“Façam o que for necessário para resolvermos os problemas dramáticos que enfrentamos”, diz Guterres a líderes internacionais

20 setembro 2019

Chefe das Nações Unidas, António Guterres, conversa com a subsecretária-geral do Departamento de Comunicação Global, Melissa Fleming, às vésperas da chegada de líderes internacionais a Nova Iorque; debate na Assembleia Geral deve priorizar mudança climática, jovens, cobertura universal de saúde e desafios à paz e segurança.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, disse que a resposta para os grandes problemas mundiais é “mais cooperação internacional.”

Em entrevista à subsecretária-geral de comunicação global, Melissa Fleming, o chefe da ONU disse que o debate geral de chefes de Estado e Governo tem de incluir mais ação e ambição.

Confira a entrevista na íntegra:

António Guterres pediu ações concretas para acabar com a mudança climática, ONU News/Joon Park

Melissa Fleming: O mundo enfrenta um momento crítico em várias frentes: emergência climática, aumento de desigualdades, do ódio e intolerância, bem como desafios de paz e segurança. O sr. teria uma fórmula para resolvê-los?

António Guterres: Bem, a fórmula é mais cooperação internacional. Esses são temas que nenhum país pode resolver sozinho. Em relação ao clima, é por isso que estamos tendo uma Cimeira. E essa Cimeira pretende fazer os países entender que precisam fazer muito mais do que estão fazendo, porque precisamos derrotar a mudança climática, que ainda está acontecendo mais rápido do que nós. E vemos as consequências em furacões arrasadores, em glaciares derretendo, na saúde pública piorando, com ondas de calor e novas doenças chegando a diferentes áreas.

Então, precisamos de mais cooperação internacional para derrotar a mudança climática. O mesmo com a desigualdade. Precisamos de uma globalização justa e uma globalização justa apenas é possível com mais cooperação internacional. É por isso que vamos ter uma Cimeira sobre Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

É por isso que temos a Agenda 2030, que é o mapa da ONU para unir os países em torno de uma globalização justa. Se falarmos de todas as outras áreas, como o discurso de ódio, que se espalha como fogo por todo o lado, temos de o combater em conjunto. E mesmos assuntos de segurança, mais e mais crises que enfrentamos incluem uma multiplicidade de fatores, de diferentes partes do mundo.

Então, apenas com mais cooperação internacional, com a ONU no centro, seremos capazes de resolver esses desafios.

Melissa Fleming: Então, Nova Iorque estará no centro do palco…

A mudança climática é um problema dramático hoje, mas será ainda mais dramático no futuro

António Guterres: A Assembleia Geral será uma excelente oportunidade para avançar com muitos desses assuntos. Temos a Cimeira do Clima. Temos a Cimeira dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, que falará sobre a Agenda 2030, o mapa para uma globalização justa. Teremos uma cimeira para financiar os ODSs, o que é absolutamente central, porque sem financiamento não podemos avançar nas áreas do desenvolvimento. Uma Cimeira sobre Cobertura Universal de Saúde, outra para Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento, Sids, que são as primeiras vítimas da mudança climática, como sabemos.

E todos estes encontros combinados, todos juntos, representam uma resposta completa em que a ONU tenta unir todos os países na mesma plataforma para resolver os problemas aos quais referiu na primeira pergunta.

Melissa Fleming: Uma dessas cimeiras é a Cimeira da Juventude sobre o Clima. Porque é especial? Porque é que a juventude está sendo chamada a Nova Iorque?

António Guterres: Porque a juventude tem demonstrado uma enorme liderança e percebe-se facilmente o porquê. A mudança climática é um problema dramático hoje, mas será ainda mais dramático no futuro. Quando os jovens de hoje forem os adultos responsáveis pelo mundo em algumas décadas, eles estarão enfrentando as piores consequências dos erros que cometemos agora. Por isso, a juventude tem estado na linha da frente, pressionando governos, empresários, cidades e outros atores para fazerem tudo o que for possível para acabar com a mudança climática. E por isso, a Cimeira da Juventude é um instrumento importante para pressionar aqueles que tomam as decisões necessárias.

Entrevista destacou debate de alto nível da Assembleia Geral, que acontece na próxima semana, ONU News/May Yaacoub

Melissa Fleming: E será a primeira já realizada.

António Guterres: Acho que sim.

Melissa Fleming: No dia seguinte, acontece a Cimeira do Clima. O sr. disse que está pedindo aos países para participar, não com discursos bonitos, mas com ações reais.  Que expetativas tem para o tipo de iniciativas que podem surgir?

