Espinosa: “Foi muito intenso, muito trabalho duro, mas também muitas conquistas”

16 setembro 2019

Presidente da Assembleia Geral reflete sobre trabalho realizado durante mandato; em entrevista à ONU News, representante fala sobre temas que marcaram o ano, como mulheres, jovens, mudança climática e migração.

No final de seu mandato, a presidente da Assembleia Geral, María Fernanda Espinosa, disse que o último ano foi “muito intenso, muito trabalho duro, mas também muitas conquistas.”

Em entrevista à ONU News, a representante fez um balanço sobre o trabalho realizado durante o último ano. Espinosa falou sobre igualdade de gênero, migração, e o tema da sua presidência, tornar a ONU relevante para todos.  

O novo presidente da Assembleia Geral vem da Nigéria e chama-se Tijjani Muhammad-Bande. O representante toma posse na terça-feira.

Integrantes da equipe da série Aruanas com a presidente da Assembleia Geral, María Fernanda Espinosa, na sede da ONU em Nova Iorque, ONU News/Daniela Gross

ONU NEWS (ON): Como descreveria o ano que passou como presidente da Assembleia Geral da ONU?

MARÍA FERNANDA ESPINOSA (MFE): Eu diria muito intenso, muito trabalho duro, mas também muitas conquistas, muita satisfação em um trabalho que é tão imenso e onde havia tantas expectativas porque as pessoas esperam muito da ONU. Portanto, estou muito satisfeita com os resultados, com o apoio dos Estados-membros e com o fato de termos conseguido cumprir as sete prioridades que estabelecemos no início.

ON: Quais são as suas maiores conquistas?

MFE: Eu acho que cumpri com as sete questões que apresentei como prioridades, mas talvez destaque três. A nossa campanha global de plásticos, que acabou com a eliminação gradual de plásticos de uso único na sede da ONU, mas também reuniu mais de 400 milhões de pessoas que agora sabem que estamos matando nossos oceanos, e através da campanha de plásticos de uso único que ressoou e teve impacto nos governos do Caribe, que decidiram se unir e eliminar gradualmente os plásticos de uso único. A outra questão que posso destacar é minha obsessão pela igualdade de gênero, empoderamento das feminino e direitos das mulheres. Tudo o que fiz, toda viagem, todo evento de alto nível, toda discussão e negociação teve a questão do empoderamento das mulheres e da paridade de gênero no centro. Como todos sabem, montei um grupo de consultores de gênero de diferentes regiões. Na verdade, eles estavam supervisionando meu trabalho como presidente. Então, trouxemos muitas mulheres no poder para o trabalho da Assembleia Geral e fora dela.

Veja aqui a entrevista completa em inglês:

ON: Em retrospectiva, há algo que teria feito de maneira diferente?

MFE: Eu diria que gostaria de ter mais tempo para algumas questões que precisam de mais desenvolvimento. Uma das questões, por exemplo, é ser mais ousada e ambiciosa na maneira como aprimoramos os métodos de trabalho da Assembleia Geral, como integramos nosso trabalho, como modernizamos nosso trabalho, como colocamos mais ênfase na implementação da resolução do que na sua adopção. Este ano, no final da sessão, aprovaremos cerca de 340 resoluções e acho que devemos considerar a implementação. Existem muitas negociações para chegar a uma resolução, ainda mais quando adotamos resoluções por consenso, 193 Estados-membros se unindo sobre uma questão. Mas precisamos ver como implementar e como transformar nossas resoluções, a nossa criação de regras, para melhorar a vida das pessoas no terreno.

Presidente da Assembleia Geral, María Fernanda Espinosa, assinando o livro de condolências após mortes causadas pelo ciclone Idai por Moçambique, ONU News

ON: O que pensa de ser uma das poucas mulheres que ocuparam essa posição e também ser a primeira mulher da América do Sul?

