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Eleições no Haiti já têm mais de 300 partidos ou grupos políticos cadastrados BR

Comunidade na encosta de uma colina no Haiti, com casas densamente agrupadas, árvores tropicais e montanhas ao fundo, sob um céu nublado.
© Ohchr/Marion Mondain Porto Príncipe, capital do Haiti

Eleições no Haiti já têm mais de 300 partidos ou grupos políticos cadastrados

Paz e segurança

Pleito está marcado para agosto e dezembro deste ano; última votação presidencial ocorreu em 2015; nação caribenha vive onda de instabilidade e violência; somente em 2025, foram mais de 8,1 mil assassinatos; 90% da capital Porto Príncipe está sob poder de facções armadas.

Daniel Dickinson*

O Haiti permanece mergulhado em uma crise multidimensional marcada por instituições frágeis, incerteza política, violência generalizada de gangues e necessidades humanitárias avassaladoras.

Mas para o representante especial do secretário-geral da ONU no país, Carlos Ruiz Massieu, um acordo político recém firmado oferece  “um momento de esperança e progresso para o povo haitiano” que não participa de eleições presidenciais desde 2015.

Pacto e democracia

Naquele ano, o presidente Jovenel Moïse ganhou a votação. Em 2021, ele foi assassinado. A partir de então, teve lugar uma sucessão de administrações interinas com a meta de governar enquanto o país aguardava novas eleições.

Carlos G. Ruiz Massieu, Representante Especial para o Haiti, informa a reunião do Conselho de Segurança sobre a questão relativa ao Haiti.
UN Photo/Eskinder Debebe

Ruiz Massieu, afirmou que o novo Pacto Nacional para a Estabilidade e a Organização das Eleições foi um “ato político significativo” que atende as prioridades haitianas de “restabelecimento da segurança, organização de eleições confiáveis ​​e restabelecimento da governança democrática”.

Mas por que a situação política é importante?

Um governo estável será essencial para melhorar a vida diária do povo haitiano.

Violações dos direitos humanos

A governança frágil e a insegurança permitiram que gangues armadas expandissem o controle territorial, minassem o Estado de direito e cometessem violações atrozes dos direitos humanos.

Essas violações incluem mais de 8,1 mil assassinatos, no ano passado, sequestros para resgate, recrutamento de crianças e violência sexual, incluindo estupros coletivos de mulheres e meninas.

A violência das gangues também levou ao deslocamento de cerca de 1,5 milhão de pessoas, muitas das quais já sofriam com altos níveis de pobreza – uma situação  agravada pelo colapso econômico.

A prolongada transição política do Haiti não é um problema interno isolado, mas tem ramificações para a estabilidade regional, como o tráfico de drogas e armas por gangues e a migração de seus cidadãos para o exterior.

Eleições até o fim de 2026

A ONU, juntamente com a comunidade internacional, sempre defendeu que qualquer solução política duradoura precisa ser um processo liderado pelo Haiti. As autoridades estão recebendo apoio em seus esforços para organizar e realizar eleições municipais, parlamentares e presidenciais. 

Um close-up de um rapaz no Haiti, com a mão perto do rosto, refletindo sobre os desafios da violência de gangues e o lançamento do programa PREJEUNES para proteger as crianças contra o recrutamento.
© Unicef/Herold Joseph Um menino no Haiti reflete sobre o impacto da violência de gangues durante o lançamento do programa PREJEUNES para prevenir o recrutamento de crianças.

O atual primeiro-ministro, Alix Didier Fils-Aimé, teria afirmado que elas serão realizadas até o final do ano.

Comunidade internacional

O Conselho de Segurança da ONU é a principal organização multilateral, juntamente com a Organização dos Estados Americanos, OEA, e a Comunidade do Caribe, Caricom, uma organização regional de Estados caribenhos que trabalha com o Haiti para encontrar soluções para seus desafios de longa data.

O Conselho de Segurança, composto por 15 Estados-membros da ONU, reúne-se pelo menos quatro vezes por ano para discutir a situação no país.

