Perspectiva Global Reportagens Humanas

Crise no Oriente Médio agrava fome nos países mais vulneráveis BR

Uma mãe usando um burqa azul segurando um bebê, com um menino de pé ao seu lado, na Clínica de Saúde Hisar Shahi, apoiada pelo PAM, em Jalalabad, no Afeganistão.
© WFP/Isheeta Sumra Afeganistão. A Clínica de Saúde Hisar Shahi, apoiada pelo WFP, em Jalalabad

Crise no Oriente Médio agrava fome nos países mais vulneráveis

Ajuda humanitária

Milhões de pessoas não conseguem satisfazer necessidades alimentares básicas; impactos da crise no Oriente Médio empurram famílias para a fome aguda.

Uma nova análise do Programa Alimentar Mundial, WFP, alerta que a continuação do conflito no Oriente Médio e a manutenção de preços elevados do petróleo poderão agravar a insegurança alimentar e empurrar milhões de pessoas para a fome nos países mais vulneráveis do mundo.

O cenário projetado pelo WFP em março, segundo o qual 45 milhões de pessoas poderiam passar a sofrer com insegurança alimentar aguda, está agora a concretizar-se, alerta a agência das Nações Unidas.

Somália, Sri Lanka e Afeganistão

Intitulado “Segurança alimentar sob pressão: Como a crise no Oriente Médio está a impactar países vulneráveis”, o relatório analisa a insegurança alimentar na Somália, no Sri Lanka e no Afeganistão.

A mulher afegã Raqiba Ahmadi senta-se com seus seis filhos em Faizabad, no Afeganistão, destacando a crise de desnutrição.
© WFP/Danijela Milic O Afeganistão enfrenta níveis de desnutrição próximos aos recordes, afetando cerca de cinco milhões de mães e crianças

A agência da ONU documentou mais de 6 milhões de pessoas com dificuldades em satisfazer as necessidades alimentares básicas nestes três países: 2,5 milhões na Somália, 2,3 milhões no Afeganistão e 1,3 milhões no Sri Lanka.

Os choques nos preços dos combustíveis e dos alimentos, as perdas de rendimento e as perturbações no comércio cruzam-se com vulnerabilidades pré-existentes nestes países, aumentando o risco de fome aguda nos agregados familiares.

Números confirmam cenário previsto

O diretor do Serviço de Análise de Segurança Alimentar e Nutrição do WFP, Jean-Martin Bauer, afirma que estes dados confirmam o cenário previsto pela agência ainda este ano.

Ele alerta que a crise poderia empurrar milhões de pessoas adicionais para a fome. Agora estamos a vê-lo acontecer em tempo real.  E que em muitos casos, as famílias mais pobres do mundo, longe do epicentro da crise, são as mais afetadas. 

A análise sugere que novos grupos populacionais estão a cair na insegurança alimentar. É o caso das populações urbanas extremamente pobres e dos grupos rurais marginalizados, como os pastores na Somália.

Já os países que enfrentam conflitos, choques climáticos e dificuldades económicas, ou que são altamente dependentes de importações, estão entre os mais expostos à crise.

O AED PO Matthew Hollingworth, usando um colete do PAM e uma máscara facial, recebe uma caixa de produtos nutricionais de outro trabalhador humanitário dentro de um avião de carga na Somália.
© WFP/Sara Cuevas Gallardo Suprimentos humanitários são entregues a uma região remota da Somália.

Sistema humanitário global sob pressão

O relatório mostra que o conflito no Oriente Médio está a colocar o sistema humanitário global sob crescente pressão. O WFP estima que irá servir menos 1,5 milhões de pessoas do que o inicialmente previsto em 2026.

Já o impacto total da crise ainda não se fez sentir, realça Bauer. “Mesmo que o conflito terminasse hoje, já foram causados danos irreversíveis e o impacto nos preços, nos meios de subsistência e nas operações humanitárias continuará a fazer-se sentir durante muito tempo”, afirmou.  

A continuidade da crise no Oriente Médio coloca em causa a assistência a mais de 9 milhões de pessoas nos próximos meses. Neste sentido, o PAM alerta que, sem uma ação coordenada e urgente, as famílias mais vulneráveis serão empurradas para uma emergência de fome catastrófica.