Chefe da ONU encerra visita ao Sahel buscando investimento para região
BR

4 maio 2022

António Guterres visitou Senegal, Níger e finaliza passagem pela região na Nigéria; ele afirmou que países precisam de mais investimento para combater o terrorismo e criar condições para desenvolvimento; número de refugiados e deslocados internos vem aumentando na região na última década.

Em viagem pela região do Sahel, o secretário-geral da ONU, António Guterres, visitou pessoas deslocadas e refugiados do Mali em Ouallam, no Níger, e finalizou sua passagem pela África Ocidental no estado de Borno, no noroeste da Nigéria.

Os países sofrem com ataques de grupos terroristas, o que levou milhares a buscarem refúgio em outras cidades e nações vizinhas.

Cerca de 28 mil pessoas deslocadas vivem em Ouallam e distritos vizinhos.
UNICEF Niger/Phillipe Kropf
Cerca de 28 mil pessoas deslocadas vivem em Ouallam e distritos vizinhos.

Níger

O distrito de Ouallam, um dos lugares mais quentes do Níger, onde a chuva cai raramente e com moderação, é onde comunidades encontram refúgio dos crescentes atos de violência e atividade terrorista que atingiram a região.

Nesta terça-feira, em passagem pelo local, Guterres afirmou que trabalhará como porta-voz, exigindo que a comunidade internacional não apenas forneça a ajuda humanitária, mas também apoie o desenvolvimento do país.

Para o chefe da ONU, apenas com educação, saúde e criação de empregos o terrorismo pode ser vencido.

Secretário-geral da ONU, António Guterres, fala com mulheres deslocadas em Ouallam.
UN Photo/Eskinder Debebe
Secretário-geral da ONU, António Guterres, fala com mulheres deslocadas em Ouallam.

“Em nome de Deus”

Ele alertou que “há terroristas que dizem agir em nome de Deus; é uma afirmação falsa” e acrescentou que “em todos os textos sagrados do Islã, há uma condenação da violência e de qualquer guerra travada por um muçulmano contra outro muçulmano”.

O secretário-geral apelou para mais apoio para o Níger, afirmando que é “um país democrático com boa governança”, mas que “não está suficientemente equipado” para combater o terrorismo.

Ouallam e dois outros distritos vizinhos, no norte do Níger, abrigam atualmente cerca de 28 mil pessoas que fugiram de suas casas por causa da violência, incluindo atos terroristas.

Cerca de 8 mil partiram como refugiados do Mali, ao norte, e outros 20 mil foram deslocados de 18 vilarejos e cidades próximas.

De acordo com relatos, as pessoas deixaram as aldeias após ataques terroristas em que pessoas tiveram o gado foi roubado e as lojas de grãos e casas incendiadas.

Em todo o Níger, cerca de 80% da população de 25 milhões depende da agricultura para sobreviver.

Refugiados

De acordo com a Agência das Nações Unidas para Refugiados, Acnur, cerca de 264 mil nigerinos estão deslocados internamente devido a uma série de fatores, incluindo a piora da segurança e os efeitos da mudança nas condições climáticas.

O Acnur informa que também há mais de 250 mil refugiados de países vizinhos no Níger.

Em março de 2022, os parceiros da ONU relataram que mais de 17,6 mil pessoas foram deslocadas para o Níger, principalmente nigerinos voltando para casa, mas também refugiados malianos.

As agências da ONU e seus parceiros estão fornecendo uma série de apoio humanitário e de desenvolvimento em todo o Níger.

Estima-se que 6,8 milhões de pessoas sofrem de insegurança alimentar crônica e não recebem o suficiente para comer, ano após ano.

O baixo índice de chuva e os ataques nas áreas de produção agrícola combinados reduziram e limitaram a quantidade de alimentos cultivados pelos agricultores.

Apesar das múltiplas crises, o plano de resposta humanitária de 2022 para o Níger recebeu apenas 8,7% do solicitado.

Centenas de milhares de pessoas foram deslocadas no nordeste da Nigéria.
UNOCHA/Damilola Onafuwa
Centenas de milhares de pessoas foram deslocadas no nordeste da Nigéria.

Nigéria

Na Nigéria, António Guterres visitou um centro de reintegração apoiado pela ONU para crianças envolvidas com grupos armados, em Maiduguri, capital e maior cidade do estado de Borno.

A área tem sido um dos epicentros do extremismo violento e da atividade terrorista no país e em toda a região do Sahel.

A insegurança nos últimos 12 anos está ligada a grupos armados, incluindo o grupo terrorista Boko Haram, e interrompeu os meios de subsistência, levando ao deslocamento de cerca de 2,2 milhões de pessoas, segundo dados da ONU.

Oportunidades

Nesta quarta-feira, o chefe da ONU também visitou o Centro de Cuidados Provisórios de Bulumkutu, inaugurado em junho de 2016.

O centro forneceu abrigo, proteção e outros serviços vitais para mais de 7 mil pessoas, sendo 4 mil crianças.

Muitos desses menores foram forçados ou escolheram, por falta de outras oportunidades, ingressar em grupos terroristas. Alguns foram detidos e depois libertados após serem suspeitos de envolvimento em atos violentos.

Depois de conhecer um grupo de crianças, Guterres disse ter ficado surpreso ao que elas querem se integrar e contribuir para a sociedade.

António Guterres destaca que sexta edição do relatório deve abalar o mundo
Ocha/Damilola Onafuwa
António Guterres destaca que sexta edição do relatório deve abalar o mundo

Necessidades humanitárias

A ONU afirma que as necessidades humanitárias no nordeste da Nigéria continuam em grande escala, agravadas pela pandemia de Covid-19 e pela deterioração da situação de segurança alimentar, devido aos desafios que os agricultores enfrentam no cultivo e na venda de produtos.

Os dados apontam que 8,4 milhões de pessoas precisam de assistência humanitária e de proteção. Desses, cerca de 3,2 milhões de pessoas não possuem comida suficiente para comer.

O plano de resposta humanitária para a Nigéria prevê US$ 1,1 bilhão para ajudar as pessoas necessitadas no nordeste do país e atualmente é financiado em apenas 8,7%.

Fertilizantes

O custo das operações humanitárias aumentou recentemente, em parte como efeito da guerra na Ucrânia, com o preço do diesel aumentando 52% em relação ao período anterior à crise, enquanto os preços dos fertilizantes aumentaram quase 49%.

Guterres disse que é “absolutamente essencial entender que, em uma situação como essa, não basta fornecer assistência humanitária”.

Ele convidou a comunidade internacional a “investir, apoiar os projetos do governo de Borno e da sociedade civil para criar as condições para o desenvolvimento” e uma realidade em que não haja espaço para o terrorismo.

 

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