com o governo local.”

De acordo com a agência, houve um aumento dramático de ataques brutais de grupos armados nos últimos meses. Nas últimas semanas, a situação é considerada a mais frágil desde que iniciaram os incidentes em outubro de 2017.

Acnur/Eduardo Burmeister
Parte da população de Cabo Delgado também sofreu com as recentes inundações, que destruíram pontes.

Violência

Pelo menos 28 ataques foram realizados na província desde o início de 2020. Um outro fator que preocupa as agências é a expansão dos ataques para nove dos 16 distritos de Cabo Delgado, uma das províncias menos desenvolvidas do país.

A violência nos distritos do sul de Cabo Delgado leva as pessoas a fugir para a capital provincial, Pemba. Um dos incidentes mais recentes ocorreu a apenas 100 km desta cidade, destaca o Acnur.

As pessoas deslocadas têm falta de água potável.  O alvo imediato do Acnur são 15 mil deslocados internos que devem receber materiais para abrigos em comunidades locais.

Ciclone Kenneth

Várias áreas afetadas pelos ataques também foram arrasadas pelo ciclone Kenneth, que em abril passado teve um forte impacto sobre cerca de 160 mil pessoas.

Uma parte das populações de Cabo Delgado também sofreu com as recentes inundações, que destruíram pontes. A situação limita o acesso a alimentos e outros recursos.

 

Ocha / Saviano Abreu
A cidade de Macomia, em Cabo Delgado foi fortemente afetada pelo ciclone Kenneth no dia 25 de abril. Muitas comunidades foram completamente destruídas.

 

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