Tarifas comerciais entre China e EUA podem prejudicar economia brasileira

4 fevereiro 2019

Relatório da Unctad mostra impactos negativos da guerra comercial entre os dois gigantes económicos; Brasil é um dos países mais afetados; tarifas bilaterais não protegem empresas nos respetivos mercados.

Um estudo da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento, Unctad, conclui que as disputas comercias entre os Estados Unidos, EUA, e a China têm impactos negativos para outras economias em desenvolvimento.

Segundo a agência da ONU, mesmo os países “cujas exportações devem aumentar” devido à “guerra comercial” poderão sentir resultados negativos.

Brasil

Unctad considera que como a duração das tarifas não é clara, os produtores brasileiros têm relutância em tomar decisões de investimento.
FAO/ Pius Ekpei

A pesquisa analisa as repercussões dos aumentos de tarifas entre os Estados Unidos e a China previstos para 1 de março.

A Unctad dá o exemplo do mercado de soja. As tarifas aplicadas pela China à soja dos EUA resultaram em “efeitos distorcidos” do comércio em benefício de vários países exportadores, em particular o Brasil, que “repentinamente se tornou o principal fornecedor de soja para a China”.

No entanto, a agência da ONU considera que como a “magnitude e a duração das tarifas não são claras, os produtores brasileiros têm relutância em tomar decisões de investimento” que podem ser não lucrativas se “as tarifas não forem revogadas.”

Além disso, as empresas brasileiras que operam em setores que usam soja como matéria-prima, como a ração animal, estão condenadas a perder competitividade por causa do aumento de preços provocados pela procura da China de soja brasileira.

Durante o lançamento desta publicação, a chefe da divisão de comércio internacional da Unctad, Pamela Coke-Hamilton, afirmou que “devido ao tamanho de suas economias, as tarifas impostas pelos Estados Unidos e pela China terão inevitavelmente repercussões significativas no comércio internacional

Guerra Cambial

O estudo também ressalta que, embora alguns países tenham aumentado as suas exportações, “é provável” que os efeitos globais negativos dominem.

Uma preocupação da Unctad é o impacto inevitável que as disputas comerciais terão sobre a ainda frágil economia global.

Uma desaceleração económica é frequentemente acompanha por distúrbios nos preços das matérias-primas nos mercados financeiros e nas moedas, o que terá importantes repercussões para os países em desenvolvimento.

Para a Unctad, uma das grandes preocupações “é o risco de que as tensões comerciais se transformem em guerras cambiais.

A agência constata ainda que outra preocupação é que haja mais países entrar em guerras comerciais e que “as políticas protecionistas possam elevar-se a nível global. Para a Unctad, como as políticas protecionistas geralmente prejudicam mais os países mais frágeis é crucial manter “um sistema de comércio multilateral capaz de neutralizar os impulsos protecionistas” e “manter o acesso ao mercado para os países mais pobres é crucial.”

Impactos

Para a Unctad, uma das grandes preocupações é o risco de que as tensões comerciais se transformem em guerras cambiais.
Banco Mundial/ Jonathan Ernst

O estudo ressalta também que que as tarifas bilaterais pouco ajudarão a proteger as empresas domésticas nos seus respetivos mercados.

Segundo a Unctad, dos US$ 250 bilhões em exportações chinesas sujeitas a tarifas nos EUA, cerca de 82% serão retidos por empresas de outros países. Somente 12% serão retidos por empresas chinesas e apenas cerca de 6% absorvidos por empresas americanas.

Da mesma forma, dos cerca de US$ 85 bilhões em exportações dos EUA sujeitos a tarifas da China, cerca de 85% serão capturados por empresas de outros países. As empresas americanas manterão menos de 10%, enquanto empresas chinesas capturarão apenas cerca de 5%.

Os resultados são consistentes em diferentes setores, de máquinas a produtos de madeira e móveis, equipamentos de comunicação e produtos químicos.

A Unctad explica esta realidade com o facto “das tarifas bilaterais alterarem a competitividade global em benefício de empresas que operam em países não diretamente afetados por elas.”

Por isso, ainda de acordo com o estudo, os países que devem beneficiar mais com a tensão comercial entre os EUA e a China são aqueles que “são mais competitivos e com capacidade económica para substituir as empresas americanas e chinesas”.

Tensões Comerciais

As atuais tensões comerciais surgiram no início de 2018, quando a China e os EUA impuseram tarifas sobre cerca de US$ 50 bilhões de bens dos dois países.

A disputa aumentou rapidamente e, em setembro de 2018, os EUA impuseram tarifas de 10% a cerca de US$ 200 bilhões em importações chinesas. A China retaliou de imediato impondo tarifas sobre as importações dos EUA, no valor de US $ 60 bilhões.

As tarifas de 10% deveriam inicialmente subir para 25% em janeiro de 2019. No entanto, no início de dezembro de 2018, as partes concordaram em congelar o aumento tarifário até ao dia 1 de março de 2019.

 

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