Em sua resolução mais recente, o Conselho instou “todas as partes interessadas haitianas a chegarem a um acordo sobre a futura estrutura de governo”, ao mesmo tempo em que expressou “profunda preocupação com a falta de progresso” na conquista de uma transição política.

A resolução também menciona medidas institucionais recentes, incluindo o decreto de 2025 que estabelece órgãos judiciais especializados para lidar com a corrupção, a violência de gangues e os crimes sexuais, reformas consideradas essenciais para restaurar o Estado de direito e a credibilidade política.

Fragilidade institucional

Apesar dessas iniciativas, a insegurança persistente, a fragilidade das instituições haitianas, bem como a fragmentação política, continuam a atrasar o progresso rumo a eleições e à governança constitucional.

Qual é o papel das Nações Unidas?

A ONU desempenha um papel político e de coordenação central por meio do Escritório Integrado das Nações Unidas no Haiti, frequentemente conhecido por sua sigla em francês, Binuh.

O Comissário de Polícia da ONU , Papa Samba Mbodj, da BINUH, conversa com um aspirante a cadete da polícia haitiana.
UNPOL Haiti

A missão é liderada por Carlos Ruiz Massieu e tem um mandato até janeiro de 2027. O Conselho de Segurança destaca que o papel de "bons ofícios" da missão é fundamental para viabilizar uma transição transparente liderada pelos haitianos.

O Binuh é distinto, mas trabalha em conjunto com:

• O  Escritório de Apoio das Nações Unidas no Haiti, que tem o mandato de fornecer apoio logístico, técnico e administrativo à Força de Supressão de Gangues, apoiada pela ONU e mandatada pelo Conselho.

• Agências da ONU, como o Pnud o Unicef e o Programa Mundial de Alimentos, que fornecem assistência humanitária e para o desenvolvimento.

Como a ONU está respondendo?

O apoio da ONU à transição do Haiti centra-se na integração da assistência política com iniciativas de segurança, justiça e direitos humanos, incluindo:

Uma vista aérea de um campo de refugiados lotado no Haiti, com numerosas tendas cinzas instaladas em uma área urbana. Pessoas são vistas caminhando ao redor e algumas são reunidas sob um dossel vermelho. Montanhas e árvores são visíveis no fundo.
Foto da ONU/Robert

• facilitação de um diálogo nacional e do processo constitucional, incluindo a garantia de uma transição pacífica de poder;

• apoio à reforma da justiça e a tribunais especializados no combate à corrupção e aos crimes em massa;

• assistência às instituições judiciais e à administração penitenciária;

• apoio à elaboração de um programa de desarmamento, desmantelamento e reintegração, DDR, liderado pelo Haiti;

• coordenação com parceiros internacionais para reduzir a violência comunitária;

• monitoramento e denúncia de violações de direitos humanos, incluindo violência sexual;

• apoio às autoridades nacionais para fortalecer a proteção dos direitos humanos.

O que acontece a seguir?

Este ano chega com grandes expectativas para a realização de eleições há muito adiadas.

Um calendário eleitoral define o primeiro turno das eleições legislativas e presidenciais para 20 de agosto e um segundo turno, se necessário, juntamente com as eleições municipais, em 6 de dezembro.

De acordo com relatos da mídia, cerca de 300 partidos ou grupos políticos se registraram para participar das eleições.

Para cumprir esses prazos, é necessário avançar na estabilização do ambiente de segurança e criar condições propícias para a realização de uma votação justa.

A ONU continua a facilitar o diálogo, apoiar as eleições, fortalecer as instituições de justiça e promover a responsabilização, mas o progresso depende, em última análise, de que as partes interessadas haitianas cheguem a um consenso.

As diferenças políticas precisam ser superadas para melhorar a segurança, reduzir o deslocamento e evitar o colapso econômico.

Uma transição política crível é essencial para a recuperação nacional.

*Daniel Dickinson é redator-sênior da ONU News Inglês.