Os jovens estão articulando a força necessária para salvar o planeta e garantir existência BR

Paloma Costa (a primeira à esquerda) com o secretário-geral da ONU e o Grupo Consultivo de Jovens sobre Mudança Climática

Todos nós, jovens, adultos, crianças e mais velhos, temos que ser o herói da nossa história como humanidade

Paloma Costa , conselheira no Grupo Consultivo de Jovens sobre Mudança Climática

ONU/Mark Garten
Paloma Costa (a primeira à esquerda) com o secretário-geral da ONU e o Grupo Consultivo de Jovens sobre Mudança Climática

Os jovens estão articulando a força necessária para salvar o planeta e garantir existência

Clima e Meio Ambiente

Uma das conselheiras do secretário-geral da ONU sobre Mudança Climática, a brasileira Paloma Costa visita Nova Iorque e fala à ONU News sobre o papel decisivo da juventude em políticas contra crise climática. Nesta conversa com Eleutério Guevane, ela lembra que se a floresta continua de pé é porque jovens como ela decidiram se levantar para proteção.

A brasileira Paloma Costa é uma das conselheiras do secretário-geral das Nações Unidas no Grupo Consultivo de Jovens sobre Mudança Climática. 

Há dois anos na função, a ativista conta que levanta a bandeira lusófona, latina e global no caminho por um planeta mais habitável que dependente de novas políticas e atitudes para combater alterações do clima. Acompanhe a conversa com a ONU News, após o primeiro encontro pessoal com o chefe da ONU, António Guterres, em Nova Iorque.

ONU News, ON: A ONU News traz, neste Destaque Especial, a jovem Paloma Costa do Brasil. Ela é conselheira do secretário-geral. Faz parte de um grupo dos jovens que fala com o chefe das Nações Unidas sobre as mudanças climáticas.  Paloma  bem-vinda aqui, uma vez mais, nesse programa.


Paloma Costa, PC: Obrigada, a honra é minha em estar aqui conversando com vocês.

ONU News:  Na primeira vez como conselheira do secretário-geral, aqui em Nova Iorque, você vai explicar o que é estar nesse posto. 

PC: Em 2020, o secretário-geral da ONU montou esse grupo. Sete jovens conselheiros e cada um representando uma região do mundo. Eu sou a responsável por representar a América Latina e o Caribe. Basicamente, o nosso trabalho se resume em aconselhar o secretário-geral da ONU no que a juventude das nossas regiões, a juventude organizada a nível regional e internacional ou local, no que tem sido a prioridade para ela e articular isso, diretamente com ele, bem como ajudar a trazer e a trabalhar as prioridades do secretário-geral com essa juventude para que a gente  possa em conjunto construir um caminho para o nosso presente e para o nosso futuro.

Jovens articulam força necessária para salvar planeta e garantir existência, afirma ativista

No primeiro ano, a nossa linha de trabalho era com as seis ações principais pelo clima que foram lançadas pelo secretário-geral da ONU. Agora, a gente segue, olhando para as prioridades, entendendo como é que a gente pode fazer uma recuperação justa nesse  momento de pandemia,  momento de guerra e momento de colapso climático. 

Então é uma super honra poder articular com diferentes níveis, as diferentes vozes e trazendo aqui, diretamente para o secretário-geral da ONU, essa mensagem e esse trabalho que a gente vem fazendo no front e na base. 

ON: E como uma jovem brasileira faz a diferença nesse contato com secretário geral, será que a conexão lusófona contribui em algo?

PC: Com certeza. Por mais que a gente esteja aqui conversando na ONU News em português, eu acho que é importante a gente lembrar que o português ainda não é uma das línguas oficiais das Nações Unidas. Então, eu tenho a oportunidade de escutar diretamente a juventude desses diferentes países na África, na América Latina e na Europa, que falam a nossa língua e que também têm muito a dizer. 

A gente sabe que nessas diferentes regiões existem muitas desigualdades e que não é fácil acessar essas pessoas, seja devido ao acesso à internet, seja devido à língua ou seja devido à forma como nossos direitos ou vozes não são respeitados nas nossas realidades. 

A gente vai deixar acontecer em anos e anos queimadas e recordes de desmatamento? Isso é uma promessa falsa

Então, para mim,  sendo uma pessoa que fala português e que representa o Brasil, que é esse país que tem um potencial de liderar a ação pelo clima, da minha região e no mundo, é muito representativo. Mesmo que a gente ainda não tenha conseguido alcançar tantos resultados concretos quanto eu e a nossa juventude tão diversa como gostaríamos, eu acho que pelo menos abrir a porta e esses caminhos, com certeza e sem dúvida alguma, é um resultado muito grande que a gente conseguiu atingir com esse trabalho. 

ON: Como é que as experiências do Brasil fazem eco neste tipo de contato, tanto com secretário-geral e como com  jovens com quem você interage nesse grupo de conselheiros?

