ESPECIAL: metade dos pacientes com HIV pararam tratamento em áreas afetadas por ciclones em Moçambique

5 setembro 2019

País lusófono tem segunda maior incidência do vírus em África; desastres naturais destruíram centros de saúde, arquivos de pacientes e material hospitalar; nova série da ONU News apresenta resposta a ciclones de 2019 e esforços de reconstrução.*

Na noite de 25de abril, o ciclone Kenneth entrou pela costa da província de Cabo Delgado, no extremo norte de Moçambique, e destruiu a casa de Luísa Maio na vila de Macomia.

Luísa, de 36 anos, vive com o marido e o filho mais novo, numa casa feita de palha e barro. A família já tinha dificuldades alimentares, mas a tempestade também arrasou as suas machambas, campos onde cultivavam legumes, piorando a situação.

A moçambicana vive com HIV. Três dos seus quatro filhos vivem na mesma situação. Preocupada em reconstruir a casa e encontrar o que comer, a família parou com os tratamentos antivirais.

Em todos os locais atingidos pelos ciclones Kenneth e Idai, aconteceu o mesmo. Segundo uma análise do Ministério da Saúde, apoiada pelas Nações Unidas, houve uma queda de 50% no número de consultas de acompanhamento. O número de pessoas em tratamento também caiu para cerca de metade.

ONU News
O Hospital de Macomia foi parcialmente destruído pelo ciclone Kenneth em Abril

Acompanhamento

Quatro semanas depois do ciclone, Luísa e a família receberam a visita de Melita Baka.

Melita é uma ativista comunitária de uma iniciativa apoiada pela ONU e a Fundação Ariel Glaser contra o Sida Pediátrico. A agente comunitária e as suas colegas visitam casas de famílias que vivem com HIV ou estão em risco, explicando a importância de fazer diagnostico e seguir um tratamento.

Melita acompanha Luísa e os filhos há vários anos. Quando a ativista a encontrou, ela explicou que não estava tomando a medicação. Tinha perdido o cartão de identificação do hospital e estava ocupada a tentar sobreviver.

“Nós tivemos muitas dificuldades no campo porque para muitos pacientes a prioridade era procurar alimentação e abrigo, não o tratamento, então tivemos de andar de casa. Muitos tiveram mudança de residências, uns reiniciaram, outros não reiniciaram.”

Melita ajudou Luísa e a família a regressar aos tratamentos. Uns meses depois, no entanto, Anísio, o filho de 10 anos que ainda vive com Luísa, estava a reagir mal aos tratamentos. O menino está subnutrido, e quando toma os antivirais fica doente, com os lábios inchados.

Mesmo antes dos desastres naturais, o Programa Mundial de Alimentação, PMA, estimava que 80% dos moçambicanos não conseguiam ter uma dieta adequada. Em julho, a agência informou que 1,9 milhão de afetados pelos ciclones estão em risco de ter falta de comida se não existir ajuda internacional urgente.

Médico Santinho Carvalho atende paciente com HIV no Hospital de Macomia, em Cabo Delgado, Moçambique, ONU News

Epidemia

A diretora do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Sida, Onusida,  em Moçambique, Eva Kiwango, diz que o país “tem uma epidemia generalizada de HIV.” Segundo os últimos dados da agência, 2,2 milhões de pessoas no país vivem com o vírus, mais de 7,4 % da população.

Em 2018, aconteceram cerca de 150 mil novas infecções e 54 mil mortes, o que provocou uma descida na esperança média de vida para 53,7 anos. Eva Kiwango diz que “o maior desafio é fechar a torneira das novas infeções, com uma aposta muito forte na prevenção.”

Em Macomia, Luísa descobriu que vivia com o vírus há apenas quatro anos. A moçambicana foi mãe com 13 anos. Em 2015, dois dos seus filhos adultos receberam um diagnóstico positivo e ela decidiu fazer o teste. O filho mais novo, Anísio, já tinha sido contaminado durante a gravidez ou parto. No país, o vírus já deixou 1,1 milhão de crianças órfãs.

O Estado moçambicano oferece os medicamentos antivirais, mas mesmo assim existem dificuldades na sua implementação. Apenas 56% das pessoas com diagnóstico positivo tomam os medicamentos. A taxa é ligeiramente mais alta entre as crianças, cerca de 60%. Somente 68% das pessoas que iniciam o tratamento continuam seguindo o plano um ano depois.

Diretora do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Sida, Onusida, em Moçambique, Eva Kiwango, ONU News

Infraestrutura

A poucos quilômetros da casa de Luísa, no topo de uma colina, fica o hospital de Macomia. Para lá chegar, é preciso subir uma estrada que ficou danificada pelo ciclone. Grandes árvores foram arrancadas do chão pela força da tempestade e tombaram nos passeios. Santinho Carvalho é o diretor da unidade de saúde e o responsável pelo acompanhamento dos pacientes que vivem com HIV.

“O hospital sofreu danos muito avultados, a começar pela maternidade do centro de saúde, que ficou toda sem teto. Tivemos danos no bloco de laboratório, mas também onde funcionavam as consultas de doenças crônicas, principalmente para o HIV, onde o teto ficou completamente danificado.”

O especialista diz que “o aumento não foi muito substancial em relação a novas infeções”, mas que “parar os tratamentos permite o regresso de doenças oportunistas e aumenta as taxas de transmissão.”

No quinto mês após o desastre natural, o hospital continua danificado.  As consultas são realizadas  em tendas oferecidas pelo Fundo de População das Nações Unidas, Unfpa. Outras agências, como o Fundo da ONU para a Infância, Unicef, têm contribuído com material médico ou acompanhamento técnico.

A Organização Mundial de Saúde, OMS, estima que irá demorar cinco anos a recuperar toda a infraestrutura de saúde danificada. Durante os dois ciclones, 113 unidades de saúde foram parciais ou totalmente danificadas, incluindo equipamento, mobiliário, medicamentos essenciais e produtos.

Vulneráveis

Coordenadora residente da ONU em Moçambique, Myrta Kaulard,, by ONU News

A coordenadora residente da ONU no país, Myrta Kaulard, diz que “durante um desastre natural, as pessoas mais vulneráveis sofrem sempre os piores impactos.” Segundo ela, “estas pessoas podem ser alguém com deficiência, muito idosos ou muito novos ou doentes”, como as pessoas que vivem com HIV.

A diretora da Unaids em Moçambique afirma que o governo do país está empenhado com o fim desta epidemia. Segundo ela, “existe muita liderança, força e compromisso com políticas progressivas e com o objetivo de alcançar os objetivos até 2020.”

Eva Kiwango lembra que Moçambique “é um dos poucos países em África onde os trabalhadores sexuais e os homens que fazem sexo com homens não são criminalizados.”

Apesar disso, a representante diz que “ainda é necessário resolver o problema do estigma e discriminação contra as pessoas que vivem com HIV, para garantir que ninguém é deixado para trás.”

*Cobertura de Alexandre Soares em parceria com o Sistema das Nações Unidas em Moçambique.

ONU News
Pacientes em Macomia têm consultas em tendas oferecidas pela ONU e parceiros

 

 

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