MFE: Foi um privilégio e um desafio, porque eu sabia que tinha que cumprir a tarefa. Eu sabia que tinha que provar que fui eleita pelos Estados-membros, primeiro, por ser a pessoa certa e, segundo, porque sou mulher. Então, basicamente, a mensagem é que precisamos de mais mulheres em posições de poder. Não podemos continuar tendo 75% dos parlamentares sendo homens, apenas 21 chefes de Estado e de governo entre 193, menos de 5% das mulheres CEOs das 500 maiores empresas. Os números não estão corretos, o que significa que a qualidade da governança não está correta. A paridade de gênero e os direitos das mulheres não são apenas justiça, são senso comum. Tem a ver com aritmética, mas também com a qualidade de uma sociedade, de uma democracia e do cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. As mulheres precisam estar no centro de todas as políticas públicas, dos esforços legislativos e dos esforços de base. Nos governos locais, desde o nível familiar ao nível internacional. Ainda há muito a ser feito, porque mulheres e meninas ainda são marginalizadas. Ao olharmos para o último relatório dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, vemos que as desigualdades cresceram, incluindo a desigualdade de gênero e as desigualdades de mulheres e meninas.

ON: O que a ONU pode fazer mais para avançar a agenda das mulheres em todo o mundo?

MFE: Eu diria que há uma combinação de ações. Antes de mais nada, precisamos de uma forte liderança global. Precisamos de estruturas legais adequadas. Precisamos de fortes redes da sociedade civil trabalhando em conjunto, mas também conectando o pensamento, as promessas e os compromissos em todo o mundo. Mas também está nas mãos de governos e dos líderes. Eu mencionei liderança global. Mencionei políticas e legislação de ação afirmativa muito específicas e também investimentos. Precisamos investir mais em educação de boa qualidade para meninas e meninos. Precisamos investir mais para garantir que a diferença salarial entre homens e mulheres desapareça. É uma diferença salarial de 20% em todo o mundo. Portanto, ainda há muito ser feito sobre o empoderamento econômico das mulheres, sobre o fato de ter mais mulheres em posições de poder, mulheres na política e no trabalho com mulheres rurais, que são muito responsáveis por nossa própria segurança alimentar hoje e no futuro. Precisamos fazer mais com mulheres com deficiência, com as mulheres indígenas. Elas devem estar no centro de nossos compromissos para cumprir a Agenda 2030.

Presidente da Assembleia Geral, María Fernanda Espinosa, discursa na Assembleia Geral, Foto ONU/ Loey Felipe

ON: Sobre paz e segurança, o que diria a alguém que questiona o papel ou a relevância das Nações Unidas hoje, diante de conflitos como o da Síria, do Iêmen, e temos a questão israelense-palestina que permanece por resolver?

MFE: Quando viajo, eu sempre interajo com jovens, com grupos de jovens e grupos de mulheres. Eles sempre pedem que a ONU produza resultados e isso é legítimo. Mas na ONU, todos nós trabalhamos juntos, e é verdade que temos conflitos que agora estão aumentando em proporção, aumentando em intensidade e aumentando também o estado de paralisia em alguns deles. Temos que reconhecer, por exemplo, que o conflito israelense-palestino está um pouco congelado, e acho que o que precisamos fazer é superar essa implementação e suprir o déficit que temos. Porque temos várias resoluções no Conselho de Segurança, várias resoluções da Assembleia Geral. Já é hora de colocá-los em prática e ação. Penso que a ONU é o único lugar onde o diálogo político, com soluções pacíficas para conflitos, mesmo conflitos prolongados, pode ser tratado e resolvido, porque aqui é o lar das Nações Unidas, mas também de “Nós, os povos”. Não vamos esquecer esta primeira frase poderosa da Carta da ONU.

ON: Presidente, durante o seu mandato, foram aprovados dois pactos sobre refugiados e migrantes. Ainda temos crises na Europa com migrantes e também na África do Sul. Então, o que será vital para uma ação eficaz para evitar essas crises?

