Conferência em Moçambique adota plano de ação para ajudar 5 milhões de raparigas do país

11 dezembro 2019

Centenas de jovens participaram na 6ª Conferência Nacional da Rapariga de Moçambique, que terminou esta quarta-feira; altas taxas de analfabetismo, desnutrição e casamento precoce ainda são preocupações.

Direitos sexuais reprodutivos, acesso à educação e abuso sexual foram alguns dos temas que juntaram centenas de jovens esta semana em Nampula na 6ª Conferência Nacional da Rapariga de Moçambique.

O encontro terminou esta quarta-feira, com a aprovação de um plano de ação que pretende alcançar os cinco milhões de raparigas que vivem no país.  O tema da conferência foi “Ninguém para trás: o futuro é agora”.

Dificuldades

Durante três dias, os jovens partilharam experiências na província de Nampula, que tem a terceira taxa de analfabetismo mais alta do país, cerca de 62%. Zambézia, por exemplo, tem uma taxa de 62,5%, enquanto que Cabo Delgado tem 66,6%.

A investigadora Matilde Muocha foi uma das participantes na conferência, onde falou sobre educação e empreendedorismo. A especialista apontou as industrias culturais e criativas como oportunidade de auto emprego.

“As indústrias culturais e criativas são uma oportunidade para canalizar as habilidades da juventude, da rapariga, acima de tudo, e serve para desenvolverem uma economia que não depende de elas serem empregues num determinado local. Isto surge como oportunidade porque as linhas de financiamento são um ponto de investimento inicial para que as raparigas possam montar o negócio e conseguir autonomia financeira.”

Emprego e casamento

Quem já criou o seu emprego é Felismina José Paulo. Ela é eletricista e beneficiou de uma formação financiada pela ONU Mulheres.

Hoje, Felismina não quer que as raparigas casem antes do tempo. Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância, Unicef, 48% das meninas moçambicanas casam antes dos 18 anos. Cerca de 14% casa antes dos 15 anos.

Nas horas vagas, Felismina e outras raparigas fazem sensibilização sobre este tema nas comunidades.

“Estamos a tentar combater violência baseada no género, casamentos prematuros e gravidez precoce, visto que, nas zonas recônditas, muitas raparigas casam cedo por não ter condições financeiras, mas também através de pais e encarregados de educação que acham que a filha pode casar e fazer assistência financeira dos pais. Estes enganam-se porque a filha casa e tem gravidez precoce e desiste de ir à escola.”

Felismina José Paulo casou quando tinha 17 anos e diz que a sua experiência é que a motiva neste trabalho.

“Em 2017 eu ainda não era informada sobre saúde sexual reprodutiva, acabei tendo casamento prematuro por falta de apoio familiar, condições para estudar. Quando me casei continuei a estudar, conclui o nível médio, a 12ª classe.”

Empoderamento

Empoderar a rapariga é um dos principais objetivos das Nações Unidas. Para a especialista Matilde Muocha, dar mais competências a esta população significa contribuir para os O0bjetivos do Desenvolvimento Sustentável, ODS.

“Empoderando, as raparigas, estaremos a contribuir para que elas tenham segurança. Reduzir a vulnerabilidade da mulher ou da rapariga dando lhe competências. De alguma forma, estamos a criar fontes alternativas para geração de rendas, não só para essas raparigas, mas também a nível das economias familiares. Então, investindo nas raparigas, dando-lhes competências, estamos a cumprir os ODSs.”

Durante três dias, os participantes pediram mais união para ultrapassar os desafios, destacando a necessidade de uma educação inclusiva, serviços públicos humanizados, estratégias de retenção escolar e combate à desnutrição crónica.

As conferências nacionais da Rapariga, CNR, acontecem todos os anos desde 2014. A iniciativa da Fundação para Desenvolvimento da Comunidade, FDC, em parceria com a Coligação para Eliminação das Uniões Prematuras, Cecap, tem o apoio do Unfpa, do Reino da Suécia e de outros parceiros.

 

De Nampula para ONU News, Ouri Pota

 

 

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