Nova geração de indígenas do Brasil

25 abril 2019

ONU News conversa com um pai e uma filha que são ativistas indígenas. Do Brasil, Marcos Terena e Taily Terena participam no Fórum Permanente sobre Assuntos Indígenas nas Nações Unidas que fala do cuidar dos saberes ancestrais.

Ambos representam o povo Xané, mais conhecido por Terena, e carregam em sua bagagem um filme sobre habitantes de áreas do estados do Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e São Paulo. Os Terena são originalmente da região do pantanal e atualmente umas maiores populações indígenas do Brasil, com mais de 27 mil pessoas. Na conversa acompanhe alguma música com palavras no idioma aruak. Os Terena contam com mais de cinco séculos de contato marcado pelo esforço para preservar sua cultura, idioma e modo de viver.

Marcos Terena, que já conversou muitas vezes conosco aqui nas Nações Unidas como líder da Funai e continua líder indígena e está hoje em outras frentes, ainda ativo. Mas falo também da Taily Terena. É filha, é antropóloga, mas é também, portanto, uma grande ativista a nível regional. Faz parte do Enlace Continental de Mulheres das Américas, portanto, mulheres indígenas das Américas. Faz parte também do Comitê Intertribal Memória e Ciência Indígena, e participam neste Fórum, que falam entre outros temas, com destaque, do que os ancestrais estão a deixar. Vamos começar por aí. Este tema, como é que veio parar aqui? Eu sei que tem um dedo dos indígenas do Brasil.

Marcos: É verdade, né? Nós, nossas comunidades, nossas aldeias no Brasil, tem mais de 300 povos, fizemos um estudo primeiramente para perceber as mudanças entre o novo e o velho. O ancestral, vamos dizer assim, e também a nova geração de indígenas. E foi interessante, porque tem um vácuo entre essas gerações. A nova civilização, ela corta, ela faz um corte. E, só que lá nas aldeias, não tem asilo, por exemplo, para proteger os mais velhos. E nem é essa a nossa intenção. Ao contrário. A gente tem que criar um mecanismo para que a juventude, mesmo fora da aldeia, não deixe de ser indígena e não abandone esses costumes, por exemplo, de relacionamento com os mais velhos. Porque os mais velhos é que são as raízes e o detentor dos conhecimentos tradicionais.

 

Marcos Terena tem uma filha e ela é Taily. É antropóloga, estuda e lida diretamente com as questões indígenas. Essa questão do vácuo que existe entre as gerações. Será que esta presença aqui, de um pai e de uma filha, pode de alguma forma mostrar que é possível uni-las?

Taily: Acredito que sim, porque essas questões desse vácuo que tem se criado diante desses tempos modernos, vamos assim dizer, é muito por conta das opções que a gente tem tido de escolher. Fazer escolhas diante desse novo universo como juventude. Só que como juventude, a gente também precisa reconhecer que dá para a gente manter esses dois universos. Tanto, uma vida no mundo moderno, quanto, manter os nossos saberes tradicionais, nossa identidade. Então, e na perspectiva indígena mesmo, tanto, de vários povos, não só do Brasil, não só Terena. Mas a gente aprende com o exemplo, com o convívio. Então, estar aqui por exemplo com o meu pai é uma forma de aprender, e não só de aprender, mas de enaltecer essa relação entre o mais velho e o mais novo.

 

Vamos agora a consequência desse vácuo. Perdem-se conhecimentos, perdem-se saberes dos quais, por tanto, os povos indígenas são uma referência. Como é que tem passado para a sua filha este conjunto de valores?

Marcos: É um desafio. Não vou chamar de dificuldade, mas um desafio, porque geralmente quem transmite os conhecimentos são as mulheres, desde a canção do neném lá perto da lagoa, perto do rio. Contando já nas canções os sinais do meio ambiente, das estrelas. E as crianças aprendem desde a cantar, não só a cantar, mas a ouvir a poesia que essas mulheres fazem. E isso vai ao longo do tempo. Então, como houve uma necessidade, por exemplo, eu tive que sair da aldeia, né? Meus pais ficaram lá, meus avós também. Então, a nova geração, da minha geração para a frente, a gente encontra uma dificuldade muito maior de transferir esses conhecimentos. Mas, existe uma questão. O grande espírito, por isso a gente usa esse simbolismo da natureza, que não é um enfeite, não pode ser enfeite. Isso também é um problema, muitos jovens estão se enfeitando de índio, porque se não vira o que no Brasil chamamos de Carnaval. Então, temos que ensinar e aprender a respeitar esses códigos também, as pinturas e a linguagem dos sonhos, da cosmovisão, da espiritualidade. Isso só acontece quando temos o nosso habitat garantido, a demarcação do nosso território. Então, transmitir isso também não é dar uma aula para os filhos nem para os netos, é a convivência que vai engrandecer essa relação. E quando essa pessoa indígena aprende, nunca vai esquecer esses ensinamentos.