PC: Eu venho do movimento de base. Eu já lido logo diretamente com a juventude nos territórios indígenas, quilombolas, que são representantes de comunidades tradicionais, que estão nas cidades e nos diferentes espaços. 

Paloma Costa (a primeira à esquerda) com o secretário-geral da ONU e o Grupo Consultivo de Jovens sobre Mudança Climática
ONU/Mark Garten
Paloma Costa (a primeira à esquerda) com o secretário-geral da ONU e o Grupo Consultivo de Jovens sobre Mudança Climática

 

Eu articulo bastante com a juventude latina. A gente entende e reconhece que tem mais de seis anos, por exemplo, que não acontece uma conferência de clima (COP) na nossa região. Supostamente na COP25, quando deveria acontecer no Chile, infelizmente essa não foi a realidade. A gente se sentiu muito desprivilegiada no contexto internacional. Até porque a gente não pôde estar lá presente em peso da forma que gostaria. 

Na última COP26, a gente levou a maior delegação de jovens latino-americanos e caribenhos já vista numa história da COP. A maior delegação de jovens brasileiros. Nós éramos mais de 70 jovens brasileiros. Eu tenho certeza de que isso também é uma conquista por essa oportunidade e esse trabalho que eu venho fazendo com o secretário-geral da ONU.

Agora, a gente segue, olhando para as prioridades, entendendo como é que a gente pode fazer uma recuperação justa nesse  momento de pandemia,  momento de guerra e momento de colapso climático. 

Por ser ligado a esse trabalho, que também acontece na base, na minha região e no meu país ajuda a empoderar essas vozes. Ajuda a que estas vozes possam entender como é que funciona todo esse sistema. Então, eu fico muito orgulhosa das iniciativas do secretário-geral, mas também entendo e tenho certeza de que a gente tem muitos caminhos ainda por onde ir. 

ON: Paloma, você está envolvida num grupo que tem uma função determinante: trabalhar e acompanhar o que o mundo todo está fazendo  até o final do século. Há metas específicas que não podem falhar. Como é que se sente no meio deste grupo, como interage e perto da COP27 este ano, no Egito, quais os planos em mente?

PC: Eu acho que olhando para todo o contexto global em que diversas pressões estão chegando na frente do que deveria ser levado em conta como maior desafio da humanidade, que é o colapso climático, que é a emergência do clima, com certeza que isso me coloca em um lugar de muita responsabilidade: articular com todas essas vozes, garantir que essa representatividade e esse espaço realmente ocorram. E que a gente possa trabalhar junto com os tomadores de decisões para que a gente tenha, de fato, compromissos ambiciosos.

Paloma Costa participou da abertura da Cúpula da Ação Climática da ONU em 2019, com o secretário-geral da ONU, Greta Thunberg e Anurag Saha Roy
ONU/Cia Pak
Paloma Costa participou da abertura da Cúpula da Ação Climática da ONU em 2019, com o secretário-geral da ONU, Greta Thunberg e Anurag Saha Roy

 

Pelo menos, desde minha perspectiva, não adianta nada a gente chegar numa COP26, fazer um compromisso internacional sobre proteção das florestas, sobre acabar com o desmatamento e, por exemplo, eu chegar no meu contexto nacional, no Brasil, e ver o que está sendo discutido no Congresso Nacional é a liberação do garimpo nas unidades de conservação, é a liberação da mineração nos indígenas, é a flexibilização do licenciamento ambiental. Hoje (30 de março de 2022), inclusive, é um dia muito importante para o meu país: a Suprema Corte do Brasil, o STF, vai finalmente decidir sobre clima e sobre litígio climático.

Então, eu acredito que a minha voz, aqui trazendo essa mensagem e mostrando que a gente não pode deixar para trás os nossos compromissos e as nossas responsabilidades devido às tantas e diversas pressões,  é uma responsabilidade do presente e com nosso futuro. Com a existência da humanidade. 

Eu venho numa região do mundo em que a gente ainda tem grande parte da nossa floresta tropical preservada. Por isso, a gente vai desmatar essa floresta? A gente vai deixar acontecer em anos e anos queimadas e recordes de desmatamento? Isso é uma promessa falsa.

Então, eu espero que tendo a oportunidade que o mundo escute, diretamente de quem está lá no front junto, com tantas juventudes e com tanta gente segurando a floresta em pé, só tem floresta em pé porque a gente não está sentado, que essa mensagem possa reverberar e ecoar em compromissos concretos. Em ações concretas, em políticas públicas, e que estas leis e acordos internacionais e nacionais sejam, de fato, respeitados.

O plano de prevenção e controle do desmatamento da Amazônia  não pode ficar quatro anos sem ser aplicado. Ele tem que ser de fato implementado. E é sobre isso que eu gosto e vim aqui falar. Para que essas vozes e compromissos sejam de fato seguidos. 

