Entrevista: Secretário da Cultura da Guiné-Bissau quer crioulo guineense como língua oficial
BR

25 fevereiro 2020

António Spencer Embaló falou à ONU News, de Bissau, sobre a proposta que será enviada ao Conselho de Ministros para avaliação; se endossado, texto irá ao Parlamento do país como projeto de lei; segundo Embaló, 98% dos guineenses falam crioulo com base no censo de 1999.

Secretário, o crioulo é a sua língua materna. Quantas línguas locais existem na Guiné-Bissau?

Creio eu que meu primeiro contato com a língua portuguesa não foi muito longe da fase materna. Mas aquilo de aprender as primeiras palavras, a lidar, a ouvir e a repetir, tudo foi claramente em crioulo.

O contato mais intenso com a língua portuguesa deve ter começado a partir dos três, quatro anos, começar também a perceber alguma coisa em termos da leitura. E em termos da conversa que vai intercalando entre o crioulo e o português, e a língua fula que também é uma das minhas línguas. Os familiares dos meus pais frequentavam muito a nossa casa, aliás uma casa de família grande, à moda africana. E tudo isso vai acontecendo. E vou tendo interação, basicamente, com essas três línguas: crioulo, a língua portuguesa e depois sim, a língua fula.

Eu ainda apanhei uma estrutura escolar, neste sentido, mais rígida. Eu não fiz a pré-primária. Entrei logo para a primeira classe. E a transmissão, todo o processo da aprendizagem, da aquisição de ferramenta da aprendizagem, tudo isso foi em português. Era muito rígido no sentido de que tínhamos que deixar o crioulo à porta das salas de aula.

E foi muito assim durante todo o primeiro ciclo, todo o segundo ciclo.

A interação com o crioulo na escola basicamente aconteceu mais no terceiro ciclo, porque os professores já não eram tão rígidos da utilização do crioulo na sala de aula. Mas mesmo assim, era completamente proibido a utilização de crioulo na sala de aula. Então, a língua portuguesa foi a língua do ensino e da aprendizagem desde a 1ª. classe até o 11º ano, na altura, nem tinha o 12ݨ ano.

Por que o sr. quer fazer do crioulo uma língua oficial?

Uma das nossas maiores riquezas é o facto de, praticamente, todos os grupos étnicos na Guiné-Bissau são representados também com a sua própria língua. Significa que o último recenseamento geral da população aponta 30, 32 grupos étnicos.  E todos os grupos têm a sua língua então podemos assumir que temos pelo menos 32 línguas maternas.

Sendo que o crioulo acaba por representar...no início, creio eu, que foi muito uma língua urbana, entretanto foi ganhando terreno e foi se transformando numa língua nacional. Hoje, de acordo também com o último censo de 99, cerca de 98% da população da Guiné-Bissau comunica em língua crioula. E isso, basicamente, temos os resquícios, na altura, da população que não comunica, no dia-a-dia, que não utiliza o crioulo em seu processo de comunicação. Mas, basicamente, toda a gente se comunica e interage mesmo na língua crioula. Por isso mesmo, a nossa satisfação, mas a satisfação com base também no reconhecimento, que é esse é um pilar identitário. Se é um pilar identitário, se é o nosso patrimônio identitário, devemos tratar disso, de forma justa. Então, a ideia é tudo que vai à volta de questão de reconhecimento desse patrimônio, tem a ver também com esse reconhecimento, uma espécie de justiça social para o povo da Guiné-Bissau.

É importantíssimo. E isso que estamos a trabalhar.  É isso que, brevemente, iremos apresentar ao Conselho de Ministro, para ser debatido. E tenho a convicção de que vai ser aprovado no Conselho de Ministro e depois uma proposta de lei que irá ser levada à Assembleia Nacional Popular para se ampliar o debate na questão de reconhecimento desse patrimônio. Por isso transformá-lo numa língua oficial porque falta este passo.

Porque já é língua nacional, já é língua de namoro. Já é língua de transação econômica. Já é língua até de trabalho. Então, falta essa oficialização.

E essa oficialização nos trará depois o reconhecimento, o reconhecimento oficial do Estado da Guiné-Bissau e o reconhecimento também dos nossos parceiros como patrimônio imaterial, que nos une enquanto guineenses.

Eu costumo dizer com convicção, que não conheço um outro elemento hereditário tão forte quanto o crioulo. Por isso mesmo merece, ou por isso, também merece esse reconhecimento.

 

 

Quais as três maiores línguas locais no país após o crioulo?

Fazendo uma leitura também proporcional, voltando às estatísticas, que é importante, de acordo com os dados de 1999, a maioria da população do grupo étnico dominante na Guiné-Bissau, é balanta.

Acredito que pelo dinamismo de procriação, mas também da imigração, nós temos aqui muitos grupos étnicos que são transfronteiriços. Acredito que esse valor ou está em pé de igualdade com os fulas, ou, há uma ascendência em termos numéricos dos fulas.