MFE: Eu diria que ambos os pactos, o Pacto Global para a Migração e o Pacto Global para Refugiados, são ferramentas e instrumentos para promover e aprimorar a cooperação, a colaboração e o diálogo entre os Estados-membros e as sociedades em todo o mundo. E, portanto, eles não são instrumentos legalmente vinculativos. Eles são instrumentos orientadores de políticas e precisam ser amplamente utilizados. E a segunda questão é que os dois pactos abordam as verdadeiras causas, em uma agenda preventiva. A única maneira de prevenir o aumento do número de refugiados e migrantes é olhar para as verdadeiras causas. As verdadeiras causas são pobreza, desigualdade, educação de má qualidade, falta de oportunidades de emprego para os jovens, mas também conflitos e insegurança. Portanto, se enfrentarmos isso, se queremos ser sérios em relação à implementação da Agenda 2030, acho que é a ferramenta mais poderosa para construir sociedades pacíficas. A história da migração é a história da humanidade. Sempre tivemos migrantes, pessoas em movimento. Eu penso que é importante ter responsabilidades compartilhadas e partilha de encargos entre países de origem, trânsito e destino. E é isso que o pacto sobre a migração ordenada segura e regular faz.

ON: Acabou de nos falar sobre os jovens. Vimos mais pessoas deste grupo participando ativamente dos eventos da ONU? Como devem também ser promovidos outros grupos na organização?

Presidente da Assembleia Geral, María Fernanda Espinosa, no encontro com o papa Francisco no Vaticano, Servizio Fotografico - Vatican Media

MFE: Eu acho que sim, e temos que reconhecer que temos um déficit de inclusão na ONU. Tentei superar esse déficit de inclusão de alguma forma. Sim, os jovens foram parte integrante de tudo o que eu fiz este ano. Todo evento de alto nível, todo diálogo de alto nível, todo engajamento, mesmo no nível presidencial, não é que convidamos jovens. Eles faziam parte da discussão. Faziam parte da mesa interagindo com ministros, chefes de Estado e governo. E também envolvemos grupos de mulheres, organizações da sociedade civil. E eu acho que é imperativo que melhoremos a maneira como incluímos todos os envolvidos na conversa e na discussão. Sabemos que a ONU é um espaço intergovernamental, mas não podemos tomar decisões informadas como Estados-membros se não estivermos prontos para ouvir. Penso que o segredo de tomar decisões informadas é ouvir o que a sociedade, o que a sociedade que representamos está nos dizendo como líderes, como tomadores de decisão.

ON: Vamos voltar ao meio ambiente e conversar sobre uma experiência que teve no Caribe. Como espera que a campanha contra o uso do plástico descartável tenha mais eficiência e impacto em todo o mundo?

MFE: Vai continuar. Tenho a certeza porque tivemos tantos parceiros excelentes, desde celebridades até o setor privado engajado e líderes, começando pelo primeiro-ministro de Antígua e Barbuda,  até as altas autoridades da Noruega. Os Estados-membros estão se unindo para realmente levar a sério a eliminação progressiva do plástico. E as sociedades, os jovens. O nosso concerto ‘Play It Out’ em Antígua e a campanha reuniram mais de 400 milhões de pessoas conectadas à campanha.

Fortalecemos agora a nossa parceria com a National Geographic. Portanto, foi uma rede enorme em que a ONU está no centro, o Gabinete do Presidente, mas também a ONU Meio Ambiente. Então, tenho certeza de que plantamos as sementes e elas realmente terão uma ótima colheita.

ON: E como poeta, o que você escreveu ou descobriu que ressoou com você durante todo o mandato?

MFE: O que posso dizer é que este ano eu não, como fiz em toda a minha vida adulta, não parei de ler poesia e minha escrita sofreu um pouco, eu tenho que reconhecer. Mas eu aprendi muito. Eu recebi muito amor das pessoas, que tenho certeza de que isso será, um dia, revertido em poesia. Mas li poesia e, infelizmente, não consegui escrever. Mas está em algum lugar do meu coração e na minha mente, no meu DNA. Eu digo, a poesia está no meu DNA, faz parte do que sou. Então, acontecerá, espero que em breve.

ON: Alguma consideração final?

MFE: Que essa talvez tenha sido a experiência mais fascinante, maravilhosa, profissional e humana que já tive na minha vida.

ONU/Manuel Elias
María Fernanda Espinosa, presidente da 73ª sessão da Assembleia Geral, segura o martelo após a entrega de Miroslav Lajcák, presidente da 72ª sessão da Assembléia Geral, e o secretário-geral António Guterres.

 

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