Unfpa: 7 exemplos de como a maternidade mudou nos últimos 25 anos
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27 maio 2019

Mortalidade materna caiu 40% durante o período; assistência especializada ao parto aumentou entre 2010 e 2017; prevalência de métodos contraceptivos aumentou em um quarto.

Há 25 anos, o mundo estava se transformando. A África do Sul teve suas primeiras eleições multirraciais, elegendo Nelson Mandela como presidente. A Suíça começou a permitir o registro de uniões entre pessoas do mesmo sexo. Era o alvorecer da era da internet.

Foi ainda época do começo do novo consenso global em saúde sexual e reprodutiva, que buscava empoderar mulheres e comunidades para determinar seus próprios futuros.

Conferência

Na Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento, realizada há 25 anos no Cairo, 179 governos adotaram um programa de ação que exigia que todas as pessoas tivessem acesso a cuidados em saúde sexual e reprodutiva, inclusive planejamento familiar voluntário, e serviços em saúde materna fortalecidos.

Nos anos que se seguiram, avanços médicos, progressos sociais e crescente apoio para os direitos das mulheres ajudaram a reformular a experiência da maternidade em todo o mundo. Mas quanto mudou de verdade?

Abaixo, o Fundo das Nações Unidas para a População, Unfpa, dá sete exemplos de como a maternidade foi transformada, e como não foi.

1.As mulheres estão menos propensas a morrer enquanto se tornam mães

Alma Odette Chacón, da Guatemala, era apenas uma jovem adolescente quando sua mãe morreu durante o parto. Chacón, que agora tem 60 anos, lembra que “foi muito difícil”. Ela descreve como de forma inesperada, perdeu uma peça-chave da família, “com cada pessoa seguindo seu próprio caminho.”

Segundo o Unfpa, tragédias como essas são menos comuns hoje. Ao longo dos últimos 25 anos, a mortalidade materna caiu 40%. Foi uma conquista enorme, mas que ainda está aquém dos objetivos globais.

Na Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento realizada em 1994, líderes globais concordaram em reduzir as mortes maternas a menos de 75 por cada 100 mil nascidos vivos. Hoje, a razão de morte materna está em 216 por cada 100 mil nascidos vivos.

Essa proporção corresponde a mais de 800 mulheres morrendo, todos os dias, enquanto dão à luz. A maior parte dessas mortes é evitável.

2. Mais mulheres estão se tornando mães sob os cuidados de um(a) profissional do parto, como a parteira

Uma das principais razões pelas quais as mortes maternas estão diminuindo é o fato de mulheres estarem recebendo mais cuidados profissionais em obstetrícia. A assistência especializada ao parto aumentou de 67%, em 2010, para 79% em 2017.

O Unfpa está trabalhando junto a governos e associações de obstetrícia para aumentar a cobertura desse serviço essencial, apoiando mais de 700 escolas de obstetrícia e treinando mais de 115 mil parteiras desde 2009.

Ainda assim, a agência diz que há um longo caminho a ser percorrido. Perto de 30 milhões de mulheres não dão à luz em uma unidade de saúde e 45 milhões recebem cuidados pré-natais inadequados.

Mas Tefta Shakai, uma parteira na Albânia, diz que está otimista. Ela conta que observa a diferença que sua profissão faz, e o progresso usufruído por suas próprias filhas e netas.

Shakai diz que se sente “feliz por ter ajudado tantas mulheres”.

3. Mulheres estão mais propensas a ser mães por escolha, e não por acaso

Nos últimos 25 anos, a prevalência de métodos contraceptivos aumentou em 25%. E gestações não desejadas caíram 16%.

Esses números representam uma transformação nos direitos e na saúde das mulheres. Para o Unfpa, quando mulheres têm o poder de escolher por si mesmas quando e se querem ter filhos, elas são mais capazes de buscar educação e alcançar suas aspirações.

Apesar dessas conquistas, muitas mulheres ainda não exercem controle total sobre seus corpos e sua reprodução. Hoje, mais de 200 milhões de mulheres no mundo querem evitar a gravidez, mas não estão usando métodos contraceptivos seguros e efetivos.

A agência da ONU cita o exemplo de Mediha Besic, da Bósnia e Herzegovina, que diz conhecer bem essas dificuldades. Ela se tornou mãe aos 16 anos. Agora, aos 35, tem cinco filhos. Besic aponta que gostaria de “usar métodos contraceptivos”, mas que quando não se “tem dinheiro, não é acessível”.

4. Mulheres estão tendo menos filhos

Há 25 anos, a taxa de fertilidade média global era de 2,9 nascimentos por mulher. Ela caiu para uma média atual de 2,5, sendo esperado que o declínio continue.

Para o secretário-geral da ONU, António Guterres, essas mudanças refletem “a realização crescente das escolhas reprodutivas, por meio das quais as mulheres e casais são capazes de decidir o número, o espaçamento e o momento de ter filhos.”

Rasamee, na Tailândia, é uma dessas mulheres. Ela tem uma impressionante escolaridade, uma carreira exigente e um novo bebê. Ela e o marido estão se adaptando alegremente à nova família, e dizem que gostariam de ter mais uma criança, mas não três ou quatro, o que costumava ser comum em sua comunidade.

