21 dezembro 2020

Subsecretária-geral convida a repensar reforço de liderança, instituições e recursos; Cristina Duarte aponta fundos ilegais como uma das causas de certos focos de terrorismo; região perde cerca de US$ 89 bilhões por ano em fluxos financeiros ilícitos. 

Controlar fluxos financeiros, atividades económicas ilegais e reforçar instituições africanas são elementos essenciais que podem ter efeito benéfico para a paz e segurança com o emergir de novos conflitos na região. 

As declarações foram feitas pela conselheira do secretário-geral da ONU para a África em entrevista à ONU News. Cristina Duarte disse estar claro que o desafio de silenciar as armas no continente carece de nova análise das lideranças.  

Causas  

ONU News
Cristina Duarte disse que desafio de silenciar as armas carece de nova análise das lideranças africanas 

 

“Houve, de fato, um aumento de nível de conflitos em África. 2020 é o ano da União Africana em termos de silenciamento das armas. Uma cimeira extraordinária adiou o decénio. Acrescentou mais 10 anos para se atingir o objetivo, porque penso que terão concluído que o objetivo não foi cumprido. Eu penso que antes de iniciarmos a próxima década, no que diz respeito ao silenciamento de armas em África, impõe-se uma avaliação para se entender melhor as causas e as raízes do nível relativamente elevado de instabilidade em África, de uma maneira geral. Enquanto as causas do problema não forem incluídas na equação, dificilmente iremos resolver este problema.”

A campanha da União Africana sobre o silenciamento das armas em África promove o fim de conflitos, a prevenção de genocídio e a paz para todos. A estratégia inclui ação contra guerras, abusos de direitos humanos e em catástrofes. 

Banco Mundial/ Dana Smillie
Fluxos financeiros ilícitos privam África e seu povo de suas perspetivas.

 

Entre as situações que têm sido acompanhadas pelas Nações Unidas estão crises de longa data como a da região do Sahel, da República Democrática do Congo ou situações emergentes no norte de Moçambique e da Etiópia.  

Foi na qualidade de conselheira para África na ONU que este dezembro o escritório de Cristina Duarte promoveu mesas redondas sobre o continente. A parceria com a União Africana, Nigéria e África do Sul abordou o impacto da saída ilegal de dezenas de bilhões de dólares do continente na instabilidade. 

Fluxos Ilícitos 

“A ideia é: com estas mesas redondas trazer uma perspetiva diferente. Eu falei dos US$ 89 bilhões. São fluxos que pura e simplesmente nos escampam. Saem de África sob as mais diversas formas: subfaturação, sobrefaturação comercial, evasão fiscal, corrupção, lavagem e etc. Mas nós agora também temos que começar a dar alguma atenção aos fluxos ilícitos que entram e financiam atividades ilícitas, nomeadamente o terrorismo. Nalgumas zonas em África, não em toadas, o aumento da instabilidade está ligado a este fato.” 

Cristina Duarte incentiva a busca de uma solução ponderando as interconexões entre fatores como lideranças, recursos e melhores instituições para cenários de crises emergentes, incluindo o terrorismo em África.  

Minusma/Gema Cortes
Duarte defende uma reflexão sobre uma responda a estes problemas de forma imediata 

 

“Indica primeiro que eventualmente as instituições públicas, e não só, não detêm um controlo do território geográfico. E ao não deterem o controlo de território geográfico há estas invasões ou estas infiltrações, passe a expressão. A falta de controlo do território eventualmente esteja ligada à fraqueza de instituições. A fraqueza de instituições, por outro lado,  deve estar ligada a outras fraquezas, nomeadamente recursos para o reforço das instituições. A questão que se põe é: onde começar?” 

Em momento de recuperação pós-pandemia, Duarte defende uma reflexão sobre uma responda a estes problemas de forma imediata e uma recuperação baseada em reconstruir melhor.  

Quebrar o ciclo 

“Temos fracas instituições, mas para as fortalecer se precisa de conseguir o reforço de instituições. Mas para conseguirmos os milhões e bilhões precisamos de instituições fortes. Isto poderá ser uma armadilha. E aqui coloca-se o problema das lideranças, no sentido de quebrar isto e dizer ‘não, vamos atuar desta forma e vamos ver se de fato com um plano de ação claro e permitir quebrar este ciclo”. Gostaria aqui de sublinhar o quão importante é o papel das lideranças no Building back better.” 

Cristina Duarte abordou ainda as oportunidades que existem na recuperação da Covid-19 apontando avanços já alcançados na região.  

A conselheira defende uma solução para o continente onde o capital humano seja o centro na definição de políticas. 

ONU News/Joon Park
Em Beni, na RD Congo, soldados da paz do Malawi vigiam uma aldeia antes de entrar para fazer patrulha.

 

♦ Receba atualizações diretamente no seu email - Assine aqui a newsletter da ONU News
♦ Baixe o aplicativo/aplicação para - iOS ou Android
♦ Siga-nos no Twitter! Assista aos vídeos no Youtube e ouça a rádio no Soundcloud