Destaque ONU News Especial: Indígenas brasileiros defendem proteção de direitos

23 abril 2019

Sara Yawanawa e Lucas Manchineri participam do Fórum Permanente sobre Assuntos Indígenas. Representando o Brasil, eles destacam a defesa de direitos como prioridade. A 18ª sessão do fórum acontece na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, e durante duas semanas reúne centenas de participantes de todo o mundo. 

Em entrevista à ONU News, a integrante da comunidade indígena Yawanawa disse que trazer uma “mensagem de força” para o encontro. Já Lucas, morador da Terra Índigena Mamoadate, explicou quais são os maiores desafios desses povos.

Sara. Que organização é que representa do brasil e que mensagem é que traz até este Fórum?

Olá, meu nome é Sara Yawanawa, Nawashahu, na minha língua Yawanawa. Eu estou aqui representando a minha associação sócio cultural na qual eu trabalho com o meu povo, e estou aqui trazendo uma mensagem do meu povo de força mesmo, para os povos indígenas, pelo qual o momento que a gente está passando, enfrentando todas as dificuldades que a gente está enfrentando nesse momento, que não está sendo fácil. Então, a mensagem é de força mesmo para todos os povos que estão sofrendo, que estão lutando pelos seus direitos.

Então, a minha mensagem é muito, é a nossa força. Então, a gente tem que se apegar a ela, a gente tem que lutar mesmo pelos nossos direitos. Não podemos recuar, não podemos nos deixar enfraquecer. Temos que nos fortalecer dentro da nossa comunidade para a gente estar junto com os outros povos, fortalecendo a nossa cultura.

 

Lucas, que organização é que representa, e a mesma pergunta. Que problemas, que propostas que traz aqui a Nova Iorque?

Sou Lucas Machineri, da terra indígena Mamoadate, meu povo é Machineri. E estou na organização MAPPHA. Os problemas são os retrocessos que estão tendo no Brasil sobre a violação dos direitos dos povos indígenas. Inclusive temos vários líderes no Brasil agora, no acampamento Terra Livre, em Brasília, justamente para fazer as reivindicações dos nossos direitos.  Porque hoje é um retrocesso muito grande a questão das demarcações das terras indígenas, a entrada de mineração, de madeireiros dentro das terras indígenas, e também as fronteiras. Quando se fala as terras indígenas não só do Brasil, mas também se fala da fronteira, porque é onde entra madeireiros, narcotraficantes e garimpeiros. E a minha terra indígena ela fica numa terra na tríplice fronteira numa área muito, que tem esse movimento, essas atividades ilegais de madeireiros, narcotraficantes e também garimpeiros que ficam na nossa vizinhança, e do lado peruano também.

 

Sara, também enfrenta estes mesmos problemas no estado do Acre, no norte do Brasil, também enfrenta estes problemas. E como é que a comunidade internacional, e uma organização como a ONU, pode ajudar?

A gente enfrenta sim essas práticas ilegais dentro das nossas comunidades. E na minha opinião, a ONU pode ajudar nos dando suporte, nos protegendo dessas ameaças que estão entrando nas nossas aldeias. Tem muitas crianças morrendo, as nossas lideranças estão morrendo, e morrendo protegendo a nossa terra. Então, eu acho que ela pode ajudar dando suporte para a gente, apoiando os nossos projetos, apoiando financeiramente as necessidades que cada comunidade enfrenta. Então, eu acho que ela poderia, é de grande importância esse papel da ONU nas nossas comunidades. A gente precisa muito desse apoio. E a gente está aqui reivindicando, pedindo ajuda. A gente não pode perder mais o nosso espaço. A gente tem que ganhar mais espaço, ao invés de perder o que a gente já conquistou.

 

E quando fala com povos indígenas e representantes de outros países. Os problemas são comuns, consegue aprender com as experiências deles?

Sim, com certeza, é uma troca de experiência muito grande. Isso nos fortalece, isso fortalece a gente como indígenas, para lutar pelos nossos direitos. A gente consegue ver que os problemas são os mesmos. Não são os mesmos, são parecidos, mas a gente está todos juntos nessa luta. É a partir daí que a gente se fortalece para cada um lutar pelos seus direitos, pela sua comunidade, no seu país. Não importa se é no Brasil ou se é em outro país, a gente está junto lutando pelos mesmos objetivos. Que é conquistar os nossos direitos tradicionais e preservar a nossa cultura.

