Passar para o conteúdo principal

Em Angola, apicultura dá oportunidades a mulheres em pequenos negócios

Embora Angola produza apenas cerca de 90 toneladas de mel por ano, a Unctad aposta num aumento para 200 toneladas com métodos de produção mais eficientes
FAO / H. Shabbi
Embora Angola produza apenas cerca de 90 toneladas de mel por ano, a Unctad aposta num aumento para 200 toneladas com métodos de produção mais eficientes

Em Angola, apicultura dá oportunidades a mulheres em pequenos negócios

Desenvolvimento econômico

Projeto da Unctad aproveita “poder das abelhas” para capacitar mulheres a melhorar seus meios de subsistência e criar chances sustentáveis nas comunidades rurais da nação africana.*

Mavilde de Assunção Alves é apicultora há quase 15 anos. Todas as semanas, ela monta uma mesa para vender mel na estrada principal ou no mercado local em Bailundo, uma cidade da província do Huambo, no centro de Angola.

Segundo ela, o trabalho é difícil. Mesmo assim, a apicultura tem muitos clientes.

Apicultura em Angola

Como a maioria dos apicultores do país, Mavilde Alves percorre muitos quilômetros a pé para cuidar das suas colmeias, espalhadas pela paisagem montanhosa dos seus 45 hectares de terra, onde também cultiva milho, feijão, batata e outros produtos.

Cada colmeia, feita de troncos ocos, produz de seis a oito quilos de mel, que ela recolhe com fumo para acalmar e distrair as abelhas enquanto coleta o néctar.

Abelhas mais saudáveis produzem uma maior quantidade e qualidade de mel, o que aumenta as rendas dos apicultores e melhora o sustento das suas famílias.
Michelle Henley/Elephants Alive
Abelhas mais saudáveis produzem uma maior quantidade e qualidade de mel, o que aumenta as rendas dos apicultores e melhora o sustento das suas famílias.

Sua família consome parte da colheita e o resto é vendido para atender as necessidades numa das províncias mais pobres do país.

A apicultora, de 57 anos, tem lutado para manter as suas colmeias, que diminuíram de 15 para oito.

Sem equipamento de proteção, ela é frequentemente picada pelas abelhas, o que gerou problemas de inflamação e dores articulares.

Petróleo representa mais de 90% das exportações

Depois de participar numa formação de formadores organizada pela Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, Unctad, e pela Universidade José Eduardo dos Santos, Mavilde Alves está mais confiante quanto ao futuro.

Ela é uma das sete mulheres formadas pelo projeto em parceria com o governo angolano, acadêmicos, agricultores e empresas para melhor aproveitar o potencial do mel.

A iniciativa faz parte de um programa de assistência técnica financiado pela União Europeia para apoiar os esforços de Angola na diversificação da sua economia, excessivamente dependente do petróleo, que representa mais de 90% das exportações do país.

Um estudo da agências e parceiros nacionais identificou o mel como um produto "verde" promissor que minimiza o impacto ambiental e cria novas oportunidades econômicas nas comunidades rurais.

Aceleração da produção de mel angolano

Embora o país africano produza apenas cerca de 90 toneladas de mel por ano, a Unctad aposta num aumento para 200 toneladas com métodos de produção mais eficientes.

A responsável da Divisão de Comércio Internacional da agência, Teresa Moreira, afirma que Angola tem grande potencial para produzir mel de alta qualidade.

Com uma flora diversificada, várias espécies de flores fornecem néctar e pólen abundantes para as abelhas. O clima quente e úmido também são ideais para impulsionar o setor.

A formação também ajuda as apicultoras a compreender melhor as datas em que o mel pode ser produzido na sua região, abrindo a produção para duas épocas anuais.
WFP/Danil Usmanov
A formação também ajuda as apicultoras a compreender melhor as datas em que o mel pode ser produzido na sua região, abrindo a produção para duas épocas anuais.

Modernização do setor apicultor

Na avaliação da Unctad, o país precisa modernizar as técnicas e o equipamento dos apicultores pelas normas internacionais, bem como facilitar o acesso a compradores e infraestruturas de processamento e transporte.

Uma das formadoras principais da iniciativa, Marisa Rodrigues, afirma que em Angola, a apicultura tem sido tradicionalmente considerada uma atividade para os homens. E, por isso, o treinamento para as mulheres pode mudar o setor.

Para ela, o trabalho levar mais independência às apicultoras com papéis de liderança em suas comunidades.

Aumentar as rendas e proteger o meio ambiente

Ao aprender a cuidar melhor das abelhas, elas contribuem para a proteção ambiental e a segurança alimentar. Cerca de um terço da produção alimentar mundial depende de polinizadores como as abelhas, de acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, FAO.

Abelhas mais saudáveis produzem uma maior quantidade e qualidade de mel, o que aumenta as rendas dos apicultores e melhora o sustento das suas famílias.

Outra participante, Júlia Nangueve, diz que a formação a ajudou a ver como pequenas melhorias podem fazer uma grande diferença. Ela deixou de vender seu mel na rua, pois sabe que estar em áreas cobertas evite que o mel estrague.

Florestas e oportunidades

A formação também ajuda as apicultoras a compreender melhor as datas em que o mel pode ser produzido na sua região, abrindo a produção para duas épocas anuais.

Embora a segunda safra seja normalmente menos produtiva, ela pode ser uma alternativa para aumentar renda.

Para além do ensino de técnicas modernas de apicultura, a formação cobriu também a conservação das florestas, o controle da qualidade do mel e outras oportunidades no setor, tais como a confecção de cera ou de equipamentos adequados.

*Com reportagem do Unctad