4 janeiro 2021

Nesta segunda parte da entrevista à ONU News, Cristina Duarte, disse esperar que continente em desenvolvimento sustentável e capital humano; chefe do Escritório para África das Nações Unidas também citou a recuperaçãoda Covid-19 e a necessidade de que as vacinas cheguem a todos.  

Leia a íntegra da segunda parte da entrevista concedida a Eleutério Guevane.   

ONU News (ON): Nesta recuperação com que esperança é que o continente deve ultrapassar esta fase? Existe a nova vacina que já é distribuída em alguns países. Mas nessas grandes economias, as primeiras com a vacina, os números têm subido. Na generalidade, em África esse não é o caso. Com que atitude os africanos devem enfrentar os próximos meses? 

Cristina Duarte acredita em aumento na adoção de soluções digitais para os problemas africanos, by Unosaa Reprodução

Cristina Duarte (CD): A questão das vacinas é delicada. É uma uma questão que não se compadece com soluções nacionalistas e individuais porque o Covid-19 é um problema global. Não vai adiantar nada que um país, não vou aqui dizer nomes, açambarcar as vacinas e vacinar toda a sua população. A não ser que esse país se feche para os próximos 10 anos.  

Na questão da vacinas é preciso ver que este vírus não conhece nem reconhece fronteiras, nem raças: é um vírus global. Portanto, a questão das vacinas tem que ser nessa perspetiva. Mas analisar África na questão das vacinas, eu penso que é uma atitude medíocre. Eu acredito que as Nações Unidas já estão a liderar o movimento para garantir a inclusão de África em termos de acesso às vacinas. Aqui põem-se duas questões: de ter dinheiro para as comprar, mas põe-se a questão da capacidade suficiente para as produzir.  

Vamos supor que a partir de agora não há mais nenhum dólar que saia do continente em termos de fluxos ilícitos. Nos próximos três meses, como não há fluxos ilícitos a partir da África, África consegue poupar e consegue arrecadar recursos, por exemplo. Aí teríamos dinheiro para comprar, eventualmente. Em números muitos simples teríamos, eventualmente, dinheiro para comprar. E será que teríamos vacinas?  

Os números dos contagiados são de um nível comensurável nos países que conseguiram produzir a vacina. Há um problema de ter dinheiro para comprar e o problema da produção ser suficiente para chegar à África, porque a África não teve condições de produzir a sua própria vacina.  

ON: Uma questão muito ligada à África é a da paz e segurança e a meta de fazer calar as armas. Recentemente, houve uma visita de uma delegação de alto nível da ONU. Vários funcionários tiveram contato com as populações. Como é que se pode aproveitar este momento para avançar e melhorar nesse aspeto? 

Esta visita era quase como uma obrigação moral. Depois de 2020, com a Covid-19 e todos os problemas não só sociais, económicos e psicológicos, obrigou as famílias em curto espaço de tempo a adotar estratégias de adaptação e de ajustamento. Foi complicado.  

Era difícil que um dos primeiros níveis de liderança do sistema das Nações Unidas não visitasse o terreno antes do fim de 2020. Do ponto de vista estratégico e do ponto de vista humanitário era difícil não o fazer.  

Temos fracas instituições, mas para as fortalecer se precisa de milhões e bilhões e para consegui-los precisamos de instituições fortes. Isto poderá ser uma armadilha.

A missão da vice-secretária-geral foi extremamente oportuna. Ela basicamente levou três grandes pilares na bagagem: o primeiro prestar solidariedade aos países e equipes das Nações Unidas que estiveram no terreno corpo a corpo e dia a dia a tentar apoiar os governos nesta luta. Mas também ela levou na bagagem os ingredientes necessários para permitir iniciar mais depressa possível o pensar o futuro, em termos de recuperar, em termos do build back better.  

Mas também ela levou em sua bagagem, como o terceiro pilar, que lições tiramos deste 2020? O que funcionou? O que temos de fazer melhor? Onde é que temos que melhorar em termos de sistema das Nações Unidas e das suas prestações África? Coerência. Coordenação. O trabalhar mais em equipa. Que lideranças? Que sistemas de seguimento e avaliação? Portanto foi uma viagem extremamente positiva e com um impacto enorme. É só ver ver as redes sociais. 

