Relator especial da ONU fala de possíveis perigos na tragédia de Brumadinho

28 janeiro 2019

Especialista independente acredita que ainda é muito cedo para perceber consequências ambientais do incidente que aconteceu na sexta-feira na barragem; pelo menos 60 mortos foram confirmados e cerca de 300 pessoas desapareceram.

O relator especial sobre o direito à água e ao saneamento, Léo Heller, acredita que ainda é muito cedo para perceber quais serão as consequências ambientais do rompimento da barragem de Brumadinho no estado de Minas Gerais no Brasil.

Falando em exclusivo à ONU News, de Minas Gerais, o especialista disse que os próximos dias podem trazer alguns perigos para a saúde pública da região.

Indígenas Pataxó Hã-hã-hãe vivem na aldeia Naõ Xohã, às margens do rio Paraopeba que foi afetado pelo colapso da barragem em Brumadinho, no Brasil. Foto: Lucas Hallel ASCOM/FUNAI

Perigos

“Há muitas pessoas que utilizam essa água, para diferentes atividades, e isso precisará ser mapeado. Há localidades que usam a água do rio para consumo humano, sistemas coletivos de abastecimento de água, e isso também terá de ser muito bem analisado. Muito provavelmente precisará ser interrompido o abastecimento de água de algumas localidades, porque aumentará muito a quantidade de sólidos e possivelmente de metais nas águas.”

Para o especialista, a chegada da lama aos rios pode ter consequências para a saúde das populações. Léo Heller explica que em 2015, o desastre envolvendo uma barragem em Mariana, também em Minas Gerais, “trouxe algumas lições em relação a isso.”

“As empresas afirmam que os resíduos não contêm material tóxico, mas os rios de regiões de mineração, em geral, têm muito metal sedimentado no fundo. O rio Paraopeba está situado numa região de intensa atividade de mineração industrial e tem muitos metais acumulados, metais pesados, nocivos à saúde. A chegada da lama, muito provavelmente, vai colocar em circulação muitos metais e isso pode ser muito nocivo à saúde humana.”

Meio ambiente

Heller diz que não existem dúvidas de que, depois do rio Paraopeba, estas lamas chegarão ao rio São Francisco, um rio de grande importância no contexto brasileiro.

Para ele, o que “não é fácil prever é qual será a dimensão desse impacto, porque o rio São Francisco tem um caudal grande e uma maior capacidade de diluição dessa lama.” Ele diz que “é impossível fazer qualquer tipo de prognóstico”

O relator especial afirma, no entanto, que uma tragédia ambiental como a que ocorreu com o rio Doce, há três anos, pode voltar a repetir-se.

Medidas

Para Léo Heller, as ações dos próximos dias são cruciais para evitar as piores consequências. O relator especial da ONU indicou algumas medidas que considera importantes nesta altura.

“Existem algumas medidas que os governos estão cogitando. Uma delas é utilizar algumas represas que eram usadas como hidroelétricas, para conter uma parte dos efeitos. Mas, sobretudo, monitorar. Fazer monitoramento muito sistemático sobre o efeito na qualidade da água e sobre os riscos para a população que consumira essa água.”

Pelo menos 60 mortos foram confirmados e dezenas de pessoas desapareceram na sequência do incidente da barragem que aconteceu na sexta-feira.

Em nota publicada no domingo, o secretário-geral da Nações Unidas disse que está “profundamente triste pela terrível perda de vidas e danos significativos às casas de pessoas e ao meio ambiente.”

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