21 março 2019

A ONU News falou com o diretor do Escritório sobre o Quadro Global para os Serviços Climáticos da Organização Meteorológica Mundial, OMM, sobre ciclone tropical que abalou o sudeste de África. Filipe Lúcio explicou que a agência acompanha a situação com preocupação e começou já a trabalhar com o governo do país para perceber como se pode melhorar os avisos às populações.

Filipe Lúcio é diretor do Escritório sobre o Quadro Global para os Serviços Climáticos da Organização Meteorológica Mundial, OMM, e ex-diretor do Instituto Nacional de Metereologia em Moçambique. O representante  lembra que o aquecimento global aumenta a intensidade destes fenómenos climatéricos e, por isso, considera que  é fundamental que se aposte em mais informação às populações sobre os verdadeiros impactos destes desastres naturais. 

Filipe Lúcio (FL): A Organização Meteorológica Mundial tem estado a acompanhar este fenómeno com muita preocupação, pelo facto de ter sido um ciclone dos mais fortes, de categoria 4, capaz de causar estragos e como seu viu os estragos em Moçambique foram consideráveis. Por causa disso, estamos interessados em não só monitorar o que está a acontecer, mas também para trabalharmos com o país no sentido de reforçar a sua capacidade de prever avisos prévios. Pessoalmente, estive em contacto com o Instituto Nacional de Meteorologia de Moçambique com o qual estamos a coordenar uma possível missão de avaliação no terreno para determinar o que mais se pode fazer para reforçar as capacidades do Instituto Nacional de Meteorologia.

A ONU e os parceiros humanitários estão aumentando o fornecimento de suprimentos emergenciais de alimentos, abrigo, água e cuidados de saúde para centenas de milhares de pessoas que foram afetadas em todo o Moçambique, Malawi e Zimbábue.PMA/Deborah Nguyen

ONU News (ON): O que se pode dizer sobre a frequência destes fenómenos na região? É expectável que sejam cada vez mais frequentes?

FL:Teoricamente, sim. Temos estado a falar da possibilidade da ocorrência de fenómenos com maior intensidade e, no caso dos ciclones tropicais, há teorias que indicam que por causa de aquecimento global poderá acontecer ciclones tropicais com maior intensidade. O que não está ainda muito claro, que é ainda objeto de debate, é se a quantidade de ciclones tropicais aumentará ou não por causa das mudanças climáticas. Nós sabemos que por causa do aquecimento os ciclones terão maior intensidade.

ON: Porque é que neste caso se considera que é um dos maiores ocorridos no Hemisfério Sul.  Pelas suas características? Pela sua intensidade?

FL: Sim, é considerado pelo facto de ter atingido a categoria 4, como sabe, os ciclones tropicais são categorizados de 1 a 5, sendo 5 o mais forte de todos. Portanto, um ciclone de categoria 4 é um ciclone devastador e por causa disso, no caso de Moçambique, por exemplo, nunca ocorreu um ciclone de categoria 5, felizmente, mas infelizmente ciclones do tipo 4 podem ser, como foi o caso, uma realidade. Portanto, nos países que são afetados por ciclones tropicais, é raro a ocorrência de um ciclone de categoria 5. Portanto, quando se chega um ciclone de categoria 4 estamos já nos extremos e este foi um caso específico.

ON: O Filipe Lúcio já foi também diretor do Instituto Nacional da Meteorologia de Moçambique durante muitos anos, portanto, conhece bem as caraterísticas climáticas do país.  Na sua opinião, o país está preparado para reagir a este tipo de fenómenos? O que é necessário fazer para melhorar os alertas meteorológicos para avisar a população?

A OMM considera que um ciclone de categoria 4 tem efeitos devastadores.Foto: PMA

FL: Infelizmente quando ocorreram as cheias do ano 2000, eu era diretor do Instituto Nacional de Meteorologia. Naquela altura, dizia eu, estávamos muito menos preparados do que hoje. Tirámos lições do que aconteceu no ano 2000 e foi reforçado, não só o sistema de aviso prévio, mas também a capacidade das instituições envolvidas na provisão de informação, mas também em ações que levem a respostas quando um aviso quando uma informação é prestada. Portanto, houve um relativo avanço, houve um relativo avanço, houve melhorias, essas melhorias foram também acompanhadas por alguma legislação que veio melhorar o ambiente de catástrofes e em Moçambique. Mas no caso dos ciclones tropicais, um ciclone de categoria 4 precisa de códigos de construção que sejam códigos que permitam que a infraestrutura que existe seja capaz de aguentar com ventos, com rajadas, que excedem os 150 quilómetros por hora. No caso das nossas infraestruturas e uma das características dessas infraestruturas é que por exemplo houve tetos de muitas casas que voaram com a intensidade do vento. Significa isso que a construção em si não estava dimensionada para fazer face a um ciclone desta magnitude. Portanto, há questões relativas ao aviso em si, em termos de aviso, a informação já estava disponível muito antes da ocorrência do ciclone. Portanto foi possível prestar alguma informação de forma antecipada. Agora, importa é ver, como lhe dizia, o facto das infraestruturas não terem sido desenhadas para aguentar com este tipo de evento, mas por outro lado temos também a questão das construções precárias que foram as mais afetadas de todas, temos de ver se no países existiam condições, na Beira em particular, de acomodação de pessoas em centros específicos que tivessem sido previamente identificados e previamente preparados para poderem acolher pessoas. Há uma série de coisas que têm de ser revistas não simplesmente do ponto de vista de aviso prévio mas também de organização para que quando o aviso é dado as estruturas, as pessoa, possam reagir. Estive a acompanhar alguma informação nos media indica que as pessoas tinham recebido a informação, algumas confirmaram que receberam informação, mas acharam que talvez não fosse necessário sair de suas casas, porque acharam que era coisa que eventualmente não causasse muito estrago. Portanto, há também aqui uma questão de conhecimento porque quando se fala de um ciclone de categoria 4 é diferente de falar de um ciclone 3 ou de categoria 2. Portanto, as pessoas têm de saber têm de ser capaz de visualizar que tipo de impacto se podem esperar deste tipo de fenómenos, de acordo com a sua categoria.

ON: Na sua opinião também é preciso apostar em mais informação?

FL: É preciso prestar mais informação, é preciso que a informação não seja simplesmente comunicada mas que se dê uma dimensão do tipo de impactos. Por exemplo, quando se diz que vai haver um vento de 150 quilómetros por hora pode significar diferentes coisas para as pessoas, por exemplo, com tipos de habitação diferentes. Para alguém que esteja numa casa convencional, de cimento, provavelmente um vento de 150 quilómetros por hora possa causar estragos, mas são estragos mínimos. Para quem esteja numa casa, uma construção precária, um vento de 150 quilómetros por hora pode significar a destruição total desta habitação. Portanto, é preciso que se dê estes termos de comparação para que as pessoas possam imaginar, possam visualizar o tipo de impacto que podem esperar deste tipo de fenómenos.

 

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