Bom, o próximo censo irá nos comprovar essa questão, mas, maioritariamente, temos os balanta, os fulas, os mandingas depois, os pepés que estão a pari passo com os manjacos. Esses são os grupos, e a maioria, os grupos maioritários, significa que também em termos da sua utilização, fazendo aqui um paralelismo, devem ser as línguas mais faladas.

Mas, pela questão das fronteiras, acredito que, mesmo que o número dos fulas residentes na Guiné-Bissau seja menor em relação aos balanta, mas por questão da fronteira que nós fazemos com a Guiné-Conacri, deve se falar mais fula na Guiné-Bissau que a língua balanta. Acredito que sim, porque temos as duas fronteiras tanto da parte da Guiné-Conacri, que é claramente a língua mais falada. Mas também, na zona do Senegal, é muito falada a língua fula. Acredito que a seguir o crioulo, a língua fula é a língua mais falada. A seguir deve sim vir a língua balanta e a língua mandinga que também é uma língua transfronteiriça. São, se tivermos que eleger, três línguas das mais faladas a seguir o crioulo, eu diria, que é a língua fula, balanta e mandinga.

O crioulo já tem material didático?

Existe há muito tempo materiais didáticos que podem, e aí, existe uma experiência, Mubaque. Já há muito tempo, que o padre Luigi está a fazer essa experiência em Mubaque existe também toda uma experiência com as missões católicas, missionárias tanto da igreja católica quanto da evangélica, que têm também impulsionado um certo processo de ensino e aprendizagem do crioulo.

Mas eu aqui separo dois mundos: uma coisa é o reconhecimento patrimonial, identitário da Guiné-Bissau, como o nosso valor, como nosso patrimônio, como nosso elemento identitário mais forte, isso deve acontecer.

E devo depois, ajudar a desencadear um outro processo que é o processo de ensino e aprendizagem. Mas que é um outro campeonato. É um campeonato que deve ser imensamente estudado, deve ser bem estudado para ser muito bem estruturado para depois darmos o passo do ensino e aprendizagem. É um campeonato diferente. Embora existam todas essas ferramentas, quando falo na questão do estudo, falo na questão da normalização.

Porque existem expressões, existem formas de escrever, e formas de comunicar que são diferentes, de acordo, mesmo dentro de um grupo, encontra-se essa variabilidade da forma de escrita e da forma de uso verbal, que precisa ser normalizado.

Isso leva o seu tempo. Eu diria que, após o processo, após de consolidar o processo de reconhecimento e da formalização do crioulo, como nossa língua oficial, iremos precisar no mínimo de uma década para tratar de toda parte da normalização e sim, avançar para um processo de ensino e aprendizagem.

Se aprovada como língua oficial, como será a convivência com o português nas escolas?

Não há uma pressa na questão do ensino e aprendizagem porque tem que ser um processo muito bem feito e não tem que colidir. Porque nunca colide. Aliás, deve fazer esse reparo, essa desmitificação de que, o crioulo pode ser uma espécie de empecilho à aprendizagem da língua portuguesa, que é também a nossa língua. Não é? De todo. Aliás, as crianças da Guiné-Bissau, eu costumo dizer, porque eu acredito plenamente nisso, são das crianças mais felizes do mundo. Porque para além da língua materna, aquelas que não vivem na zona urbana, têm a tendência de aprender logo a língua materna que pode ser um dos grupos étnicos. É uma das línguas dos grupos étnicos. A seguir, aprende crioulo. E a seguir, aprende a língua portuguesa quando vai à escola. Mas antes disso, é capaz de ter acesso a uma segunda língua materna. Porque nós somos produto de muita mistura. Há muitos pais que não são do mesmo grupo étnico. Pode ser por exemplo um pai que é mandinga e a mãe que é bijagó. Então, a criança tem contato com essas línguas todas e depois, ainda tem a língua oficial. Significa que facilmente uma criança aprende quatro línguas e isso não imiscui no seu processo de aprendizagem. Eu, com todas as limitações que possa ter, na questão da compreensão e da expressão na língua portuguesa, sou um bom exemplo. A minha geração é uma geração com muito bom exemplo nessa questão concreta de que o crioulo não serve como um empecilho ao processo de aprendizagem.

Se por exemplo, os suíços têm quatro línguas oficiais, e nada os impede de materializar isso, em termos concretos, não estou a ver como é que isso pode ser um processo complicado ou, alguma barreira de aprendizagem na Guiné-Bissau.

Por isso mesmo temos que fazer as coisas bem feitas. Isso tem que ser bem estudado. Temos que recolher boas experiências e temos que fazer um investimento muito forte, muito sério nesse sentido. E teremos, daqui a 20 anos, provavelmente, os jovens mais felizes do mundo, eu não tenho dúvidas em relação a isso.

 

 

 

 

 

 

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