ONU News/Predrag Vasić
Crianças da Nação Onondaga atuaram na abertura do Fórum na Assembleia Geral

 

Lucas, um dos temas do encontro deste ano tem a ver com a transmissão do conhecimento e das práticas tradicionais. Como é que na sua comunidade, se isso é um desafio, e como é que isso se faz, como é que vão passando esse conhecimento para as novas gerações?

Uma boa pergunta. Eu acho que é o momento que hoje a sociedade envolvente, ela está cada vez mais entrando dentro das comunidades. Acho que primeiro, a questão dos conhecimentos tradicionais é valorizar o que existe e recuperar o que perdermos. A outra coisa é fortalecer os professores indígenas, fazer a formação e continuar a fazer a pesquisa que sempre fizeram na formação deles, e colocar isso tudo em livros. Colocar em livro, em escrita, para as crianças sempre estarem lendo e entendendo a lógicas dos nossos conhecimentos. Hoje, muitos professores indígenas, especificamente no Acre, estão fazendo pesquisa, estão buscando conhecimentos ancestrais, como é que era antigamente, a educação que se dava de pai para filho, de avô para neto, acho que isso é uma habilidade muito grande e que isso seja reconhecido pelo estado brasileiro, pela ONU também, reconhecer e valorizar essas práticas de trabalho que nós estamos realizando. Eu tenho uma pesquisa que fala justamente, na minha tese, na minha formação, terminei falando dos sonhos. Quando o Manchineri sonha e a transmissão da floresta para o Manchineri. Por exemplo, uma árvore vira gente na nossa sociedade. E ela nos ensina. E qual é a dieta que um Manchineri deve ter para poder falar com uma árvore e ela nos ensinar os ensinamentos tradicionais do povo Manchineri? Então eu acho que é mais ou menos isso quando se fala do conhecimento. Hoje temos nossa identidade, nossa língua, nossa organização social, tem a prática das medicinas tradicionais dentro da terra indígena, tem a escola. A escola é mais uma parceira. Ela não está para impor, e sim para acrescentar nosso conhecimento. Aquilo que já existe, colocar em escrita. Muitas vezes está só em oralidade. E fortalecer esses conhecimentos que já existem dentro da comunidade. E aí vêm os projetos. Os projetos devem vir para ajudar, incentivar e valorizar a profissão do professor dentro da terra indígena. E o mais velho que conhece todos os conhecimentos que existem ali naquele povo.

 

Sara, em relação a esse tema cultura. Este ano é o ano internacional das línguas indígenas. Como essa situação está na sua comunidade e no Brasil. As crianças têm interesse em aprender a língua, há muitos desafios, há muito trabalho a fazer?

Uma das minhas preocupações como jovem liderança do meu povo é a questão da educação dentro das comunidades. A educação é muito importante para a gente. A língua é a nossa identidade, a gente não pode perder. Então a minha preocupação como jovem liderança, eu tenho que, as crianças têm que ter essa oportunidade de resgatar o que a gente estava perdendo, a língua. Então a gente não pode perder, a gente tem que ganhar mais ainda. E uma das minhas preocupações é exatamente a educação dentro das comunidades, trazer a língua de volta, criar projetos, criar caminhos para que a gente fortalecer isso dentro das aldeias. Então eu vejo isso como uma grande preocupação mesmo, como pessoa, como mulher. Eu sou mulher então eu tenho a obrigação de ensinar para o meu filho o que meu pai passou para mim, a minha língua, os meus conhecimentos tradicionais, o meu povo. Então eu acho que a educação ela é muito importante dentro da comunidade, e a gente tem que mostrar isso, mostrar essa necessidade que a gente está vendo lá. Isso a gente está vendo dentro das aldeias, então a gente tem que resgatar esse conhecimento tradicional, essa nossa identidade. É a partir daí que a gente está se fortalecendo. É a partir daí que a gente pode dizer eu sou forte, eu vou lutar e essa é a minha identidade. As mulheres têm que conquistar espaço, ganhar mais espaço ainda. Eu trabalho para as mulheres, para elas se sentirem empoderadas. Eu me sinto empoderada dentro da minha comunidade, dentro do meu povo. Eu tenho o meu espaço como jovem e eu preciso passar isso para elas também. Então isso através da educação, as mulheres com o conhecimento tradicional, as crianças, os velhos, todos juntos em busca do mesmo objetivo que é resgatar nossa cultura.

 

 

 

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