Por que a inclusão financeira é importante?
BR

7 julho 2021

Chefe do Sistema ONU no Timor-Leste, Roy Trivedy, escreve sobre a história da própria família, que se mudou para o Reino Unido, como migrantes na década de 60; ele lembra que após a mãe abrir uma conta no banco, gerenciar o salário dela e os gastos da casa, a vida da família melhorou; para Trivedy, este passo mudou o futuro de todos.*

Em meados de junho, eu participei no lançamento do Relatório de Inclusão Financeira de Timor-Leste 2020. O evento foi organizado pelo Banco Central do país, Bctl, onde me encontrei e ouvi opiniões de colegas e amigos do setor financeiro, incluindo do Ministro da Coordenação da Economia, Joaquim Amaral, do Diretor da Aliança para a Inclusão Financeira, Dr. Alfred Hanning, do Governador do Banco Central, Abraão de Vasconcelos e da Vice-Governadora do Banco Central, Nur Aini Alkatiri. Foi uma honra poder estar ali e tecer alguns comentários no evento. 

O terceiro Relatório de Inclusão Financeira 2020 mostra o progresso substancial feito em Timor-Leste nos últimos dois anos. O documento contém informações atualizadas sobre a oferta de serviços financeiros no país e sintetiza os resultados da ‘demanda’ por serviços financeiros de diferentes grupos de pessoas. O relatório reúne em um só lugar uma grande quantidade de informações vitais sobre esses serviços, o que foi alcançado e as áreas em que é necessário avançar. Transmiti apreço e agradecimento a todos os envolvidos na elaboração do documento, que também é muito informativo, na minha opinião.

Falei, principalmente, sobre o progresso alcançado e aquelas áreas, nas quais seria útil dar mais atenção para se obter um avanço mais rápido na inclusão financeira em Timor-Leste. Comecei, no entanto, compartilhando minha experiência pessoal sobre o poder transformador da inclusão financeira e por que acredito piamente que a inclusão financeira é importante.

Português é uma das línguas oficiais do Timor-Leste
ONU/Martine Perret
Português é uma das línguas oficiais do Timor-Leste

 

Minha família emigrou do Quênia para o Reino Unido quando eu tinha aproximadamente 10 anos. Meu pai era contador formado e trabalhava como secretário de empresa. Minha mãe tinha cerca de 40 anos, quando saímos da África. Ele sempre trabalhou em casa como "dona de casa", ela falava pouco inglês e havia perdido a maior parte dos estudos após se casar muito jovem. 

Quando nos mudamos para o Reino Unido, somente o salário do meu pai não bastava para a toda a família, e por isso, minha mãe, pela primeira vez na vida, encontrou um emprego formal. 
Naquele tempo, no final dos anos 1960 e início dos anos 1970, era possível obter empregos "pouco qualificados". E ela teve a sorte de conseguir uma vaga numa fábrica, perto de casa, de produtos de construção para uso doméstico, aqueles que possibilitavam as pessoas a fazerem seus próprios consertos.

Assim que começou a trabalhar, ela chegava todas as sextas-feiras, e entregava o pagamento dela ao meu pai, que administrava as finanças da família. Ele então retornava parte do dinheiro a ela para que pudesse comprar comida e outras coisas que nós precisávamos. E foi assim durante vários anos, até que percebemos que não tínhamos o suficiente para uma economia significativa. 

Então, meu irmão mais velho e eu, ambos adolescentes, convencemos minha mãe a abrir uma conta somente no nome dela na Building Society, para ver se conseguíamos melhorar.
Inicialmente, meu pai ficou zangado com o motivo de minha mãe ter aberto uma conta separada. Ele argumentou, fortemente, em continuar com apenas uma conta bancária para a família, que era controlada por ele. 

Mas, com o apoio dos filhos, minha mãe manteve a conta e, em vez de entregar todo o seu salário semanal para meu pai. E foi aí que ela começou a economizar parte de seus ganhos. 
Muitos anos depois, meu pai foi o primeiro a admitir que minha mãe havia feito a coisa certa ao abrir sua conta poupança, onde ela conseguiu economizar milhares de libras, a moeda britânica, e usou suas economias para sustentar toda a família.

Essa experiência ajudou a mudar a situação econômica da minha família, e a experiência de abrir uma conta bancária foi fundamental para moldar meu compromisso pessoal com a questão dos serviços financeiros. 

É por isso que sou um defensor apaixonado dos serviços financeiros. Eu acredito que eles podem não apenas apoiar o desenvolvimento de indivíduos e famílias, mas também contribuir para o desenvolvimento das nações! 

Relatório mostra que mais esforços são necessários para enfocar a educação digital e financeira e a conscientização do cliente
ONU News/Daniel Dickinson
Relatório mostra que mais esforços são necessários para enfocar a educação digital e financeira e a conscientização do cliente

Então, o que diz o último Relatório de Inclusão Financeira para Timor-Leste? Em primeiro lugar, enfatiza que entender a dinâmica do mercado e as necessidades do cliente é essencial para a inclusão financeira. 