ON:  No ano em que o secretário-geral pediu um cessar-fogo para combater a pandemia surgiram novos conflitos a ensombrar esta aposta do continente de calar as armas. Que saída vê para a situação atual no continente, principalmente quando surgem novos pontos de fricção? 

CD: Houve, de fato, um aumento de nível de conflitos em África. 2020 é o ano da União Africana em termos de silenciamento das armas. Houve uma cimeira extraordinária que adiou o decénio. Acrescentou mais 10 anos para se atingir o objetivo, porque penso que terão concluído que o objetivo não foi cumprido.  

Eu penso que antes de iniciarmos a próxima década, no que diz respeito ao silenciamento de armas em África, impõe-se uma avaliação para se entender melhor as causas e as raízes do nível relativamente elevado de instabilidade em África, de uma maneira geral. Enquanto as causas do problema não forem incluídas na equação dificilmente iremos resolver este problema. 

Eventos na ONU abordaram movimento contra a corrupção e fluxos ilícitos, by Pnud - Ucrânia

Daí a realização das duas mesas-redondas, pelo meu Escritório como conselheira do secretário-geral das Nações Unidas conjuntamente com a representação da União Africana em Nova Iorque e contamos com dois países africanos patrocinadores: a Nigéria que a nível da União Africana lidera o movimento contra a corrupção, e a África do Sul que a nível da União Africana lidera o movimento em matéria dos fluxos ilícitos.  

A ideia é: com estas mesas redondas trazer uma perspetiva diferente. Eu falei dos US$ 89 bilhões. São fluxos que pura e simplesmente nos escampam. Saem de África sob as mais diversas formas: subfaturação, superfaturação comercial, evasão fiscal, corrupção, lavagem etc. Mas nós agora também temos que começar a dar alguma atenção aos fluxos ilícitos que entram e financiam atividades ilícitas, nomeadamente o terrorismo. Nalgumas zonas em África, não em todas, o aumento da instabilidade está ligado a este fato.  

Eu volto novamente às instituições. Indica, primeiro, que eventualmente as instituições públicas, e não só, não detêm um controlo do território geográfico. E ao não deterem o controlo do território geográfico há estas invasões ou estas infiltrações, passe a expressão. A falta de controlo do território eventualmente esteja ligada novamente à fraqueza de instituições. A fraqueza de instituições, por outro lado, deve estar ligada a outras fraquezas, nomeadamente recursos para o reforço das instituições. A questão que se põe é: Onde começar? 

Temos fracas instituições, mas para as fortalecer se precisa de milhões e bilhões e para consegui-los precisamos de instituições fortes. Isto poderá ser uma armadilha. E aqui coloca-se o problema das lideranças, no sentido de quebrar isto e dizer ‘não, vamos atuar desta forma e vamos ver se de fato com um plano de ação claro e permitir quebrar este ciclo”. Gostaria aqui de sublinhar o quão importante é o papel das lideranças no building back better em África. É determinante. É uma das chaves do problema. E está relacionado com a questão do controlo dos fluxos financeiros e económicos por parte das instituições africanas.  

ON: Tem algo mais a deixar para terminar a conversa. 2020 é para alguns um ano a esquecer ... 

CD: 2020 não é para esquecer. Não é para esquecer porque a Covid-19 trouxe desafios, trouxe problemas incomensuráveis para o continente, mas trouxe também na bagagem muitas oportunidades.  

Está a permitir, por exemplo, alargar as redes de proteção social em África que era um do Objetivos de Desenvolvimento do Milénio. Está a provocar um aumento na adoção de soluções digitais para os problemas africanos a um ritmo nunca antes visto.  

Está a dizer de, forma muito clara, que enquanto não colocarmos as pessoas, o capital humanos, no centro do policy making não vamos conseguir. E colocam-se questões profundas da educação, da saúde do acesso à informação, a plataformas digitais e consequentemente o acesso à informação, a acesso à energia que neste momento não pode ser visto como um problema a nível infraestrutural. Mas é uma variável determinante para se colocar o capital humano no centro das políticas públicas.  

Power África: permitir que as populações tenham acesso à energia é dar-lhes um instrumento para gerarem rendimentos familiares e, por esforço próprio, subirem acima da linha da pobreza. Há um conjunto de questões que depois estão interligadas e que têm que ser devidamente equacionadas. 

 

Banco Mundial/Mariana Ceratti
Duarte defende que populações africanas tenham acesso à energia

 

 

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