“Imagine que é uma carta viajando no tempo. Que mensagem deseja transmitir aos seus leitores?”

27 dezembro 2018

Para fechar o ano, a ONU News traz algumas publicações que foram mais lidas e tiveram grande impacto nas nossas audiências. Em cada dia, compartilharemos esses momentos até 31 de dezembro.

A carta do menino português José Duarte resume o que se diria nestes dias: porque seus sonhos ainda não se realizaram, não pare de sonhar.

A mensagem valeu uma medalha de prata em concurso anual da União Postal Internacional, UPU. A competição global envolveu cerca de 60 países e mais de 1,2 milhão de crianças entre os nove e os 15 anos.

O tema da competição de 2018  foi “Imagine que é uma carta viajando no tempo. Que mensagem deseja transmitir aos seus leitores?” Para concorrer, as cartas tinham que estar escritas em inglês ou francês.

Em vídeo produzido para a ONU News pelos CTT Correios de Portugal, Duarte diz que se inspirou na sua vida e na dos colegas, que se iam separar indo para diferentes escolas.

 

Vencedora

A carta vencedora foi escrita por Chara Phoka, de 13 anos, do Chipre, e conta a história da viagem de uma carta do sul da Ásia para a Europa. O terceiro lugar ficou para Nguyen Thi Bach Duong, de 14 anos, do Vietname. 

A brasileira Clarice Rilyane Oliveira da Silva, de 15 anos, foi uma das cinco jovens que recebeu uma menção honrosa.

Funcionário separa cartas.  Foto: UPU

 

Leia a carta completa escrita por José Duarte traduzida pela ONU News:

Nome completo: José Duarte

Idade: 10 anos
País: Portugal
Terra da Esperança, 1 de janeiro de 2020

Meu querido amigo
Olá! Eu sou a Ângela, uma carta muito viajada.
Decidi contar-te a minha aventura.
Tudo começou há muitos anos, quando dois colegas e amigos terminaram o 4º ano.
O Marco ia com a sua família para um novo país, longe, cheio de montanhas cobertas de neve.
O Miguel ficaria na mesma aldeia, na mesma casa com os pais e avós.
Ao dizerem adeus, o Miguel disse:
- Assim que chegares na tua nova casa, não te esqueças de escrever!
- Prometido!, respondeu o Marco, sorrindo, beijando seu cão já no carro cheio de malas.
Passaram-se dois meses e a escola começou. Tudo era novo para o Marco. O país, a casa, a escola, a língua e os colegas. Então ele pensou em escrever para o seu amigo Miguel.
E foi assim que eu nasci. Uma linda carta para o Miguel.
Fui colocado num envelope com um selo muito bom: uma imagem de um campo com vacas malhadas e uma montanha coberta de neve no fundo.
Viajei de avião e senti-me importante.
Depois de uma semana, o carteiro deixou-me na caixa de correio do Miguel. No entanto, naquele dia, ninguém veio me buscar. Os dias passaram e outras coisas caíram em mim. Fiquei triste.

Finalmente, alguém abriu a caixa e retirou-nos a todos, colocando-nos numa mesa. As outras cartas foram escolhidas uma por uma.
Eu fiquei sozinho e esquecido, debaixo da mesa. E assim, fiquei por anos, vendo a luz através das fendas das janelas, ouvindo os pássaros lá fora.
Um dia acordei cedo com grande comoção na casa. Quando ouvi crianças, pensei que era finalmente o Miguel e que a carta chegaria ao destinatário ...
- Mãe, há uma carta velha aqui na mesa. Coloco na caixa? -, perguntou a menina. 
- Deixe aquela, Ana, está cheia de poeira. Vá para a cozinha e termine de comer o bolo. - respondeu a mãe.
Mas a menina, curiosa, pegou em mim com os dedos cobertos com bolo de chocolate e me afastou dos seus livros. Hmm ... Foi assim que aprendi que o chocolate é tão bom e que os livros cheiram bem ...
Fiquei em um livro por muitos anos até que um dia a Ana, já mulher, decidiu oferecer todos os livros dos seus filhos para uma associação perto da sua universidade.
E aqui estou eu, toda feliz viajando de comboio. Nunca viajei assim.
Chegando à cidade estudantil, ainda em um livro escrito por um tal de Júlio Verne, entrei em uma caixa cheia de outros livros, construindo cenários e estatuetas.
E fiquei até que a Fátima me veio buscar. Essa menina era como Marco; também estava com a sua família em um país estranho, em uma escola estranha e sem saber falar a língua. Ela gostou da capa do livro: um balão de ar quente grande e colorido.
Ela decidiu trazer o livro para a escola, com a ajuda da professora, para aprender um pouco mais e sonhar com um futuro feliz, longe dos conflitos do seu país de nascimento.
Ela colocou o livro na mochila e no dia seguinte fomos à escola de bicicleta. Foi ótimo, nunca tinha andado de bicicleta!
Quando Fátima estava na escola folheando o livro, eu caí. Ela me pegou com cuidado e admirou o meu lindo selo postal com as vacas malhadas e duas estampas de chocolate.

Não sabendo o que fazer comigo, ela decidiu mostrar-me para a professora, que ficou muito curiosa.

Meu amigo leitor, não vai acreditar! A professora ficou tão curiosa que me levou para casa.
- Miguel, olha o que estava em um livro - ela disse ao marido.
- Mas esta carta é para mim, Miguel Mala-Posta sou eu. E o endereço é o da antiga casa dos meus avós na aldeia - respondeu o marido com entusiasmo ...
Miguel? Ele seria o Miguel que eu estava procurando há 30 anos? Bem ... Mala-Posta é um sobrenome especial. Como isso é possível? Essas coisas acontecem na vida ...
De repente, Miguel leu a carta de seu amigo Marco e escreveu uma resposta. Felizmente, Marco ainda morava na mesma casa, naquele país com neve, e o encontro ficou marcado.
Os dois amigos finalmente se reuniram novamente.
Quanto a mim ... agora estou emoldurada e colocada com destaque numa parede da sala de estar.
Sempre tive a esperança de chegar ao destino.
Nunca parei de sonhar.
Não pare também, meu amigo.
Grandes beijos.

Ângela

 

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