Diretora executiva do Pnuma alerta para emergência climática e modelo para futuro sustentável
BR

18 fevereiro 2021

Em artigo, Inger Andersen* cita o relatório "Fazendo as pazes com a natureza", que reúne todas as evidências do declínio ambiental a partir dos maiores levantamentos globais científicos, com as ideias mais avançadas sobre como revertê-lo.

Mesmo em meio a pandemia, 2021 pode ser o ano em que fizemos as pazes com a natureza e começamos a recuperar o planeta.

Na medida em que a Covid-19 vira nossas vidas de cabeça para baixo, uma crise mais persistente demanda ação urgente em escala global. Três crises ambientais – mudanças climáticas; perda e  colapso da natureza; poluição do ar, do solo e da água – somam-se à emergência planetária que irá causar, no longo prazo, mais dor do que a Covid-19.

Durante anos, cientistas têm detalhado como a humanidade está degrandando a terra e os sistemas naturais. Ainda assim, as ações que estamos tomando – de governos e instituições financeiras a empresas e indivíduos – são muito menores do que é necessário para proteger as atuais e futuras gerações de um planeta estufa, assolado por extinções massivas das espécies e água e ar envenenados.

Em 2020, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, Pnuma, anunciou que, apesar da queda nas emissões de gases de efeito estufa provocada pela pandemia, o mundo continua seguindo para um aquecimento global acima de 3 graus Celsius neste século.

Neste mês, o Relatório Dasgupta nos lembrou o que o Pnuma tem alertado há tempos: o estoque per capita de capital natural – recursos e serviços que a natureza dá para a humanidade – caiu 40% em apenas duas décadas. E sabemos que um número assustador de 9 a cada 10 pessoas em todo o mundo respira ar poluído.

Encontrar respostas para problemas tão gigantescos é complexo. Leva tempo. Mas peritos têm desenvolvido soluções. O racional econômico é claro. E os mecanismos e instituições para implementá-los já existem. Não há mais desculpas.

Neste ano, a ONU reunirá governos e outros atores para conversas decisivas sobre ação climática, biodiversidade e degradação da terra. A Covid-19 tem atrasado estas cúpulas e complicado suas preparações. Novamente, isto não é desculpa para a inércia. Estes encontros devem mostrar que o mundo finalmente leva a sério o enfrentamento da nossa emergência planetária.

Para guiar os tomadores de decisão rumo à ação necessária, a ONU lançou o relatório "Fazendo as pazes com a natureza". Ele reúne todas as evidências do declínio ambiental a partir dos maiores levantamentos globais científicos, com as ideias mais avançadas sobre como revertê-lo. O resultado é um modelo para um futuro sustentável que possa garantir o bem estar humano num planeta saudável.

Nossos desafios ambientais, sociais e econômicos estão interligados. Eles devem ser enfrentados juntos. Por exemplo, não podemos alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, incluindo o fim da pobreza até 2030, se as mudanças climáticas e o colapso de ecossistemas estão comprometendo o abastecimento de água e alimentos nos países mais pobres do mundo. Não temos escolha a não ser transformar nossas economias e sociedades, valorizando a natureza e colocando a saúde dela no centro de todas as nossas decisões.

Se fizéssemos isto, bancos e investidores parariam de financiar combustíveis fósseis. Governos trocariam trilhões de dólares em subsídios para agricultura de natureza positiva e energia e água limpas. As pessoas priorizariam a saúde e o bem-estar no lugar do consumo e encolheriam a pegada ambiental.

Há sinais de progressos mas os problemas estão aumentando mais rápido do que nossas respostas. Todos nós precisamos não intensificar mas sim dar um salto em 2021.

O número de países prometendo trabalhar para emissões zero de carbono já está em 126. O chamado é para que todos os países entreguem reforçadas Contribuições Nacionalmente Determinadas antes da COP do clima e imediatamente lancem a transição para a emissão zero. Durante a COP Climática, governos devem finalmente concordar com as regras do mercado global de carbono. Os 100 bilhões de dólares que os países desenvolvidos prometeram dar todos os anos para ajudar as nações em desenvolvimento a lidar com os impactos das mudanças climáticas devem finalmente fluir.

Enquanto também procuramos concordar com um esquema ambicioso de biodiversidade pós-2020, que acabe com a fragmentação de nossos ecossistemas, o pedido é para que nós alimentemos o mundo sem destruir a natureza, sem derrubar florestas e sem esvaziar nossos oceanos.

Podemos criar uma economia surpreendente ao mudar para sistemas econômicos circulares, que reaproveitem recursos, reduzam emissões e eliminem químicos e toxinas que estão causando milhões de mortes prematuras – tudo enquanto criamos empregos.

Enfrentar nossa emergência planetária é um esforço de toda a sociedade. Mas os governos devem liderar, começando com uma recuperação inteligente e sustentável da pandemia da Covid-19, que invista nos lugares certos. Eles devem cirar oportunidades para que indústrias futuras gerem prosperidade. Eles devem garantir que as transições sejam justas e igualitárias, criando empregos para aqueles que os perderam. Eles devem dar voz aos cidadãos nestas decisões de longo prazo, mesmo que virtualmente. 

Podemos fazer. A pandemia tem mostrado a incrível capacidade da humanidade em inovar e responder a ameaças, guiada pela ciência. Nas três crises planetárias - mudanças climáticas, perda da natureza e poluição -, enfrentamos uma ameaça maior do que a Covid-19. Neste ano, devemos fazer as pazes com a natureza e, nos anos seguintes, devemos garantir que esta paz perdure.

(*) Inger Andersen é diretora executiva do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, Pnuma.
 

 

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