Destaque ONU News Especial - Desafios Econômicos e Globais

19 março 2019

O Departamento da ONU dos Assuntos Econômicos e Sociais, Desa, reuniu recentemente o seu Conselho Consultivo de Alto Nível em Nova Iorque. Os 17 integrantes discutiram os desafios do desenvolvimento global. Uma das integrantes do grupo é Cristina Duarte, antiga ministra das Finanças Planeamento e Administração de Cabo Verde. A representante fala à ONU News do estágio atual da economia global, do papel de jovens, de mulheres e a contribuição de África para impulsionar avanços.

A ministra lida com aspectos de economias, finanças e sociedade. Como caracterizaria o mundo neste momento?

O mundo, neste momento, está basicamente a viver um período de profunda transição em termos geopolíticos.  A ordem econômica, a correlação de forças que se estabeleceu na decorrência da Segunda Guerra Mundial, que basicamente geriu, comandou, liderou os destinos do planeta até, diria, as vésperas da crise internacional, esta ordem, esta correlação de forças, é evidente, está sendo objeto de uma mudança.

Há emergência de novas vozes políticas, há emergência de novos poderes econômicos, e essas novas vozes políticas e esses novos poderes econômicos, para além de serem estados, refiro-me a uma Índia, a uma China, a um Brasil, apesar do período difícil que atravessa agora, uma África do Sul, etc, mas também outros poderes econômicos que emergiram e  não faziam parte da ordem estabelecida do pós segunda Guerra Mundial, que são as multinacionais que conseguiram ter um poder de mercado global extremamente grande. Refiro-me, por exemplo, a um Facebook, a um Google, a um Amazon.

Não sei se está ao corrente, há um dado extremamente importante em 2016. Quando nós analisamos a capitalização das maiores 10 empresas a nível mundial, pela primeira vez na história, essas empresas não têm nada a ver com a indústria automobilística, ou uma elétrica, com produção de eletrodomésticos, ou não tem a ver com manufacturing,  mas tem a ver com empresas que lidam com informação, internet, e, portanto, há aqui uma grande mudança. Há emergência de novos poderes econômicos, para além dos Estados, para além de uma China e de uma Índia. Portanto, é uma geopolítica que está a sofrer uma pressão, resultante da emergência destas novas forças, e, como é evidente, estes momentos de transição histórica são, geralmente, momentos cinzentos, ambíguos. Aquilo que disse, momentos que provocam incerteza e segurança.

 

Perante esta incerteza, estão mulheres e jovens, considerados grupos vulneráveis muitas vezes, à espera da oportunidade para ter o primeiro emprego. Como é que se pode colocar o trabalho do Conselho a que pertence para beneficiar estes grupos?

Essa sua questão leva-me, claramente, a um fator socioeconômico que ocorreu dos anos 70 a esta parte. É uma coisa incrível. Dos anos 70 a esta parte, particularmente ao nível das economias mais avançadas, o que é que nós presenciámos? Presenciámos um aumento exponencial da produtividade. Há países em que a produtividade aumentou 240%, a produtividade, portanto, o trabalho, mas os salários mantiveram-se, estagnaram basicamente. Os salários estagnaram. Ou seja, assistimos, claramente, a um período em que o valor produzido por estes ganhos de produtividade é, essencialmente, apropriado pelo fator capital e não pelo fator trabalho, introduzindo uma tendência crescente de desigualdade. Isto aconteceu nas economias mais avançadas e, como é evidente, aconteceu nos países em desenvolvimento. Porque o fenômeno econômico é o mesmo. Temos a parte central do sistema que, de facto, se apropria de valores produzidos pela classe trabalhadora, mas também pelos países periféricos. É esta desigualdade crescente que, depois, estará por trás de fenômenos, nomeadamente a radicalização das políticas nacionais, a emergência do nacionalismo, um culpabilizar a globalização por um conjunto de fenômenos.

Nós somos o continente do futuro. Pode colocar qualquer variável socioeconômica em cima da mesa e a equação não será resolvida sem o continente africano