As pessoas não usarão serviços digitais se não entenderem esses serviços ou se não puderem pagar por eles. 

Diferentes grupos de pessoas têm necessidades diferentes. Mulheres e jovens têm necessidades financeiras diferentes das dos homens e aposentados. Veteranos, estudantes, agricultores, membros de cooperativas e comerciantes, todos têm necessidades específicas e exigem diferentes tipos de produtos financeiros. Aqueles que vivem aqui na capital timorense, Díli, também terão necessidades diferentes em comparação com aqueles que vivem nas áreas rurais. 

Portanto, os produtos de serviços financeiros precisam ser adaptados para responder às necessidades muito específicas de diferentes grupos de clientes no país. Sem uma compreensão diferenciada da demanda por serviços financeiros, é desafiador criar os produtos certos de depositar, crédito, seguro ou pagamento que atendam às necessidades das pessoas e as ajudem a melhorar suas vidas ou expandir seus negócios e atingir seus objetivos.

Relatório destaca ainda a necessidade de melhorar a alfabetização financeira em Timor-Leste
Unsplash/Jason Leung
Relatório destaca ainda a necessidade de melhorar a alfabetização financeira em Timor-Leste

 

O Relatório também destaca vários fatos importantes que agora podem ser usados pelas partes interessadas para planejar suas ações futuras para acelerar a inclusão financeira no país, tais como:

  • As melhorias significativas nos pontos de acesso: maior cobertura e, pela primeira vez, todos os Postos Administrativos (estados) estão cobertos por pelo menos um tipo de ponto de acesso a serviços financeiros.
  • O crescimento expressivo dos serviços de e-wallet com mais de 3.000 agentes e 86.000 clientes cadastrados em 2020.
  • A modernização do Sistema Nacional de Pagamentos: interoperabilidade de caixas eletrônicos (ATMs) e ligação de serviços de e-wallet aos bancos, permitindo aos clientes transferir dinheiro de contas bancárias para as suas contas de e-wallet.
  • O aumento moderado da utilização de serviços bancários;
  • A implementação pelo Governo Timorense e pelo Bctl de um Programa de Moratória ao Crédito em 2019 para apoio à economia e em particular, às empresas e famílias afetadas pela pandemia de Covid-19.
  • O lançamento pelo Bctl da campanha de sensibilização “Digital Village” para promover os serviços financeiros digitais entre os timorenses nas áreas rurais e urbanas.

 
O Relatório destaca ainda a necessidade de melhorar a alfabetização financeira em Timor-Leste. Embora 64% dos adultos timorenses, na imensa maioria trabalhadores assalariados, tenham uma conta numa instituição financeira formal (Bancos, Outras Instituições de Captação de Depósitos - Odti ou Prestadores de Fintech) devido à falta de sensibilização e conhecimento, uma grande proporção da população é incapaz de acessar serviços financeiros formais que lhes proporcionem os meios para criar oportunidades de subsistência sustentáveis, fazendo escolhas para melhorar suas vidas.

O Relatório mostra que mais esforços são necessários para enfocar a educação digital e financeira e a conscientização do cliente em termos de produtos, serviços e critérios de elegibilidade para melhorar o acesso a serviços financeiros formais. Isso requer que os provedores de serviços financeiros trabalhem mais estreitamente com os provedores de serviços educacionais e outros.

Vista aérea de região perto de Dili, em Timor-Leste
Foto ONU/Martine Perret
Vista aérea de região perto de Dili, em Timor-Leste

Por último, a promoção da inclusão financeira é uma responsabilidade coletiva. O governo desempenha um papel importante no que diz respeito à criação de um ambiente favorável; o setor privado desempenha um papel importante por meio da inovação tecnológica e modelos de negócios personalizados; os parceiros de desenvolvimento têm o papel de enfatizar a importância do acesso ao financiamento por meio de seus compromissos; e a sociedade civil desempenha um papel, fornecendo apoio, conhecimento e supervisão. Como muitas famílias lutam para reconstruir suas vidas, após a Covid-19 e as enchentes, a necessidade de bons serviços financeiros é uma parte vital dos esforços nacionais para ‘build back better’ (reconstruir melhor).

Este Relatório reúne muitas partes interessadas com o objetivo de acelerar o acesso aos serviços financeiros em Timor-Leste. A minha esperança é que contribua para desencadear o poder transformador da inclusão financeira para melhorar a vida do povo Timorense.

A família e agências particularmente dedicadas como o UNCDF, estão prontas para trabalhar em conjunto com o Governo e o Banco Central de Timor-Leste e, na verdade, todos os parceiros para ajudar a alcançar a visão de inclusão financeira do Bctl “Para criar um sistema financeiro inclusivo que reúna o benefícios dos serviços financeiros para todos, incluindo pessoas sem banco e comunidades, para os objetivos de reduzir a pobreza e aumentar a prosperidade compartilhada ”, e ajudar a alcançar as aspirações de desenvolvimento do país.
 
*Roy Trivedy é coordenador residente da ONU no Timor-Leste.

 

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