Primeiro-ministro de Moçambique pede apoio na ONU - Parte 1

25 junho 2019

Neste Destaque ONU News Especial, o primeiro-ministro de Moçambique, Carlos Agostinho do Rosário, fala sobre apoio da comunidade internacional na reconstrução pós-ciclones, necessidades de financiamento e riscos da mudança climática no país.

Qual foi a tônica da conversa ou da mensagem que Moçambique trouxe para esse encontro?

Muito obrigado pelo convite que nos fizeram para essa ocasião para falarmos para o mundo, através de vossas plataformas. Em segundo lugar, dizer que nós chegamos e tivemos hoje a participação em vários painéis. O painel principal, digamos o da abertura nesta manhã, depois um painel dedicado particularmente para o Idai e para o Kenneth, os ciclones, e a mensagem principal que nós trouxemos aqui, bom, as mudanças climáticas já chegaram. Chegaram e vieram para ficar. Tendo vindo para ficar, os ciclones Idai e Kenneth não vão ser os últimos, e vamos ter muito mais ciclones. A intensidade dos ciclones e a frequência com que se dão levam já a ver que nós temos que nos preparar. Temos de nos preparar para nos adaptarmos a essas situações e mitigarmos. E para isso nós temos que construir melhor. Temos que construir melhor, coisas mais resilientes, de forma que as perdas humanas que possam provir de mais ciclones não sejam avultadas e essa é uma mensagem muito clara que nós deixamos. Também deixamos a mensagem de que, bom, aconteceu, aconteceu, mas nós não podemos ficar a chorar. Teremos que avançar em duas vertentes. A primeira, é aquilo que temos que fazer investimento. Continuarmos a recuperar aquilo que foi destruído. Uma vez que concluída a fase de resgate e salvamento, que concluímos com algum sucesso, tendo em conta que o pior poderia ter acontecido, senão tivesse sido feito o que nós fizemos, nós com o apoio da comunidade internacional, como falaria, temos que agradecer, ter essa oportunidade para agradecer. Então, estamos nessa fase, na fase de reconstruir, como dizia, a situação em Moçambique está a voltar ao normal graças a essa liderança do governo para fazermos as coisas mais rapidamente. Teremos agora que ter mais atenção para aquilo que são as necessidades imediatas nesse momento para a população. Neste momento a população está precisando de kits para construir as suas habitações. Estão sendo reassentadas em locais seguros e eles têm que encontrar kits para poderem fazer as suas casas. E ao mesmo tempo que eles têm que reconstruírem as suas casas eles têm que produzir para que saiam rapidamente da mão estendida para a dependência alimentar.

ONU News/Daniela Gross
Primeiro-ministro de Moçambique, Carlos Agostinho do Rosário.

 

Falou aqui de construção de casas e eu lembro de uma imagem sua quando estava num centro de assentamento e dizia, olha, essa não é a casa apropriada, não é isso que nós vamos dar a população. Moçambique já tem condições, que condições é que tem para dar a s casas que a população precisa e no prazo que a população precisa?

A população sabe o que quer. Nós fomos visitar alguns centros de reassentamento em Sofala, estou a me recordar, em Dondo, e fomos lá ver a parceria que nós fazemos entre o governo e a população. A população sabe o que quer. Nós damos apoio e damos matérias de construção, também encontramos um parceiro que nos apoia com os materiais de construção. Eles fazem o trabalho, fazem casas tipicamente adequadas para as suas condições, muito bem-feitas, e nós estão criamos todas as condições já ao redor para que eles não sintam necessidade de voltar para a zona de risco.

ONU/JC McIlwaine
O primeiro-ministro moçambicano foi um dos representantes de alto nível presentes na sessão que acontece no Conselho Económico e Social da ONU, Ecosoc.

 

Nesse aspecto algo vai ter que mudar a construção vai ter de mudar. Muda tudo, não é? Sendo alvo de ciclones. Tem levado essa mensagem ao mundo? O que é que tem recebido em retorno?

Nos painéis que nós participamos hoje verificamos que há essa consciência, de que efetivamente temos que receber muita ajuda para que essas coisas mudem. A maneira de fazer as casas da população também tem que mudar. Não só as casas, mas toda a infraestrutura, tem que se adequar às mudanças climáticas que chegaram, aquilo que são a frequência dos ciclones. Portanto, pensamos que essa é a mensagem que temos recebido, a população está pronta a acatar, mas, temos que ter recursos. Portanto, sem recursos, tudo isso aqui, não passa de palavras. E nós temos que ter recursos para que efetivamente tudo isto, incluindo tecnologias, também. E estamos mesmo nessa trajetória e estamos cá. E sentimos que temos abertura. Pelo menos nos encontros que tivemos, e verificamos muita abertura para que sejamos apoiados naquilo que é possível apoiar, para quando viermos a construir com mais resiliência, e mais robustez das nossas infraestruturas.

