Preservação das florestas, cultura e direitos dos povos indígenas
BR

30 abril 2019

ONU News conversa com o indígena e ativista Benki Piyãko e com o Ben Meeus, advogado belga e ativista dos direitos indígenas sobre os desafios atuais enfrentados e a importância da preservação das florestas e da cultura indígena. Benki Piyãko é liderança do povo Ashainika, que vive no Acre, norte do Brasil.

Benki Piyãko e Ben Meeus participam da 18ª sessão Fórum Permanente sobre Assuntos Indígenas nas Nações Unidas, que começou no dia 22 de abril na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, com uma cerimônia na Assembleia Geral. O evento termina no dia 3 de maio.

Ben, você poderia falar um pouco para a gente do seu trabalho com os indígenas? Como começou, por que é que você fala português?

Bem: Porque que eu falo português é porque eu tive um interesse, desde dez anos já, dez anos atrás, de entender as partes mais espirituais da floresta amazônica através do uso das plantas medicinais. Eu encontrei dentro de tudo isso também toda uma luta ligada aos povos indígenas e através disso eu comecei a estudar direito e também entrando, a fazer um estágio nas Nações Unidas. E através disso, então, tentando fazer a minha parte ajudando lideranças como o Benki a chegar na ONU para poder falar sobre esses sistemas que ainda discriminam e ainda fazem com que eles tenham uma vida bastante difícil perante todas essas coisas externas que estão chegando nas terras deles.

 

E qual mensagem você veio trazer aqui, Benki, para esse evento aqui da ONU. Qual o momento atual que o Brasil está passando para as comunidades indígenas, que mensagem que você traz aqui para a comunidade internacional?

Benki: Eu, como um defensor de direitos humanos, defensor dos povos indígenas, e por ser um indígena também, eu vejo que o nosso país está numa dificuldade muito grande, de valores humanos. O nosso povo tem sofrido bastante pelo desmatamento. Atropelando a nossa sobrevivência. Nós temos hoje várias barragens de hidrelétricas que foram feitas em vários lugares dos povos indígenas. Hoje nós temos várias mineradoras de ouro, de petróleo. Então, a gente tem passado uma grande dificuldade, de poder inclusive, conversar com as autoridades do nosso país. E agora recentemente, com esse governo, tem dado para a gente um choque muito grande, porque de eles estarem incentivando a exploração desses minérios, da destruição da floresta, a gente sabe que os rios, estão todos sendo poluídos, estão se acabando pela poluição. Então, nós resolvemos entrar nesse debate, porque só assim, nós podemos conhecer também melhor os nossos direitos, melhor de que maneira a gente pode também estar cobrando o nosso governo. A minha luta desde criança foi plantar florestas, foi proteger os animais, os rios, e trabalhar os conhecimentos tradicionais, das culturas dos povos indígenas. Eu tenho esse trabalho desde criança, como uma luta muito intensa para trazer os valores dos povos indígenas numa presença do país.

 

E Ben, você trabalha justamente com os direitos indígenas. Nessas questões que o Benki está comentando aqui, quais são os desafios, o que é que você está buscando fazer para ajudar nessa questão.

Ben: Eu acho que o desafio é maior quando se fala da lei e também está sempre na mente das pessoas. Eu acho que ainda existe um racismo, ainda existe uma discriminação que nós podemos observar através da aplicação de certas leis. E também, agora, ainda mais na fala do próprio presidente, por exemplo, do Brasil. São desafios, mas eu acho que isso, o maior desafio eu é realmente tirar esse rancor que está ainda no coração de certos povos. E simplesmente trazer uma reflexão sobre realmente o que está acontecendo com a natureza, com as terras, com tudo o que estávamos fazendo através da nossa própria alimentação. Não somente físico, mas também alimentação do pensamento sobre o que estavam fazendo com o mundo. Eu acho que os povos indígenas, lá dentro, a única forma de mudar isso é através da voz dos povos indígenas, através do exemplo. E é exatamente isso que eles estão trazendo aqui. E... não dá para fazer mais não.

 

Agora, para encerrar eu vou fazer uma pergunta para vocês dois. Eu queria saber o que vocês estão levando para casa desse evento que está acontecendo aqui na ONU, dessa troca de experiências com outras comunidades indígenas de diversas partes do mundo.

Benki: Eu vejo que a luta dos povos indígenas ela não está só na nossa região, ela está em todos os países do mundo. A perda da língua, a destruição da terra, a poluição das águas. E a luta de todos os povos indígenas pelo valor dessa ligação do homem com a terra, que estão sendo demolidas, destruídas. Então a grande preocupação dos povos indígenas é de como vamos trazer isso de volta nos valores dos seres humanos. Então isso para mim é muito importante. Poder ver o mundo inteiro preocupado hoje preocupado com o mesmo tema. Não é outro tema diferente, é não perder a língua, os conhecimentos, as coisas que a gente tem trabalhado sempre na nossa vida. Então isso eu vou levando assim como um grande exemplo né. De chegar na minha terra e falar para todo o nosso povo do que está acontecendo, não só na nossa terra, mas no mundo inteiro. E de que todas as experiencias que a gente teve aqui, captou os conhecimentos que a gente pôde ter também com outras lideranças, pessoas que têm também o coração aberto para poder ajudar também. E mobilizar também o mundo através desses conhecimentos que hoje a gente está vendo aqui, da ciência, da academia. Isso vai ser muito importante para mim. Eu acho que é um grande passo.

Ben: Eu pessoalmente, assim tendo uma formação jurídica, é muito interessante observar que existe realmente uma vontade dos países do mundo de declarar os direitos dos povos indígenas e que isso dá uma base para poder, por exemplo, o que o Benki está fazendo lá na aldeia dele, nas terras dele, é construir um centro de cura, educação e formação, conforme os saberes tradicionais do povo Ashaninka. E isso, juridicamente falando, dá já uma base para criar uma boa prática que poderia se tornar um exemplo em nível mundial de como trabalhar junto com a lei, junto com a ética, junto com esses esforços que estão sendo feitos em nível internacional, e colocando em prática lá nas comunidades.

 

 

 

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