 

 

Essa convivência parece estar sendo perdida, o Marcos disse que deixou a aldeia há algum tempo. Os jovens agora estão deixando as aldeias e passando para outros territórios. O que se aprende e o que pode se aproveitar dessa migração das aldeias para as grandes cidades?

Taily: Eu acho que essa migração para as grandes cidades dos jovens... primeiro a gente tem que pensar que tipo de migração está acontecendo. Por exemplo, na nossa região tem muitos jovens que estão saindo de suas aldeias porque não têm uma oportunidade de trabalho. Não tem uma perspectiva. Então, às vezes saem da aldeia para procurar essas perspectivas. A base de todo nosso conhecimento é a nossa terra, nossa relação com o nosso território, nossa relação com o ambiente em que a gente vive. Então, quando a gente sai dela porque a gente não consegue mais se manter nela por conta de recursos, a demarcação da terra não existe, da violência, existem dois caminhos: um deles, e que eu estou seguindo agora, é ir para a universidade, e que eu acho muito positivo para nós como jovens indígenas, poder se apoderar desse conhecimento não indígena para nosso benefício. A gente estudar, ganhar um diploma, levar o conhecimento pra a nossa comunidade, mas levar os nossos conhecimentos tradicionais para a universidade. Essa troca tem que ser de duas mãos, isso é muito importante. E a gente tem que pensar para onde esses jovens estão indo e o que eles estão levando das aldeias. Como meu pai falou, a gente não dá aula na aldeia, você não vai ter aula com a sua avó, ela não vai botar no quadro, mas eu diria que é um conhecimento transmitido de uma forma invisível. Você vai aprendendo, você leva isso consigo. É espiritual, é através dos sonhos, é através da convivência, então, essa é uma forma também de a gente continuar, porque mesmo a gente estando na cidade a gente não perde nossa identidade.

 

Uma última pergunta, este é o Ano Internacional das Línguas Indígenas, as línguas são importantíssimas para essa passagem de conhecimento de uma geração para outra. E se as línguas desaparecerem, o que se perde? O Brasil tem cerca de 200 línguas ou um pouco mais.

Marcos: perde-se o povo, não vai existir o povo terena. Vai existir o descendente do povo terena, alguma coisa assim. Aparentemente, isso gera discriminação, preconceito. Inclusive nós vivemos isso na nossa região. Por isso existem muitos conflitos. Porém, o índio jovem, quando ele tem a força dos seus ancestrais ele vai pra cidade, vence as batalhas, ele vence os desafios. Isso a gente tem que mostrar para o jovem, que ele não pode esmorecer. Ele tem que superar essas questões, essas armadilhas. Por exemplo, em relação à prostituição, ao consumo de drogas, de bebidas alcóolicas, que pode envolver qualquer jovem, imagina o jovem indígena que não conhecia isso. E não esquecer de na época das festas, das tradições indígenas, voltar para sua aldeia para celebrar. Havia um conceito de um especialista em índio de que todo índio que se formasse na universidade tinha que voltar pra aldeia. Isso é falso porque se você forma um médico, um jornalista, tudo o que ele aprendeu para melhorar sua condição de vida, por exemplo, eu fui aviador, agora estou aposentado, como eu ia voltar pra aldeia pra ser aviador? Isso é irreal do ponto de vista prático. Aí a gente fez essa relação de não perder alguns lemas básicos, qualquer povo. No ano de 1981, quando o governo militar da época quis expulsar a gente de Brasília, a gente disse: eu posso ser o que você é, mas sem deixar de ser quem sou. E até hoje a juventude lembra dessa frase, que foi feita como um slogan mas com uma filosofia realmente oriundas das nossas ancestralidades.

 

 

 

 

 

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