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Sequência de tempestades deixa Portugal em estado de calamidade

Dois agentes de resgate portugueses navegam numa rua inundada num pequeno barco inflável, remando através de águas lamacentas perto de edifícios residenciais.
Ministério de Defesa Nacional de Portugal
Equipe de resgate navega pelas ruas inundadas de Portugal após tempestade

Sequência de tempestades deixa Portugal em estado de calamidade

Por Sara de Melo Rocha*
Clima e Meio Ambiente

Autoridades declararam estado de calamidade devido a fortes tempestades que já causaram 13 mortos, centenas de desalojados e elevados prejuízos; especialistas descrevem o fenómeno como um “comboio de tempestades”.

Portugal encontra-se em estado de calamidade devido a dias consecutivos de mau tempo severo, num fenómeno que os meteorologistas descrevem como um “comboio de tempestades”.

A sucessão de depressões atlânticas tem provocado chuva intensa, vento forte e inundações em várias regiões do país, com consequências graves.

Um soldado português em uniforme de camuflagem carrega uma ovelha sobre o ombro através de águas inundadas perto de uma ponte danificada durante uma tempestade em Portugal.
Ministério da Defesa Nacional de Portugal
Soldado resgata ovelhas durante tempestade em Portugal

Kristin e Leonardo provocam fortes estragos 

Há registo de treze vítimas mortais, centenas de pessoas desalojadas, milhares de ocorrências registadas pela Proteção Civil, danos significativos em infraestruturas e perturbações na vida política e social.

A primeira grande tempestade, a Kristin, atravessou o território português no final de janeiro, deixando um rasto de destruição.

Ventos fortes acima dos 200 km/h e precipitação persistente provocaram quedas de árvores, estradas cortadas, casas danificadas e longos cortes no fornecimento de eletricidade. As regiões de Leiria e do oeste foram as mais afetadas.

Quando o país ainda tentava recuperar, chegou a depressão Leonardo, prolongando a instabilidade meteorológica. A nova tempestade causou fortes inundações, sobretudo em zonas urbanas e ribeirinhas e a Proteção Civil registou centenas de ocorrências em poucas horas.

Comboio de tempestades

Agora, segue-se a depressão Marta que deve atingir o país este sábado, 7 de fevereiro. A tempestade está inserida na vasta região depressionária que se formou no Atlântico norte, uma espécie de corredor por onde está a passar este comboio de tempestades em direção à Península Ibérica.

Em entrevista à ONU News, a meteorologista Maria João Fraga explica o conceito. “Um comboio de tempestades é uma sucessão contínua de depressões que vão passando sucessivamente, umas atrás das outras, e vão circulando sempre no mesmo trajeto de oeste para leste”.

“Nunca vi algo tão devastador”

O impacto tem sido severo em Portugal, mas também em Espanha e outros países europeus devido a um fluxo polar muito a sul e ao facto do anticiclone dos Açores estar fora da sua localização habitual e bastante enfraquecido.

Apesar do fenómeno ser esperado no Inverno, Maria João Fraga, meteorologista há 30 anos, destaca a severidade da depressão Kristin. “Desde que sou meteorologista, nunca vi [algo] tão devastador, talvez esta tenha sido a mais agressiva”, destaca a especialista do Instituto Português do Mar e da Atmosfera, Ipma.

OMM aponta impacto a nível europeu

Segundo o Deutscher Wetterdienst, um dos centros regionais de monitorização climática da Organização Meteorológica Mundial, OMM, na Europa, as próximas semanas poderão continuar a ser marcadas por precipitação acima da média.

A situação será observada em partes da Groenlândia, da Europa Ocidental e do Mediterrâneo, com acumulados semanais entre 25 e 100 milímetros, podendo ultrapassar esse valor em locais mais expostos.

A instituição alerta ainda para a possibilidade de nova incursão de ar frio de origem ártica, sobretudo no norte e nordeste da Europa, afetando países como a Noruega, Suécia, Finlândia e regiões do Báltico.

Uma torre danificada de linha elétrica em uma área rural de Portugal após uma tempestade, com casas e floresta no fundo.
Ministério do Meio Ambiente de Portugal/Sara Matos
Danos causados por tempestades em Portugal: uma torre danificada de linhas elétricas em um ambiente rural.

Estado de calamidade até 15 de fevereiro 

Portugal encontra-se em estado de calamidade até 15 de fevereiro e, ao longo destes dias, todos os distritos do continente português têm estado sob avisos meteorológicos.

As autoridades apelam repetidamente à população para evitar deslocações desnecessárias e comportamentos de risco.

Bombeiros, forças de segurança e serviços municipais continuam mobilizadas no terreno, respondendo a emergências, assistindo populações isoladas e tentando repor serviços essenciais.

Adiadas eleições presidenciais 

O impacto do mau tempo estendeu-se também à esfera política. Em algumas zonas severamente afetadas, foi adiado o ato eleitoral para as eleições presidenciais, devido às dificuldades logísticas e de segurança.

Ainda assim, quase todo o país vai manter a segunda volta para escolher o novo presidente português para este domingo, 8 de fevereiro, com exceção de alguns municípios afetados.

*Sara de Melo Rocha é correspondente da ONU News em Lisboa.