Covid-19 ameaça avanços históricos em cobertura de merenda escolar no mundo 
BR

24 fevereiro 2021

Relatório do Programa Mundial de Alimentos, PMA, revela que antes da pandemia, número recorde de crianças recebia refeições nos colégios; estudo cita países de língua portuguesa e diz que Brasil tem o segundo maior programa do mundo com 100% dos alunos; em Moçambique e Cabo Verde, cobertura caiu entre 2013 e 2020. 

Antes da pandemia de Covid-19, metade das crianças em idade escolar, ou 388 milhões em todo o mundo, estava recebendo merenda no colégio, o maior número da história. 

A informação consta do relatório Estado Mundial das Merendas Escolares, publicado esta quarta-feira pelo Programa Mundial de Alimentos, PMA.  

Crescimento

Falando à ONU News, o representante do PMA no Brasil e diretor do Centro de Excelência contra a Fome, Daniel Balaban, destacou a importância desse apoio. 

“A alimentação escolar, hoje, é uma das formas mais importantes de combate à desnutrição em vários países do mundo. Em 2020, os programas de alimentação escolar entregaram refeições a mais crianças do que em todo a história da humanidade. Ou seja, os países estão entendo a importância da criação e manutenção destes programas.” 

Unicef/Francis Emorut
Estudantes recebendo merenda no Uganda durante pandemia

Segundo a pesquisa, entre 2013 e 2020, o número de alunos recebendo merenda cresceu 9% globalmente e 36% em países de baixa renda.  Para Daniel Balaban, isso revela a aposta dos Estados-membros. 

“Mostra a importância que os países mais pobres estão sentindo na criação desses programas nacionais. E o mais importante, 90% do custo dessa alimentação saiu de fontes domésticas. O que é que isso significa? Os países estão criando programas e estão colocando recursos do seu próprio orçamento para que esses programas sejam definitivos.” 

Pandemia 

Com o início da pandemia, a situação mudou em poucas semanas. Em abril de 2020, 199 países haviam fechado as escolas deixando 370 milhões de crianças sem o benefício. Para muitas, a merenda era a única refeição do dia.  

Daniel Balaban acredita que estes programas devem ser uma prioridade no período pós-pandemia. 

“Eles ajudam os países a se recuperarem melhor, também economicamente e nutricionalmente, no combate a fome, a pobreza e à miséria nesses países. Programas eficientes apoiam os estudantes, porque, logicamente, estudante que está com fome não consegue entender o que é ministrado pelo professor em sala de aula. Isso cria uma população mais saudável, porque os alimentos distribuídos são nutricionalmente adequados. E o mais importante, cerca de 1.668 novos postos de trabalho são criados para cada 100 mil crianças alimentadas.” 

Mas em poucas semanas, com o início da pandemia, essa situação mudou. Em abril de 2020, 199 países haviam fechado as escolas deixando 370 milhões de crianças sem o benefício. Para muitas, a merenda era a única refeição do dia. 

O PMA pede uma ação global para restabelecer a cobertura anterior à pandemia e expandir o serviço. O objetivo é alcançar 73 milhões de crianças vulneráveis ​​que já estavam perdendo as refeições. 

Escolaridade

Em comunicado, o diretor executivo do PMA, David Beasley, lembrou que, muitas vezes, a merenda é a única razão para as crianças frequentarem a escola. E esse apoio “é também um poderoso incentivo para garantir que elas voltem” após o fim da pandemia. 

No próximo ano, o PMA quer formar uma coalizão para apoiar os governos na ampliação dos programas de alimentação escolar, trabalhando com agências de desenvolvimento, doadores, o setor privado e organizações da sociedade civil. 

© Unicef/UN051605/Rich
Hora da merenda numa escola em Moçambique.

Lusófonos 

O relatório menciona os países lusófonos, Angola, por exemplo, teve um grande crescimento destes programas, passando de 221 mil crianças abrangidas em 2013 para 1,5 milhão no ano passado, atingindo uma cobertura de 27% dos alunos. 

Já no Brasil, o número caiu de 47,271 milhões para 40,197, mas o país manteve uma cobertura de 100%. Segundo a pesquisa, a descida no número de beneficiários é causada por mudanças demográficas, com menos 4,2 milhões de crianças entre os 4 e 14 anos, e diferenças na mensuração.  

Junto com a China, o Brasil tem o segundo maior programa de merenda escolar do mundo, atrás apenas da Índia, seguidos por Estados Unidos e Egito. 

Já Cabo Verde, passou de 86 mil crianças para apenas 3 mil, ficando com uma taxa de cobertura de 5%. A Guiné-Bissau não relata sua taxa de cobertura, mas registou um aumento de 126 mil crianças abrangidas para 178 mil.  

Em Moçambique, o número de beneficiários passou de 427 mil em 2013 para 200 mil em 2020, cobrindo 3% dos alunos. Portugal manteve uma taxa de cobertura de 100%, passando de 1,615 milhão para 1,317 milhão. 

Por fim, São Tomé e Príncipe também chega a quase todos os alunos, cerca de 99%, tendo passado de 40 mil crianças para 47 mil.  

Unicef/Frank Dejongh
A institucionalização do Dia Africano de Alimentação Escolar, em 2016, visa reforçar a vontade política para a valorização e compra dos produtos agrícolas locais

Meninas 

Estudos demonstram que, na vida de uma criança de família pobre, a merenda escolar pode ter um grande impacto, evitando a fome, apoiando saúde a longo prazo e facilitando o aprendizado. 

Em escolas que oferecem merenda, as meninas tendem a permanecer mais tempo no ensino, as taxas de casamento infantil caem e a gravidez na adolescência diminui. 

Quando usam alimentos produzidos localmente, os programas de merenda escolar também podem impulsionar a economia da comunidade. Eles geram uma demanda por alimentos mais diversificados e nutritivos e criam mercados estáveis, apoiando a agricultura local e fortalecendo os sistemas alimentares locais. 

Empregos 

Programas de merenda escolar eficientes levam a retornos de até US$ 9 para cada US$ 1 investido. De acordo com o PMA, também criam empregos. 

O chefe do PMA disse que a agência “está totalmente empenhada em cooperar com parceiros para garantir que nenhuma criança, independentemente de onde viva, vá para a escola com fome ou não vá à escola.” 

Segundo Beasley, “após a turbulência dos últimos meses, deve se aproveitar a oportunidade para começar a construir o mundo melhor que todos querem ver.” 

FAO/Ubirajara Machado
Desde o fechamento das escolas, em março passado, mais de 39 bilhões de merendas deixaram de ser distribuídas em todo o globo

 

♦ Receba atualizações diretamente no seu email - Assine aqui a newsletter da ONU News
♦ Baixe o aplicativo/aplicação para - iOS ou Android
♦ Siga-nos no Twitter! Assista aos vídeos no Youtube e ouça a rádio no Soundcloud

 

Rastreador de notícias: últimas sobre o tema

ONU: pandemia corta mais de 39 bilhões de merendas escolares gerando crise de nutrição

Em comunicado conjunto, Unicef e Programa Mundial de Alimentos, PMA, informam que situação afeta 370 milhões de crianças, que deixaram de receber 40% das refeições no colégio; muitos alunos têm nas escolas sua única fonte de alimentação; agência pede que tema seja prioridade na reabertura das instituições de ensino.