Comandante brasileiro destaca sucessos da missão de paz na RD Congo
BR

24 junho 2019

Neste Destaque ONU News Especial, o comandante da Força da Missão das Nações Unidas na República Democrática do Congo, Elias Rodrigues Martins Filho, falou à ONU News sobre as ações para proteger a população do país das atividades de dezenas de grupos armados. O general brasileiro lidera mais de 15 mil militares, de 49 países em operações de paz.

Como está o comando da maior operação de paz do mundo?

Eu poderia lhe confessar que as expectativas de certa forma têm se tornado realidade. O exercício da liderança numa missão com a complexidade da Monusco, é algo que é muito rico para todos aqueles que exercem uma posição similar à que eu estou exercendo. Ser comandante de uma força de paz onde temos 49 países representados, e com o volume de unidades, batalhões de infantarias, unidades de aviação, unidades de engenharia, é realmente um exercício profissional muito rico e que nos engrandece, tanto como profissionais como pessoas. Após esse tempo, eu poderia confessar a você que essas expectativas vêm de tornando realidade e na minha avaliação, temos conseguido um progresso muito grande no que tange a pacificação e a estabilização no país.

General, estamos falando sobre estabilizar um país com 70, pelo menos 70 grupos armados ativos. Mas há também, por tanto, além da violência política, a violência étnica. Como é que é desdobrar essas forças para responder todas as necessidades no país?

O ambiente operacional da RD Congo, o ambiente operacional da RDC, é bastante complexo. Nós temos conflitos étnicos que são muito, que estão muito vivos ainda na população daquele país. E temos grupos armados que se aproveitam desses conflitos étnicos e das riquezas naturais do país para exercerem as suas atividades ilegais e produzindo uma violência muito grande contra a sua própria população. O nosso trabalho lá é exatamente proteger essa população e proteger uma população civil. E é algo de uma complexidade enorme, porque nos impõem conhecimentos que vão além das puras técnicas e táticas militares. Então, nós temos tido hoje, como grande desafio para nós, a prevenção. Porque só existe uma forma de você realmente proteger a população civil de um país numa situação operacional como vive a RDC. Primeiro, é você ter capacidade de prevenir. Ou seja, você desdobrar suas tropas preventivamente, chegando antes nas áreas que estão sob ameaça, antes dos próprios grupos armados e prevenir, não deixar que aconteça, aquele ataque. Essa é uma. E a outra é ir enfrentar diretamente os grupos armados que estão impondo essas ameaças contra a população civil. Temos tido vários sucessos, mas um país com a complexidade do Congo e com as dimensões do Congo e com a riqueza populacional e étnica do Congo, nós não podemos estar em todos os lugares. Nós somos apenas 15,134 tropas e 600 observadores militares, e isso faz com que nós realizemos as nossas avaliações de modo a desdobrar as nossas tropas nos lugares onde as ameaças estão mais latentes. Hoje, nós estamos concentrando as nossas presenças exatamente na fronteira leste do país, que é onde esses grupos estão mais ativos. Na fronteira leste, e ainda, mantendo uma presença na região dos Kasais.

Finnish Red Cross/Maria Santto
Proteção contra Ebola em Beni, República Democrática do Congo

Este é um país onde nós sabemos que tem uma outra crise ativa, a crise do ebola. Como é que é lutar nessas duas frentes. Primeiro, os grupos armados, e depois, essa doença que é uma ameaça, que as vezes mata mais do que uma guerra?

Com certeza. Bem, o ebola outbreak, que é como nós chamamos essa crise do vírus do ebola, agora, na região leste do país, concentrada nos territórios de Beni e Butembo, elas têm aumentado em muito a complexidade das nossas atividades lá. Nós temos desdobrados tropas adicionais nas áreas onde esse vírus está sendo combatido, com dois objetivos principais. Primeiro, proteger os humanitários, porque eles são os líderes nesse processo. Os humanitários que estão lá, vindos do mundo inteiro, estão lá conduzindo os seus trabalhos, num ambiente operacional difícil, e muitas vezes sofrendo hostilidades da própria população. E, num segundo momento, as nossas tropas estão lá para combater os grupos armados que atuam na área, que, desrespeitando todo esse processo, vêm atacar a própria população e em particular, os próprios humanitários. Então, nós temos sido, eu diria a você, bastante eficientes na proteção desses humanitários, tanto na região de Beni como agora em Butembo, mas é algo que demanda uma atenção toda especial. Você está certo, uma crise dessas pode causar muito mais mortes do que os próprios combates que nós estamos vivendo na região. E é por isso que nós estabelecemos o suporte à crise do ebola como a nossa prioridade máxima na área da missão.

© Acnur/Denis Oulai
Uma mulher recém-desalojada em um local de deslocamento na cidade de Bunia, na República Democrática do Congo.

A República Democrática do Congo é conhecida por ter essa Brigada de Intervenção. Foi a primeira brigada enviada, autorizada pelo Conselho de Segurança para uma operação de paz, por tanto, é possível atacar esses grupos armados. Esta situação, ebola, grupos armados ativos, uma complexidade ali dos conflitos no país, leva necessidade de mais treinos, há que atuar de forma específica, como é possível atuar dessa forma? A combater essas frentes todas?

