28 janeiro 2019

Em entrevista à ONU News, o relator especial sobre o direito à água e ao saneamento básico, Léo Heller, explica os principais riscos para a natureza e para a população depois do rompimento da barragem em Brumadinho, no estado de Minas Gerais; especialista diz que rios Paraopeba e São Francisco devem ser afetados. 

O relator especial sobre o direito à água e ao saneamento básico, Léo Heller, acredita que ainda é muito cedo para perceber quais serão as consequências ambientais do rompimento da barragem de Brumadinho, no estado brasileiro de Minas Gerais.

Falando em exclusivo à ONU News de Minas Gerais, o especialista explica que é quase certo que as lamas chegarão aos rios Paraopeba e São Francisco  e poderão levantar sedimentos, como metais pesados, que estão depositados no leito desses rios que passam por vários estados. 

Área atingida pelo rompimento da barragem em Brumadinho, Minas Gerais, Brasil, by Presidência da República/Divulgação

Pelo menos 60 mortos foram confirmados  e dezenas de pessoas desapareceram na sequência do incidente da barragem que aconteceu na sexta-feira.

Para o relator especial, uma tragédia ambiental como a que ocorreu com o rio Doce, há três anos, pode voltar a repetir-se. 

ONU News (ON): O que sabemos em relação a estas águas e quais são os riscos para a população?

Léo Heller (LH): O desastre, ou a tragédia, de Brumadinho aconteceu na sexta-feira como consequência do rompimento de uma barragem, propriedade da mineradora Vale. A Vale é uma das maiores empresas brasileiras, é uma das maiores mineradoras do mundo, a terceira maior empresa do Brasil e é também có-proprietária da Samarco, que foi a responsável pelo desastre que ocorreu há pouco mais de três anos em Mariana.

Então, essa barragem rompeu, a lama, com resíduo que era acumulado na barragem... Era uma barragem de acumulação de resíduos de mineração de ferro. Ela desce, rio abaixo, ao descer soterra muitas casas, muitas instalações industriais, mata muitas pessoas. Há uma expectativa de que deve ultrapassar 300 mortes, com esse soterramento. E obviamente, ao descer, ela prejudica a qualidade da água.    

Há muitas pessoas que utilizam essa água, para diferentes atividades, e isso precisará ser mapeado. Há localidades que usam a água dos rios para consumo humano, para sistemas coletivos de abastecimento de água, e isso também terá de ser muito bem analisado a situação dessas localidades. Muito provavelmente precisará ser interrompido o abastecimento de água de algumas localidades, porque aumentará muito a quantidade de sólidos e possivelmente de metais nas águas.

Muito provavelmente precisará ser interrompido o abastecimento de água de algumas localidades, porque aumentará muito a quantidade de sólidos e possivelmente de metais nas águas.

ON: A empresa diz que a água não tem substâncias tóxicas, mas existem outros perigos. Pode explicar?  

LH: O desastre anterior, que ocorreu em Mariana, trouxe algumas lições em relação a isso. As empresas afirmam que o resíduo não contém material tóxico, que ele é composto basicamente de sílica, de terra, de areia, que não seria tóxico, mas os rios de regiões de mineração, em geral, têm muito metal sedimentado no fundo.

Nesse caso particular, a barragem fica em um córrego, chamado Córrego do Feijão. O Córrego do Feijão é afluente de um rio chamado Paraopeba que, por sua vez, é afluente do rio São Francisco, que é um grande rio, de grande importância para a realidade brasileira.  O rio Paraopeba está situado numa região de intensa atividade de mineração industrial e, no fundo, existem certamente muitos metais acumulados, metais pesados, nocivos à saúde. A chegada da lama, muito provavelmente, vai revolver, colocar em circulação muitos metais e isso pode ser muito nocivo à saúde humana.

A chegada da lama, muito provavelmente, vai revolver, colocar em circulação muitos metais e isso pode ser muito nocivo à saúde humana.

ON: E pode chegar ao rio São Francisco?

LH: Certamente chegará ao rio São Francisco, não há dúvidas de que chegará. O que não é fácil prever é qual será a dimensão desse impacto, porque o rio São Francisco tem uma vazão, um caudal grande e uma maior capacidade de diluição dessa lama que chegará ao rio. Mas é impossível fazer qualquer tipo de prognóstico, qualquer tipo de projeção. O que será muito importante é fazer um monitoramento muito sistemático de tudo o que acontece, fazendo avaliações da qualidade da água, verificando o impacto na saúde da população.

ON: Uma situação como a que ocorreu com o rio Doce, há três anos, pode voltar a acontecer?

LH: Sim, certamente. O rio Doce de três anos atrás é o rio Paraopeba e o rio São Francisco de hoje. É muito similar a situação.

ON: Na sua opinião de especialista, que trabalho é que deve ser feito nestes próximos dias, semanas, meses?

LH: Existem algumas medidas que os governos estão cogitando. Uma delas é utilizar algumas represas que eram usadas como hidroelétricas, para conter uma parte dos efeitos. Essas represas não conterão totalmente a lama, mas podem atenuar o efeito da lama. Então, isso me parece importante. Mas, sobretudo, monitorar. Fazer monitoramento muito sistemático sobre o efeito na qualidade da água e sobre os riscos para a população que consumira essa água.

ON: Quais são os grandes problemas para a população e como é que as pessoas se podem proteger?

LH: Uma vez detectada a presença desses metais na água, a população não deve consumir essa água.  Muitas das estações de tratamento de água não são capazes de remover essas substâncias. Então, a população precisa partir para consumo de fontes alternativas, mas principalmente não deve recair sobre os ombros da população esses ônus, mas sim do poder público.

O poder público que deve garantir uma transparente informação para a população sobre os riscos e assegurar que fontes alternativas sejam utilizadas em substituição a essas fontes contaminadas. Existem, por exemplo, duas localidades de não muito grande porte que usam água do rio Paraopeba e a empresa responsável pelo fornecimento de água já está cogitando utilizar outras fontes. Isso será fundamental que seja acionado.  

Acompanhe a conversa com Alexandre Soares:

 

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