António Guterres: Espero o tipo de ação que é necessária para cumprir as metas que a comunidade internacional de cientistas diz ser necessária para acabar com a mudança climática. Para não deixar que as temperaturas subam mais de 1.5° C até ao final do século, temos de atingir a neutralidade em carbono até 2050 e temos de reduzir, de forma drástica, as emissões durante a próxima década.

O que nós queremos é mais e mais países vindo aqui e comprometendo-se com a neutralidade em carbono até 2050 e se comprometendo com reduções. Comprometendo-se com o financiamento do Fundo Climático e os US$ 100 bilhões, necessários todos os anos, para apoiar os países em desenvolvimento em adaptação e mitigação. E anunciando o topo de investimentos que são absolutamente essenciais para promover as energias renováveis em relação aos combustíveis fosseis, que representam o passado, para podermos termos uma agricultura diferente, um diferente uso do solo, diferentes estratégias das cidades para reduzirem suas emissões. Esperamos que os Estados, cidades e empresas possam anunciar muitas medidas concretas durante a cimeira.

Melissa Fleming: Excelente. Esperamos ansiosos por esse tipo de notícias. Avancemos paras as duas últimas questões. Os líderes na Assembleia Geral estão sendo convidados para participar numa Cimeira sobre os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável. Na terça-feira, como mencionou, acontece um encontro para encontrar financiamento para os ODSs. Quais são as suas expetativas?

Muitas pessoas não têm cuidados de saúde e muitas pessoas que têm cuidados de saúde não têm cuidados de qualidade

António Guterres: Primeiro, o reconhecimento de que estamos atrasados na Agenda 2030 em relação à saúde, educação, água e saneamento, oceanos, mudança climática, todos esses objetivos que a Agenda 2030 determina que sejam alcançados até 2030. Estamos atrasados, não estamos fazendo o suficiente.

Obviamente houve progresso. Existe menos pobreza absoluta do que há algumas décadas. Foram feitas melhorias na mortalidade infantil e no acesso à educação, mas ainda estamos atrasados.

Precisamos de mais investimento, mais ação política, mais prioridade para esses aspetos descritos nos Objetivos que estabelecemos e para termos aquilo que mencionei como globalização justa, para termos desenvolvimentos que sejam mutuamente sustentáveis e inclusivos, que não deixem ninguém para trás, que tragam todos os que foram marginalizados pelo desenvolvimento aos benefícios desse desenvolvimento.

É preciso reconhecer que estamos atrasados e tomar as decisões necessárias sobre investimento, políticas, mudanças na cooperação. Isso também precisa acontecer ao nível internacional, com as empresas, a sociedade civil, as autoridades locais, para todos juntos assegurarmos que a Agenda 2030 é implementada com sucesso.

Melissa Fleming: Relacionado com o tema dos ODSs está, obviamente, o tema da saúde. Também acontecerá um Encontro de Alto-Nível sobre Cobertura Universal de Saúde na próxima semana. Porque isso é importante no mundo de hoje?

António Guterres: Porque é um direito básico que ainda não é universal. Muitas pessoas não têm cuidados de saúde e muitas pessoas que têm cuidados de saúde não têm cuidados de qualidade. Um objetivo fundamental é ter a certeza de que, o mais cedo possível, o mundo seja capaz de prestar a todos os cidadãos os cuidados de qualidade de que precisam e merecem. 

Melissa Fleming: Muito bem. Por fim, paz e segurança irão certamente ser grandes temas durante esta semana da Assembleia Geral. Vê alguns sinais de esperança nesta área?

António Guterres: Vimos progressos no Sudão, na semana passada vimos progressos nas conversas no Sudão do Sul. Houve avanços na República Centro-Africana com o acordo de paz. Vimos muitas eleições acontecerem sem violência, desde a República Democrática do Congo até às Maldivas e ao Madagascar. Então, existem muitos sinais positivos, mas infelizmente ainda temos muitos sinais negativos. Vemos pessoas morrendo na Síria, na Líbia, no Iêmen. E precisamos que os países percebam que nestas guerras ninguém sai vencedor, todos perdem.   E esses conflitos estão ficando mais e mais interligados com o terrorismo global e se tornando uma ameaça não apenas para os países onde existem os conflitos.

Melissa Fleming: A sua mensagem para os líderes vindo para Nova Iorque, para a Assembleia Geral na próxima semana.

António Guterres: Façam o que for necessário fazer para resolvermos os problemas dramáticos que enfrentamos. 

UN Photo/Amanda Voisard
Assembleia Geral da ONU

 

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