24 julho 2020

Quase metade da população global ainda não está online; em entrevista à ONU News, especialista afirma que investimento nesta área é base para desenvolvimento econômico e social; em junho, secretário-geral lançou Roteiro para Cooperação Digital.

Em entrevista à ONU News, a diretora-executiva da Aliança para a Internet Acessível, Sónia Jorge, afirmou que a pandemia de Covid-19 causou um reconhecimento dos níveis de desigualdade digital em todo o mundo.

Sónia Jorge foi uma das participantes do lançamento do Roteiro para Cooperação Digital da ONU, apresentado pelo secretário-geral em junho.

A pandemia de Covid-19 está a acelerar as mudanças nesta área?

Mudanças, infelizmente, não estão a acontecer muito rápido. Aquilo que está a acontecer é um reconhecimento de que a crise da desigualdade digital a nível mundial, mas principalmente em certas áreas do mundo, é crítico e é realmente uma crise. É uma crise que este vírus da Covid-19 veio desmascarar. Tem estado muito escondido e esta crise de saúde pública global veio desmascarar.

É uma crise que este vírus da Covid-19 veio desmascarar

Conclusão, o que é que isto quer dizer? A população mundial, mais de 50%, que já sabemos que não tem acesso à internet, está numa desvantagem terrível, não só no acesso à informação, mas no acesso à educação, dados sobre saúde, possibilidades de trabalho e formas de compensar a crise econômica.

Outro problema que também é muito importante é que muitos não têm um acesso que seja bom suficiente para, por exemplo, usufruir da educação em linha, informações de saúde ou simplesmente informação geral sobre o estado do país, negócios, informações básicas.”

Portanto, a crise da desigualdade digital, é mais complexa do que parece, porque não é só ao nível da falta de acesso. Mesmo aqueles que têm acesso, não têm acesso de qualidade suficiente.

As populações em países como, por exemplo, Moçambique, Cabo Verde ou até mesmo no Brasil, que supostamente estão em linha, muitas vezes não têm acesso à velocidade, aos dados e aos dispositivos que lhes proporcionem as oportunidades que o desenvolvimento digital possa dar.

Imagine o número de crianças que não têm escola, as escolas fecham, e passam a ser virtual. Muitos deles nem têm aparatos que sejam suficientes para usufruírem da educação. E o mesmo em relação à saúde, para terem consultas virtuais.

Sónia Jorge também destacou várias ações que os governos podem tomar para melhorar o acesso dos seus cidadãos, ONU News/Ouri Pota

E outras pessoas ao nível do trabalho. Há muitos trabalhos que as pessoas não podem fazer em casa, não podem ser virtuais. Há muitas desvantagens da falta de acesso, não só para os que estão excluídos, mas também os que tem uma certa inclusão, mas que não é suficiente para uma grande percentagem nos países desfavorecidos.  

Como é que este problema está distribuído a nível mundial?

A nível mundial, diz-se que à volta de 50% da população mundial está em linha. Mas entre 20 a 30% dessa população não está bem servida, isso quer dizer, não tem conectividade significativa, conectividade com capacidade equivalente a 4G, dados suficientes, aparatos com disponibilidade e acesso frequente. Se a pessoa tem acesso uma vez por mês, não é a mesma coisa que ter diariamente.

Depois, se for a ver o resto da população que não tem acesso nenhum, a maioria está na África e no sul da Ásia. São populações rurais, remotas, pobres, mulheres e adolescentes meninas.

Isso quer dizer que existem barreiras a nível de rendimentos, mas também a nível da indústria, de infraestrutura, de serviços, e outras que têm a ver com fatores sociais e culturais, que não permitem a certos grupos terem acesso por outros problemas que, infelizmente, ainda não se conseguiu lidar. Isso tem a ver com a desigualdade a nível do género e também desigualdade no mundo inteiro, todos os problemas que ainda não se conseguiram resolver, relacionados com a pobreza.

Existem barreiras a nível de rendimentos, mas também a nível da indústria, de infraestrutura, de serviços, e outras que têm a ver com fatores sociais e culturais

Depois, a nível do número específico das diferentes regiões, em África só à volta de 25% tem acesso aos serviços digitais. A nível da Ásia, é um bocadinho mais, mas nos países desfavorecidos do Sul é à volta de 30, 35%. 

Além de regiões, que outros tipos de desigualdades existem?

Se for a ver a nível de gênero, na Ásia, o fosso digital de gênero na Ásia é mais de 50%. Das pessoas que estão ligadas e que têm acesso, a maioria são homens, as mulheres estão muito mais em desvantagem.

Nos países de África, e mesmo em países fora dessas regiões, em que esse fosso possa não parecer tão grande a nível do acesso, continua a ser grande a nível do uso, por causa dos tais problemas culturais e sociais que não deixam as mulheres e meninas usufruírem das oportunidades que os homens têm, ficando ainda mais em desvantagem.

A nível de rendimentos, as mulheres continuam a receber, em média, dependendo das regiões, entre 30 a 40% dos salários dos homens. Portanto, a nível do custo do acesso à internet, para as mulheres é uma percentagem muito maior do rendimento mensal médio do que para os homens. Conclusão, não só a acessibilidade e o custo é a barreira principal, mas é a barreira que exclui muito mais as mulheres e os pobres, principalmente as mulheres pobres e rurais.

Portanto, é um problema complexo, mas não é um problema difícil de lidar. Aliás, é fácil de lidar com ele, é preciso é existir um compromisso. 

Unicef/UN014974/Estey
Desigualdade de gênero é um dos obstáculos para o acesso, sobretudo para mulheres jovens e rurais

 

♦ Receba atualizações diretamente no seu email - Assine aqui a newsletter da ONU News
♦ Baixe o aplicativo/aplicação para - iOS ou Android
♦ Assista aos vídeos no Youtube e ouça a rádio no Soundcloud