A nossa responsabilidade, como jovens. É nossa responsabilidade como sociedade civil. Em nome da juventude, tanto eu quanto os meus outros seis colegas que são parte desse grupo a gente está aqui para trazer essa mensagem, para cobrar essa responsabilidade e para cobrar esse compromisso: essa promessa feita para garantir uma existência para toda a humanidade nesta Terra.

ON: Vamos terminar nossa conversa falando destes contatos que vão continuar. Teve encontros hoje com líderes na ONU. Ontem foi com o secretário-geral. E depois, como vai continuar? Você vai poder enviar um e-mail,  ligar a qualquer hora para ele? Vai falar de assuntos sobre o clima quando puder? Já falaram algumas palavras em português? 

PC: Com certeza, a gente tem que levar em consideração a agenda do nosso chefe, né? O quão cheia e com tantos desafios de diferentes partes do globo. 

O que eu estou compartilhando aqui são os desafios da minha região, da minha nacionalidade, mas com certeza a gente é um grupo que tem uma relação muito próxima com secretário-geral da ONU, em que a gente pode diretamente dialogar com os times que ajudam ele a fazer esse trabalho.

Paloma Costa Oliveira é estudante de Direito e defensora de direitos humanos. Ela coordenou delegações jovens em várias conferências climáticas.
Arquivo pessoal
Paloma Costa Oliveira é estudante de Direito e defensora de direitos humanos. Ela coordenou delegações jovens em várias conferências climáticas.

 

A gente pode enviar, sim, um e-mail diretamente para ele. Para contar a nossa perspectiva sobre o que tem acontecido. Para mim, a reunião que a gente fez ontem levando  esse conhecimento que a gente teve oportunidade de ter nesses quase dois anos de trabalho. Mostrando para ele como que a juventude tem se sentido. O que que a juventude tem entendido e o que é prioridade para juventude. Com certeza que teve resultados muito positivos.

E não é à toa que ontem a gente escutou uma série de compromissos dele. Uma série de linhas. A gente pôde orientar no  que seria prioridade para gente e como está vendo os compromissos e acordos que estão sendo feitos aqui na ONU, a nível internacional, na Assembleia Geral e em como isso tem refletido na base.

A gente vai continuar se mantendo contato. Todos nós,  da juventude nacional brasileira, latina ou internacional. Porque a gente entendeu que não  existe outra maneira de abordar a emergência do clima, o colapso socioambiental no mundo, se não for em união

Eu tenho certeza que ter o apoio dele, essa conexão direta. Não só, isso representa para mim e para a juventude que tem alguém nesse mundo que está escutando a gente, mas representa que essa pessoa que está escutando a gente e tem esse trabalho importante de conversar com líderes mundiais vai estar levando a nossa mensagem, não só no papel como no coração, entendendo que de onde a gente vem, do lugar que a gente fala, a gente está articulando a força necessária para garantir a nossa existência. Para garantir uma qualidade de vida aqui nesse mundo e nesse planeta.


ON: Ativista ambiental brasileira e conselheira do secretário-geral das Nações Unidas de um grupo dos jovens sobre mudanças climáticas, Paloma Costa tem algo mais a dizer antes de encerrar nossa conversa?


PC: Só agradecer mesmo pela oportunidade. E eu espero que esse trabalho que a gente vem fazendo como juventude, de cobrar e trazer ação, e uma ambição para compromissos, a gente comece a ver isso refletido nas diversas localidades do mundo. Que isso não seja apenas uma falsa promessa. O  último relatório do IPCC foi muito enfático: nós não temos mais tempo, nós temos agora. E a gente está aqui para lembrar disso. 


ON: E sobre vozes como a sua e da ativista sueca Greta Thunberg, com quem você já se encontrou, quais os próximos passos em contato com esses jovens influentes em matéria do clima de todo mundo?


PC: A gente vai continuar se mantendo contato. Todos nós,  da juventude nacional brasileira, latina ou internacional. Porque a gente entendeu que não  existe outra maneira de abordar a emergência do clima, o colapso socioambiental no mundo, se não for em união. E entendendo isso, se o mundo não parar para se responsabilizar, para levar emergência do clima e o colapso climático como prioridade, nem que a gente tenha que parar esse mundo para que isso se torne uma realidade a gente vai parar.

E é por isso que a gente está articulado para levar coletivamente essa mensagem. Porque não é só onde eu moro, onde eu resido, onde acontecem esses impactos. É  em todos os lugares do mundo. Todas as vidas estão ameaçadas. Então, todos nós, jovens, adultos, crianças e mais velhos, temos que ser o herói da nossa história como humanidade. 
 

Paloma Costa com outros jovens participantes da COP-25 em Madri, na Espanha
Engajamundo
Paloma Costa com outros jovens participantes da COP-25 em Madri, na Espanha