Perfeito. A Brigada de Intervenção é uma brigada composta hoje por três países africanos diferentes. O Malauí, a Tanzânia e a República Sul-Africana. Nós temos um quartel general da brigada e temos os três batalhões, um de cada um desses países. Ela atua na região de maior risco da operação de paz, que é o território de Beni. É uma região que sofre a ameaça do grupo mais cruel em toda a área de operações que é o ADF (grupo rebelde). Então, esse combate já era naturalmente difícil por se tratar de um ambiente de selva e por se tratar do grupo mais bem organizado naquela área da missão, cometendo as maiores atrocidades. O que ocorre, é que na minha avaliação, nós precisávamos disponibilizar um treinamento adicional para essas tropas, e estamos desdobrando agora em julho, um grupo de especialistas brasileiros, especialistas em operações na selva, vindo diretamente da Amazônia, do nosso centro de operações na selva, para realizar durante seis meses, num período de seis meses, atividades de treinamento junto a essa Brigada de Intervenção. Atividades de treinamento que focará num primeiro momento na parte de planejamento, mas também as táticas e técnicas operacionais. Nós esperamos com isso darmos um suporte maior a Brigada de Intervenção que é uma das brigadas que tem a missão mais difícil na área de operações.

ONU/Sylvain Liechti
Boinas-azuis da Missão de Paz das Nações Unidas na República Democrática do Congo, Monusco.

Como é que essa experiência do Brasil pode ser positiva ou pode colher resultados num país como o Congo?

O Brasil tem uma selva, um ambiente de selva, a Amazônia, bastante similar ao ambiente de selva que nós encontramos no Congo. São selvas equatoriais. O mesmo clima, a mesma densidade, o mesmo tipo de árvores, etc. Então, as similitudes entre uma região e outra, nos ajudam bastante a fazer com que o nosso treinamento lá possa muito bem ser aproveitado nas operações que estão sendo realizadas no Congo. Esses militares que estão sendo desdobrados no Congo, todos eles têm experiências reais, vividas na selva durante 4, 5, outros até 10 anos de experiências em operações no interior da selva. E estão plenamente capacitados, tanto na parte de formação, com cursos, etc, como na parte de experiências práticas que vêm realizando durante os comandos que exerceram no ambiente de selva, mas também, nas diversas operações de que participaram. Então, nós acreditamos que esse suporte à brigada de intervenção, poderá contribuir e muito para a eficiência da brigada no planejamento e na condução das operações ofensivas contra os grupos armados que atuam na área.

Os seus 15 mil cento e poucos homens serão diminuídos, gradualmente, segunda a recomendação do Conselho de Segurança. Como é que pensa que a situação deste país vai ficar, onde os conflitos continuam ativos, acha que há necessidade de mais forças internacionais, como esta intervenção do Brasil, por exemplo?

Veja, a decisão sobre o futuro da missão está nas mãos do Conselho de Segurança. O Conselho de Segurança em março deste ano, ele estendeu o mandato da missão praticamente como ele estava até dezembro deste ano, quando, a partir de um trabalho que ele também determinou, ou seja, a revisão estratégica da missão, ele tomará decisões sobre a próxima resolução. Então, nos entendemos que até ao dia 20 de dezembro de 2019, nós teremos uma nova resolução, possivelmente com um novo mandato. Então, nós estamos na área da missão, dispostos a contribuir integralmente com esses estudos e colocar a serviço desse grupo que foi designado para realizar a revisão estratégica as nossas experiências e os nossos conhecimentos sobre a área. Não apenas nós os militares, mas todos os componentes da missão, militares, policiais e civis, colocando as suas experiências e os seus conhecimentos e a sua vivência na área à disposição daqueles que têm a responsabilidade de produzir uma visão estratégica e submetê-la ao Conselho de Segurança para elaboração de uma nova resolução.

E por último, queria falar do homem, Elias Rodrigues Martins Filho, do Brasil, na República Democrática do Congo. O que é que mudou?

Como eu lhe disse no início, a Missão, a Monusco, ela nos engrandece pessoal e profissionalmente. Hoje, eu saio melhor nas duas vertentes. Eu me considero uma pessoa mais madura, uma pessoa apaixonada pelo país, a República Democrática do Congo, porque é um país de belezas exuberantes, com vulcões, com lagos maravilhosos, com rios caudalosos, com uma natureza que foi muito bondosa e promete àquele país, vamos dizer, um futuro brilhante, basta que eles entendam isso, estabilize e tenha paz para ter um desenvolvimento que será exponencial para o mundo todo. Profissionalmente, o exercício da liderança numa missão desse porte, nos faz mais seguros e nos faz mais sentir que o aprendizado é diário e que nós estamos sempre aprendendo para nos tornar melhores profissionais.

E essa ligação Brasil, um brasileiro, com o Congo. O brasileiro comum pode sentir algum vínculo, alguma pertença neste processo de estabilização?

Com certeza. O Brasil tem uma ligação com o Congo que remonta aos tempos coloniais. O Brasil tem uma ligação com o Congo até pelo entorno estratégico brasileiro. O Congo está no Atlântico Sul, nós temos um litoral congolês no Atlântico Sul, que se debruça diretamente, do outro lado, com o litoral brasileiro. Então, essa ligação de povo e a relação física entre os dois países é uma relação que só promete a aproximação desses dois países. Como force commander, eu estou representando a comunidade internacional, mas como brasileiro, eu sinto muito orgulho do futuro que o povo congolês tem nas mãos.

 

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