Alerta sobre risco de “apartheid climático” que pode empurrar mais de 120 milhões de pessoas para a pobreza

27 junho 2019

Relatório ao Conselho de Direitos Humanos destaca que países pobres podem ser os mais afetados; especialista independente aponta consequências como insegurança alimentar, baixos níveis de rendimentos e saúde.

O relator especial* das Nações Unidas sobre pobreza extrema e direitos humanos destacou que a mudança climática ameaça “desfazer os últimos 50 anos” de desenvolvimento, saúde global e redução da pobreza.

Philip Alston fez um alerta sobre o que descreve como um risco de uma nova era de “apartheid climático” e fome. A observação foi feita em relatório apresentado na sessão do Conselho de Direitos Humanos que acontece em Genebra até 12 de julho.

O relator especial sobre pobreza extrema e direitos humanos, Philip Alston, durante visita à região norte de Belfast, Foto: Bassam Khawaja

Deslocamento

Para o especialista, mesmo que as atuais metas globais sejam cumpridas, dezenas de milhões de pessoas ficarão mais pobres. Essa situação levará ao deslocamento generalizado e à fome.

Alston destacou ainda que a mudança climática terá o seu maior impacto sobre os mais vulneráveis e pode empurrar mais de 120 milhões de pessoas para a pobreza até 2030. O impacto mais severo será sobre os países pobres, regiões e lugares onde pessoas pobres vivem e trabalham.

Considerando a melhor hipótese de um aumento de temperatura de 1,5° C até 2100, as temperaturas extremas em muitas regiões deixarão as populações desfavorecidas enfrentando insegurança alimentar, com baixos níveis de rendimentos e saúde.

Alston afirmou que além disso, muitas pessoas terão que escolher entre a fome e a migração. Ele apontou para o paradoxo de pessoas na pobreza serem responsáveis ​​por apenas uma fração das emissões globais, e que mesmo assim “sofrerão o impacto da mudança climática e terão uma menor capacidade de se proteger.”

Superaquecimento

Ao argumentar sobre o risco de um cenário de “apartheid climático”, Alston apontou para uma situação em que os ricos pagam para escapar do superaquecimento, da fome e do conflito, enquanto o resto do mundo sofre.”

Quanto às implicações da mudança climática sobre os direitos humanos, Alston destacou impactos desse problema em questões como vida, alimentação, moradia e água.

Ele também aponta para consequências sobre a democracia, quando governos tentam lidar com as consequências das alterações do clima e ao mesmo tempo convencem os eleitores a aceitar as grandes transformações sociais e econômicas necessárias. Segundo ele, essa situação fragiliza ​​os direitos civis e políticos.

Indústria

O perito mencionou ainda que Estados deixam de cumprir compromissos de redução de emissões de carbono e de financiamento climático e continuam a subsidiar a indústria de combustíveis fósseis com US$ 5,2 trilhões por ano.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, visitou Vanuatu na última etapa da sua missão no Oceano Pacífico, para avaliar os efeitos das mudanças climáticas. (18 de maio de 2019), by Foto ONU/Mark Garten

Alston destacou que continuar nesse rumo é uma receita para a catástrofe econômica.

O estudo destaca que “embora a prosperidade econômica e a sustentabilidade ambiental sejam “totalmente compatíveis”, essas questões exigem “desvinculação do bem-estar econômico e redução da pobreza das emissões de combustíveis fósseis”.

O especialista propõe políticas locais para apoiar os trabalhadores deslocados e garantir empregos de qualidade. Outra sugestão é que seja criada uma rede de segurança social robusta como “a melhor resposta aos danos inevitáveis ​​que a mudança climática trará”.

Segurança

Para ele, esta iniciativa pode ser um catalisador “para que os Estados cumpram direitos econômicos e sociais ignorados e negligenciados há muito tempo”. Estes incluem a segurança social e o acesso a alimentos, aos cuidados de saúde, ao abrigo e ao trabalho decente.

O especialista disse ainda que “os alarmes sobre a mudança climática soam, e um aumento nos eventos extremos de proporções bíblicas parece estar finalmente atravessando o ruído, a desinformação e a complacência”. No entanto, ele destaca que “esses sinais positivos não são motivo de alegria”.

Alston conclui o relatório destacando que fazer um cálculo sobre a dimensão da mudança necessária é apenas o primeiro passo para a direção certa.

 

*Relatores de direitos humanos são independentes da ONU e não recebem salário pela sua atuação.

 

 

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