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Entrevista: Malala Yousafzai

Entrevista: Malala Yousafzai

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Aos 19 anos, a paquistanesa ganhadora do Prêmio Nobel acaba de tornar-se a mais jovem Mensageira da Paz da ONU. Nomeada pelo secretário-geral António Guterres, sua função será chamar a atenção do mundo para um problema que afeta milhões de meninas: a falta de acesso à educação. Segundo a Unesco, 16 milhões de meninas nunca terão a chance de frequentar a sala de aula.

Guterres vê Malala como “um símbolo da educação para todos, uma inspiração global e campeã da educação para meninas”. Após a nomeação, na segunda-feira, em Nova York, Malala Yousafzai concedeu entrevista à ONU News. Ouça o áudio (em inglês) e leia a íntegra da conversa:

ONU News: Malala, muito obrigada por falar com a ONU News, e parabéns pela nomeação. Mensageira da Paz da ONU é um título que impressiona. Como você se vê neste papel?

Malala Yousafzai: Estou honrada com a nomeação e para mim significa mais responsabilidade com algo que eu já tinha, que é parte da defesa da educação para meninas: aumentar a conscientização, pedir aos líderes mundiais para investirem mais em educação. E vou continuar fazendo isso, mas como Mensageira da Paz da ONU, terei ainda mais força e vou me manter mais forte, além de ter uma plataforma maior para espalhar minha mensagem.

O.N.: E por falar em ser uma ativista para a educação de meninas, qual foi a maior lição que você aprendeu nesses anos sendo um modelo de referência sobre o assunto?

M.Y.: Tenho lutado pela educação das meninas desde que eu tinha 10 ou 11 anos, quando o terrorismo começou no Vale do Swat, no Paquistão, e as garotas não podiam ir para a escola. Aprendi muito em quase 20 anos de vida, vendo o terrorismo, o extremismo, por ter sofrido um atentado aos 15 anos e agora no palco global lutando pelo direito das meninas à educação. O que aprendi foi que a geração futura precisa de educação, de educação de qualidade. Se a gente quiser ver um futuro brilhante, desenvolvido; se quisermos ter uma vida melhor, precisamos investir na educação para as garotas. Isso é crucial. Não podemos ignorar. Às vezes eu penso: por que será que os líderes mundiais ignoraram o problema por tanto tempo? O que aprendi com minha própria experiência em 19 anos eles ainda não aprenderam em 50, 60 anos ou mais. Então essa é a minha mensagem: garantir que eles percebam que o investimento em educação pode mudar o mundo.

O.N.: Seu pai esteve com você na cerimônia de nomeação e ele foi fundamental para que você frequentasse a escola. O que homens e meninos podem fazer para garantir que meninas e mulheres tenham acesso à educação?

M.Y.: Eu comecei falando sobre o assunto, mas não poderia ter continuado sem o meu pai, sem os meus pais. Haviam tantas outras garotas que queriam se pronunciar sobre a questão, mas seus pais, seus irmãos não permitiam. Então o papel dos homens é crucial, porque se os homens impedirem as mulheres de falarem, elas não conseguem ir para a frente. É importante que os homens permitam às mulheres seguir seus sonhos e conquistá-los. Como meu pai disse, você não precisa fazer algo extra pelas mulheres – apenas não corte suas asas, deixe-as voar. Deixe-as avançar. Os homens precisam ser feministas orgulhosos, defender as mulheres, e quando você empodera as mulheres, você as ajuda e empodera toda a sociedade. Existem benefícios econômicos, sociais... os benefícios são incontáveis.

O.N.: Malala, há anos você defende essa questão da educação para meninas e suas conquistas são incríveis: Nobel da Paz e agora Mensageira da Paz da ONU. Todos sabem da sua história e eu acho que as pessoas pensam que realmente te conhecem. Mas como você mencionou, você só tem 19 anos. Qual seria uma das ideias erradas que as pessoas têm de você?

M.Y.: Muitas vezes, as pessoas pensam que eu sou super alta, mas na verdade eu sou muito, muito baixa e pequena. Eu tenho mais ou menos 1,53m e daí eu uso salto para ficar mais alta, mesmo assim não resolve. Eu sou muito baixa. E a segunda coisa é que as pessoas acham, não sei, que eu sou muito boa nos estudos, mas elas não sabem que eu também tenho momentos difíceis na escola. Eu tenho provas e às vezes eu tiro notas C ou D. Eu também tenho de estudar muito para entrar na faculdade. Eu não estou livre de testes de admissão. Eu tenho que fazer essas provas. Tenho que conseguir três As nos meus exames finais para conseguir entrar na universidade. Então eu passo pelas mesmas coisas que todos os estudantes. Eu sou normal. Prêmio Nobel da Paz e Mensageira da Paz da ONU não te ajudam muito! (risos).

O.N.: Falando sobre educação, você mencionou que precisa estudar como todo mundo. Quais são seus próximos passos em relação a sua própria educação?

M.Y.: No nível universitário, eu quero estudar Filosofia, Política e Economia. Já me candidatei para algumas universidades, mas tudo depende das minhas notas finais, que saem em agosto. Estou trabalhando duro para isso. Depois, não sei que tipo de carreira eu quero ter. Uma coisa que eu tenho certeza é de que meu foco continuará sendo o direito das meninas à educação. Por meio do Fundo Malala, vou continuar inspirando e incentivando mais garotas a falarem sobre o assunto, tentando ampliar as vozes dessas jovens.

O.N.: Malala, falando sobre inspirar pessoas: você vai viajar o mundo como Mensageira da Paz da ONU. Como você pretende inspirar jovens, especialmente aqueles que, pela região onde vivem, sentem que não há esperança, que não existe razão para ir à escola?

M.Y.: Como tenho feito no último ano, visitei vários países como Líbano e Jordânia. Conheci meninas sírias refugiadas; conversei com garotas na Nigéria. E vou continuar fazendo isso nesse cargo de Mensageira da Paz; estarei em países diferentes conhecendo meninas maravilhosas e inspiradoras. Vou fazer questão de dizer que a voz delas é importante; que isso pode mudar o mundo. Eu comecei falando no Vale do Swat e agora vocês podem ver que a voz de uma criança é mais poderosa do que as armas dos terroristas. É isso que elas precisam entender, todas as crianças, que sua opinião é importante para o mundo. E você não precisa esperar crescer, você pode contribuir agora com a mudança.

O.N.: Alguma mensagem final?

M.Y.: Acredite em si mesmo. Mantenha-se confiante, com esperança em relação ao futuro. Coisas ruins vão acontecer, mas se estivermos unidos, seremos mais fortes, podemos fazer o mundo melhor e podemos contribuir para a mudança, então vamos nos manter positivos e com esperança.

Entrevista concedida à Dianne Penn.

Tradução: Leda Letra.

Photo Credit
Malala Yousafzai e António Guterres. Foto: ONU/Rick Bajornas