9 novembro 2021

A co-presidente do Painel de Recursos Naturais da ONU está participando da COP26 e concedeu entrevista à ONU News diretamente de Glasgow. Izabella Teixeira leva para a COP uma agenda inovadora para o desenvolvimento da Amazônia brasileira, que engloba as particularidades da floresta e os 27 milhões de brasileiros que nela vivem. A ex-ministra do Meio Ambiente se mostra confiante com as negociações em Glasgow e reforça: a natureza não pode esperar. 

ONU News: Izabella, vamos falar primeiro sobre a Concertação pela Amazônia, esse documento super importante que a senhora apresenta em Glasgow esta semana e que traz uma série de propostas para o desenvolvimento da região. 

Izabella Teixeira: A Concertação é uma iniciativa que reúne vários segmentos, várias dimensões políticas, econômicas e sociais da Amazônia, dos amazônidas, com os brasileiros, para que a gente possa construir uma proposta de caminhos inovadores para o desenvolvimento na Amazônia.

É uma iniciativa que reúne mais de 400 instituições, com várias áreas de interesse, como a questão da bioeconomia, do desenvolvimento, das agendas sociais envolvendo os direitos indígenas, direitos quilombolas, envolvendo os desafios da questão climática e o que é de fato o desenvolvimento da Amazônia e a integração da Amazônia com o Brasil nesse realinhamento contemporâneo do Brasil numa agenda climática, de inovação e numa agenda de nova relação do homem com a natureza. 

A Concertação entende os quatro territórios da Amazônia. Você não tem uma Amazônia homogênea. Você tem uma Amazônia urbana, você também tem uma Amazônia preservadíssima, intacta, uma já transformada, degradada, que você precisa recuperar, e uma Amazônia que está sob pressão do desmatamento e você precisa interromper o desmatamento para evitar novas conversões de floresta. Temos que parar, trabalhar com os governadores, com prefeitos, com a sociedade e construir soluções econômicas onde a floresta está de pé.

 

O.N.: O que eu achei mais interessante foi exatamente isso que a Izabella Teixeira já falou, este documento trata das “várias Amazônias”, porque a Amazônia é enorme e não é uma só. Existem várias Amazônias dentro da própria Amazônia.

I.T.: É super bom você falar isso, porque as pessoas têm uma visão da floresta intocada. Mora gente na floresta, você tem 27 milhões de pessoas, de brasileiros, que moram na Amazônia brasileira. O Brasil tem o maior domínio do território amazônico, considerando os países da Bacia Amazônica. E lá dentro, 80% das pessoas vivem em cidades, em áreas urbanas da Amazônia. 

Então precisamos entender como é que fazemos a troca de serviços, como é que tem que organizar a floresta, para que ela não alimente economias com atividades que sejam degradantes do ponto de vista ambiental e social. Temos que conter esses retrocessos e trabalhar novos modelos de economia e de inclusão social, promovendo o melhor desenvolvimento humano da Amazônia, e fazendo com que essa nova maneira de produzir, de consumir e de trabalhar o crescimento econômico agregue valor a uma participação da Amazônia de maneira mais estratégica na geração do PIB brasileiro. Estamos mexendo em renda, em erradicação da pobreza, estamos mexendo em aspectos culturais, estamos mexendo em todas as dimensões que dão a identidade de um país mais justo.

 

Izabella Teixeira em frente à exposição sobre a Amazônia, de Sebastião Salgado, na COP26
Foto: Izabella Teixeira. Arquivo Pessoal
Izabella Teixeira em frente à exposição sobre a Amazônia, de Sebastião Salgado, na COP26

O.N.: No próximo dia 12, sexta-feira, existe uma grande expectativa com a apresentação do documento final da COP26. Queria saber a sua opinião como especialista no assunto, como ex-ministra do Meio Ambiente, será possível, por exemplo, acabar com o desmatamento até 2030?

I.T.: Não vai ser possível, tem que acabar. Não vai ter sentido ter desmatamento no mundo, porque não só isso gera mais incerteza, como gera mais pobreza e você fica mais vulnerável. As questões climáticas já não são só uma suposição científica, são uma verdade da ciência e uma verdade deste século. Este século será marcado pela era climática e este século será marcado pela era da inovação. Nós temos que entender que cidadania emerge disso.

Eu acho que a COP não tem mais como comprar tempo. Essa COP não é para substituir Paris, é para fazer Paris acontecer. Paris está consolidado como marco contemporâneo de clima, nós temos que fazer acontecer e não tem como ficar adiando. Não tem mais. Você precisa começar a entender como é que você vai entregar em 2025 e como você quer o fim do desmatamento até 2030. 

Quais são as medidas concretas que precisam ser adotadas até 2025 para que você possa ser afirmativo com essa visão de 2030? O que é preciso acontecer até 2030 para você de fato achar que terá caminhos mais sólidos para a neutralização em 2050? Temos que sair dessa visão comum e tratar das diversidades do mundo, dessas avenidas com contradições, com ambiguidades, que vão levar a humanidade a uma economia de baixo carbono. Não se esquecendo que a natureza não perdoa. Com a natureza não tem esse papo. Tem que começar a organizar a casa, entendendo que os mais vulneráveis, os mais pobres, são aqueles mais expostos à incerteza climática. Tem que ter este olhar de desenvolvimento. A questão climática é uma mentalidade para você pensar o novo desenvolvimento do mundo num contexto de nova ordem global, de nova geopolítica, na necessidade de mudar as economias do mundo e na necessidade de trabalhar adaptação junto com mitigação. 

Eu temo que tenha gente aqui afirmando que está tudo bem. Não está. Tem tensões políticas claras e elas precisam muito habilmente serem (resolvidas) pela diplomacia, pelo multilateralismo, pela riqueza que o multilateralismo nos traz, serem dirigidas, encaminhadas, tratadas de maneira tal que todos se sintam com os instrumentos necessários para agirem na mesma direção. Eu acho que este será o grande legado de Glasgow: fazer com que todos possam agir na mesma direção. 

 

 

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