Violência contra mulheres: cinco anos depois, mais de 100 meninas de Chibok continuam desaparecidas na Nigéria
BR

10 dezembro 2019

Mãe de menina sequestrada pelo Boko Haram que nunca retornou para casa pergunta: “O que está acontecendo com elas?”; 16 dias de ativismo pelo fim da violência contra mulheres encerra nessa terça-feira; especialista diz à ONU News que “corpos das mulheres” continuam sendo “espaço de conquista territorial simbólica.”

Yana Galang é mãe de Rifkatu, uma das 276 estudantes que foram sequestrados pelo movimento terrorista Boko Haram em 2014 na escola na cidade de Chibok, no estado de Borno, na região nordeste da Nigéria.

Cinco anos depois, Rifkatu e mais de 100 meninas ainda não foram devolvidas às suas famílias. Em entrevista à ONU News, Yana pergunta: Onde elas estão? O que está acontecendo com elas? Quando voltarão para casa?

Campanha

Nos últimos 16 dias, a ONU Mulheres conduziu um período de ativismo pelo fim da violência contra as mulheres, em que destacou histórias como a de Yana e Rifkatu.

A campanha, que foi lançada no Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres, encerra nessa terça-feira, dia 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos.

Sequestro

Galang conta que foi na noite de 14 de abril de 2014, por volta das 11h 25 min, que ouviu os tiros. Naquela noite, ela lembra que todos na comunidade simplesmente fugiram.

Quando entraram na escola não havia nada. A mãe de Rifkatu diz que estava tudo queimado e que pelo caminho encontraram apenas algumas peças de roupa e chinelos das meninas, como um sinal.

O medo de Yana agora é que o mundo tenha esquecido das meninas Chibok.

Quando ocorreu, o sequestro das estudantes causou uma comoção mundial e uma campanha viral nas redes sociais pela libertação do grupo, conhecida como #BringBackOurGirls, “tragam de volta as nossas meninas”, na tradução em português.

Mais de cinco anos depois, mães como Yana continuam esperando por suas filhas.

Violência

Em mensagem sobre o Dia Internacional para a Eliminação da Violência, o secretário-geral, António Guterres, disse que este tipo de crimes está “entre as violações de direitos humanos mais horríveis, persistentes e generalizadas do mundo.”

O chefe da ONU destaca várias questões que perpetuam a impunidade, como estigma, concepções erradas, falta de notificação e má aplicação das leis. Além disso, “o estupro ainda é usado como uma terrível arma de guerra.”

Estratégia

Falando à ONU News de Bruxelas, na Bélgica, a investigadora do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, Tatiana Moura, explicou que o desaparecimento de pessoas, como as meninas Chibok, é uma estratégia de guerra.

“A minha experiência enquanto pesquisadora foi no Rio de Janeiro, e foi no Brasil enquanto uma situação de violência urbana que marca uma guerra cotidiana. O desaparecimento de pessoas, o fazermos os corpos desaparecer, é uma estratégia de guerra. Então, a situação do Boko Haram, que fez desaparecer meninas, foi específica, mas é uma situação generalizada. Ou seja, o desaparecimento de mulheres ou o desaparecimento de pessoas é uma estratégia que faz com que as guerras não tenham fim. É uma estratégia de ocultarmos corpos, de não sabermos onde estão os nossos familiares.”

Meninas que foram sequestradas e estupradas pelo Boko Haram na Nigéria.Foto: Unicef/UN0126512/Bindra

Violência Sexual

Para Moura, os cenários de uma guerra oficial são contextos que exacerbam aquilo que é a violência de gênero cotidiana.

“Isso se passa com o Boko Haram na Nigéria, como se passa em outras situações no mundo. Seja em guerra declarada ou não. Eu acho que hoje em dia vivemos situações onde não sabemos mais como definir o que é uma guerra formal e o que é uma guerra oficial, daquilo que não é. A verdade é que continuamos ainda a ter a violência sexual e a ter os corpos das mulheres como um espaço de conquista territorial simbólica.”

Campanha

António Guterres afirma que “a violência sexual contra mulheres e meninas está enraizada em séculos de dominação masculina.” Para ele, “as desigualdades de gênero que alimentam a cultura do estupro são essencialmente uma questão de desequilíbrios de poder.”

De acordo com a ONU, em todo o mundo, uma em cada três mulheres e meninas é vítima de algum tipo de agressão.

No final de novembro, as Nações Unidas lançaram uma campanha de dois anos contra o estupro. O tema da campanha é “Orange the World: Generation Equality Stands Against Rape”, “Torne o Mundo Laranja: Geração da Igualdade se Levanta Contra o Estupro”, numa tradução livre para português.

 

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