No caso africano, penso que a nossa postura nestas incertezas e nestas ameaças deve ser diferente. Nós somos o continente do futuro. Nós somos o continente do futuro. Pode colocar qualquer variável socioeconômica em cima da mesa e a equação não será resolvida sem o continente africano. Vou lhe dar um exemplo. Em 2050, a população mundial terá muito mais gente. Como alimentar estas pessoas? A resposta a esta simples questão passa por África. África contém os recursos necessários para que desempenhe o papel de global player nesta simples solução de segurança alimentar para a humanidade. Temos terras, temos água, temos extensão e temos aquilo que é mais importante, temos juventude. Nós somos a população futura do planeta. Quanto às mulheres, felizmente a nível da União Africana na 32ª Assembleia Ordinária, que teve lugar em Adis Abeba, presidente da Comissão apresentou e foi devidamente aprovada a estratégia para igualdade do gênero e empoderamento da mulher. E é incrível como há determinados aspectos dessa estratégia que são extremamente inovadores. Já não estamos a falar do empoderamento da mulher com base no microcrédito, isso já era. Já estamos a falar do empoderamento da mulher criando condições para que ela ceda à informação, para que ela ceda à internet, para que ela ceda ao conhecimento, para que ela possa se beneficiar de inclusão financeira através de tecnologias de comunicação e informação. Portanto é um outro patamar de inserção positiva e mais ativa da mulher no desenvolvimento socioeconômico do continente africano. E é incrível como há uma convergência de posições políticas a nível de quase todos os países africanos nesta matéria.

 

Acnur/Catherine Wachiaya
Semana Africana de Comércio Eletrónico tem como tema: "Empoderando as Economias Africanas na Era Digital"

O que uma das mulheres mais influentes da África que faz parte do Conselho Consultivo das Nações Unidas, que determina temas ligados à economia e à sociedade pode dizer aos jovens que aspiram chegar a este posto, ou que pretendem fazer parte da economia global, jovens e mulheres que são considerados os mais vulneráveis?

O que eu gostaria de dizer à juventude africana, e incluiria as mulheres, é procurem conhecimento. Já lá vai o tempo em que o canal de fornecer conhecimento era a escola tradicional. O jovem africano de hoje não tem que esperar, assumindo que ele tenha tido a oportunidade de aprender a ler e escrever, não é? O jovem africano de hoje que não espere por uma escola tradicional, exija sim acesso à informação, acesso ao conhecimento, via democratização das tecnologias de informação e conhecimento. É o primeiro apelo que eu faço. O segundo apelo que eu faço é que exija competição. Mas nós em África, nossa cultura está muito mais desenhada para colaboração. E o futuro é de quem colabora. O futuro já não é de quem compete, porque o mundo está mergulhado em problemas, em desafios, em armadilhas. E a única forma de se sair desses problemas, desses desafios e dessas armadilhas já não é pela competição, é pela colaboração. Mas peraí, colaboração faz parte do DNA africano. Se nós formos ao mundo rural, às nossas raízes, toda a nossa cultura é estruturada em colaboração. Não é em competição. Então vamos resgatar esses valores. E pô-los a serviço do desenvolvimento. Portanto, o segundo apelo que eu faço aos jovens e às mulheres é por favor façam da colaboração o vosso instrumento de luta, nomeadamente criando pequenas empresas, criando cooperativas, e pensando fora da caixa. Não esperar que o Estado faça, que o Estado leve. A única coisa que eu acho que deve exigir é acesso ao conhecimento e à informação. O resto o jovem deve dizer “deixe por nossa conta”.

O jovem africano de hoje que não espere por uma escola tradicional, exija sim acesso à informação, acesso ao conhecimento, via democratização das tecnologias de informação e conhecimento.

Para terminar essa conversa inspiradora, teria algo mais a dizer?

O que eu gostaria de dizer é que, de uma forma geral, por favor prestem atenção nas reformas que estão a acontecer na União Africana. Pela primeira vez, o processo das reformas está a dar passos concretos e já atingiu metas que merecem o orgulho de todos nós como africanos. E eu gostaria de citar essencialmente duas. A primeira tem a ver com o nosso caminhar para independência financeira e a sustentabilidade financeira da União Africana. Demos passos concretos, estamos a conseguir. Já há 26 países que adotaram o 0.2% em termos de direitos aduaneiros. Isto leva a um outro grande resultado. Pela primeira vez, o fundo de paz e segurança da União Africana atingiu 100 milhões financiados por nós africanos. Portanto, o que eu gostaria de solicitar às sociedades africanas é prestem atenção às reformas da União Africana, participem informando-se, dando voz a sua opinião, mas acima de tudo acreditando no processo. Terceiro aspecto, isso eu penso que já é quase objeto de acordo, o poder político em África já chegou à conclusão que precisa de sociedade civis informadas, educadas e assertivas. Levar educação e saúde à sociedade africana não é uma ameaça ao poder, pelo contrário. É uma consolidação do poder político em África, e consequentemente uma pré-condição para o exercício de ownership daquilo que é nosso. E eu acho que chegou a altura de se entender que poder político e sociedade não são coisas dicotômicas, mas podem convergir para plataformas de engajamento e desenvolvimento.

Unesco
Reserva da biosfera de Quirimbas, em Moçambique.

 

 

 

 

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