 

Quando chegou, e teve aquela primeira imagem de destruição, que história é que mais lhe tocou, que história é que gostaria de contar às pessoas do seu contato direto com a tragédia? Moveu o seu governo de Maputo para a área afetada, na Beira, para o Conselho de Ministros, mas teve este contato com a população. O que é que mais lhe tocou neste movimento que fez?

O que mais nos tocou, mais nos marcou é que, de facto, a população não perdeu o espaço para se reerguer rapidamente. A população soube dar a mão a outras pessoas, que necessitavam. Chegamos lá no terreno, verificámos o movimento interno da solidariedade. As pessoas, todas elas que tinham as condições para salvar as vidas de outras pessoas, estavam a fazê-lo. Não esperavam por meios mais sofisticados. Isto é uma coisa muito importante. Uma solidariedade interna que se moveu no local. Também verificámos que as pessoas ficaram bastante chocadas com o que aconteceu. As perdas foram avultadas e as pessoas perguntavam, o que é que se perdeu mais. O que se perdeu mais é o homem, o homem é que se perdeu mais, o tecido humano é que ficou mais afetado. O homem perdeu os seus pais, a pessoa perdeu os seus filhos, o homem perdeu os seus entes queridos, o homem perdeu a sua capacidade de produzir, a sua casa, o homem ficou, efetivamente, muito afetado. Mas tocou, e de forma positiva, a prontidão que as populações mostravam para refazer as vidas e não ficavam muito tempo a chorar. Sim, choravam, mas simultaneamente com o choro estavam dispostos a refazer as vidas. É por isso que estamos, neste momento, a dar os passos que estamos a dar. As coisas estão se a mover, estamos a reerguer gradualmente, de forma muito positiva. E a liderança do nosso presidente, a liderança do nosso governo, teve o seu papel.

 

Presidente Nyusi agradeceu ao secretário-geral logo a seguir pela mensagem que ele enviou a Moçambique, em português. Ouvimos aqui a manifestação de solidariedade de Portugal que vai aumentar o apoio, o Brasil mandou bombeiros. Neste momento, o que é que veio ao de cima quanto à relação com a Cplp?

Solidariedade de todos os países do mundo, em particular a Cplp, todos eles deram apoio. O Brasil deu um grande apoio, notável, Angola também, de registar, todos os outros Estados da Cplp, Portugal também esteve à altura. A cooperação esteve lá, a solidariedade esteve lá e, portanto, temos de, mais uma vez, nesta plataforma, dar os nossos agradecimentos por essa solidariedade e por esse apoio que nos deram, e que agora é a fase mais difícil, de reconstruir aquilo que foi destruído. Pedimos que avancemos juntos nesta odisseia.

Sentimos na carne o que é esta necessidade de nos adaptarmos às mudanças climáticas

Moçambique parece que fez impulsionar esta ideia de se criar uma abordagem na Cplp para mitigar desastres. Acha que faz sentido depois da experiencia que o país passou?

Óbvio. Faz bastante sentido. De outra maneira não podia ser. Faz muito sentido. Sentimos na carne o que é esta necessidade de nos adaptarmos às mudanças climáticas e a comportarmo-nos de maneira a mitigar os efeitos devastadores daquilo que nós sentimos. Portanto, nós temos essa obrigação de, não diria liderar, mas fazermos advocacia para que de facto as coisas corram dessa maneira.

 

Num plano mais amplo, da comunidade internacional, quanto é que Moçambique recebeu até agora para avançar?

São os números que existem. Nós fizemos uma avaliação no terreno e a avaliação indicou que era necessário cerca de 3 biliões de dólares americanos. E, nesta conferência internacional que fizemos na Beira, houve promessas de cerca de 1.2 bilião. São promessas e seguramente que, por aquilo que nós verificámos, pelo compromisso dos nossos parceiros vão ser desembolsados e esperamos que sejam. Há processos que ainda estão a ser preparados e esperamos que nos próximos meses os desembolsos possam cair. Temos estado a insistir, fortemente, que não deve haver um hiato de tempo muito grande entre aquilo que são promessas e os desembolsos porque nós precisamos, de facto, dos recursos ontem, nem sequer precisamos hoje. E os nossos parceiros estão muito abertos e seguramente que são os trâmites necessários para que os desembolsos sejam feitos e esperamos que, mais um mês, um mês e tal, os desembolsos vão cair.

 

 

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