A tailandesa destaca que tem “sorte de hoje ter mais oportunidades”.   

5. Mulheres estão menos propensas a se tornar mães na adolescência

A maternidade, em geral, começa mais tarde. Essa mudança se reflete em um declínio global da taxa de gravidez na adolescência.

Em 1994, a taxa de gravidez entre adolescentes, meninas de entre 15 e 19 anos, era de 65 para cada mil mulheres. Actualmente, esse número é de 44 nascimentos a cada mil mulheres.

O Unfpa acredita que essa tem sido uma conquista fundamental para a saúde e os direitos de mulheres e meninas. A gravidez precoce é prejudicial para o bem-estar e os objetivos de vida de uma menina jovem.

Mães adolescentes são menos propensas a terminar os estudos ou a encontrar trabalho. Elas são mais vulneráveis à pobreza e à exclusão, e sua saúde é mais frágil. As complicações durante a gravidez e o parto estão entre as principais causas de morte de adolescentes.

Apesar de as taxas de gravidez na adolescência terem caído, elas permanecem alta em muitas partes do mundo, particularmente em áreas onde o acesso a contraceptivos é baixo e as taxas de casamento infantil são altas.

6. Lesões traumáticas no parto, como a fístula obstétrica, estão sendo reconhecidas como um grande problema de saúde

Apesar do cuidado em saúde materna ter se aperfeiçoado, a gravidez e o parto permanecem arriscados para muitas mulheres do mundo. Para cada mulher que morre no parto, uma estimativa de 20 a 30 sofrem lesões, infecções ou ficam com alguma deficiência.

Uma das lesões mais graves de parto é a fístula obstétrica, um orifício no canal vaginal que pode se desenvolver durante um trabalho de parto prolongado e obstruído.

Seu impacto entre as mulheres é catastrófico. Sobreviventes de fístula com frequência experimentam incontinência urinária, problemas médicos crônicos e isolamento social.

Estima-se que milhares de mulheres na África Subsaariana, na Ásia, nos países árabes, na América Latina e no Caribe estejam vivendo com fístula, com casos incontáveis se desenvolvendo todos os anos.

Essa condição é quase inteiramente evitável quando as mulheres têm acesso a atendimento médico oportuno e de alta qualidade e em particular, nos partos cesarianos.

O Unfpa aponta que a fístula persiste em grande parte porque sistemas de saúde estão falhando em proteger a saúde e os direitos humanos das mulheres e meninas mais pobres e mais vulneráveis.

Mas defensores da saúde têm lançado luz sobre este problema. Em 2003, o Unfpa e seus parceiros lançaram a Campanha pelo Fim da Fístula, que agora trabalha, em mais de 50 países, para tratar e empoderar sobreviventes.

Em 23 de maio de 2013, as Nações Unidas lançaram o Dia Internacional pelo Fim da Fístula Obstétrica, um dia anual para estimular ações em relação ao problema.

Há dois anos, o secretário-geral da ONU fez um chamado ao mundo para acabar com a fístula dentro do prazo de uma geração.

7. O peso das tarefas domésticas desigual suportado por mães e outras mulheres cuidadoras diminuiu — mas em apenas sete minutos

Ao longo dos últimos 25 anos, pesquisas sobre o uso do tempo revelaram um enorme desequilíbrio de gênero no trabalho doméstico não remunerado, incluindo cuidados de crianças e pessoas idosas.

Essas desigualdades persistem mesmo quando mulheres trabalham as mesmas horas fora de casa. Em média, mulheres gastam cerca de três vezes mais tempo com cuidados de crianças e outros trabalhos domésticos do que homens, revela a Organização Internacional do Trabalho, OIT.

Nos 23 países onde dados estão disponíveis, a parcela masculina dos cuidados não remunerados cresceu durante as décadas mais recentes, mas não muito. Entre 1997 e 2012, a diferença de gêneros no que se refere ao tempo gasto em cuidados não remunerados diminuiu apenas sete minutos por dia.

Em relatório de 2018, a OIT destaca que “neste ritmo, vai levar 210 anos, ou até 2228, para encerrar a disparidade de gênero no cuidado não remunerado nesses países.”

Este fardo desproporcional reduz o tempo disponível para mulheres gastarem em trabalho pago e outros objetivos. Para muitas mulheres, ter uma criança significa deixar o mercado de trabalho para conseguir realizar os trabalhos domésticos.

Na Índia, Rajeshwari sentiu que os papéis e as expectativas de gênero contiveram suas possíveis aspirações. Depois que se casou, ela dedicou a maior parte de sua vida ao cuidado de sua família.

Agora, aos 60 anos, ela olha com satisfação para suas duas filhas com nível superior e bem-sucedidas. Mas ela quer que elas tenham mais oportunidades do que ela. Ela relata que contou histórias para elas e leu “livros que davam ênfase na necessidade de servir e de se tornar honesto.”

Rajeshwari diz que “queria vê-las crescer e alcançar mais”.

 

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