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Unodc aponta mudança no consumo de drogas no Afeganistão para substâncias sintéticas

Uma mulher de burca azul caminha por uma estufa repleta de fileiras de plantas de pepino no Afeganistão.
© Pnud/S. Omer Sadaat Estudo identificou uma disparidade de gêneros, com apenas 29% das mulheres a reportarem acesso a tratamento, em comparação com 53% dos homens

Unodc aponta mudança no consumo de drogas no Afeganistão para substâncias sintéticas

Legislação e prevenção de crimes

Uso de drogas tradicionais mantém-se predominante, mas cresce o consumo de sintéticos e medicamentos; relatório aponta ainda escassez de profissionais de saúde qualificados e infraestruturas insuficientes.

Um novo relatório conclui que o consumo de drogas no Afeganistão continua a ser dominado por substâncias tradicionais, embora esteja a aumentar o uso de drogas sintéticas e o consumo indevido de medicamentos farmacêuticos.

O estudo do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, Unodc, publicado este domingo, integra o terceiro e último volume do Inquérito Nacional sobre o Uso de Drogas no Afeganistão. A análise é financiada pelo Programa da ONU para o Desenvolvimento, Pnud.

Padrões de consumo identificados pelo inquérito

De acordo com os resultados, os homens identificaram com maior frequência a cannabis, 46%, e o ópio, 19%, como as drogas mais utilizadas nas suas comunidades.

Foram igualmente mencionados o chamado “Tablet K”, 11%, e a metanfetamina, 7%. O relatório assinala que esta é a primeira medição nacional sobre o uso de drogas desde 2015.

Impacto econômico e fatores associados ao consumo

O relatório destaca o peso do consumo de drogas nas economias dos agregados familiares. Substâncias como a metanfetamina e o ópio podem custar mais do que um dia inteiro de salário.

Um único dia de consumo de metanfetamina pode representar até 138% do rendimento diário de um trabalhador ocasional ou 67% do salário de um trabalhador qualificado.

Os inquiridos associaram o consumo continuado sobretudo à pobreza, ao desemprego e às dificuldades financeiras, bem como a dor física, problemas de saúde, sofrimento psicológico, desafios familiares e dependência.

Riscos para a saúde e consumo de alto risco

Resultados anteriores do Inquérito sobre Uso de Drogas de Alto Risco da Unodc evidenciam riscos significativos para a saúde.

Cerca de 8% dos inquiridos relataram ter injetado drogas em algum momento da vida. Entre estes, mais de 75% referiram partilha de seringas e cerca de metade indicou acesso inconsistente a equipamento esterilizado, revelando lacunas na cobertura de redução de danos.

O estudo identificou ainda uma disparidade de gêneros, com apenas 29% das mulheres a reportarem acesso a tratamento, em comparação com 53% dos homens.

Capacidade limitada dos serviços de tratamento

O primeiro volume da série, dedicado ao mapeamento das instalações para o tratamento de perturbações por uso de substâncias, conclui que persistem lacunas significativas na distribuição, acessibilidade, qualidade e cobertura de gênero dos serviços.

Quase dois terços das instalações servem exclusivamente homens, 17,1% atendem apenas mulheres e, nas 32 províncias analisadas, pouco mais de um terço dispõe de serviços disponíveis para mulheres.

O relatório aponta ainda escassez de profissionais de saúde qualificados e infraestruturas insuficientes.

Declarações de responsáveis das Nações Unidas

O representante regional da Unodc afirmou que os resultados demonstram uma ligação estreita entre o consumo de drogas, a pobreza, o desemprego e necessidades de saúde não tratadas.

Ele defendeu respostas integradas que combinem tratamento, redução de danos, cuidados de saúde primários, apoio em saúde mental e proteção social.

Já para o representante residente do Pnud no Afeganistão, o inquérito fornece uma visão clara da realidade do consumo de drogas no país e contribuirá para o desenvolvimento de políticas e programas mais eficazes.

A responsável interina da Missão de Assistência da ONU no Afeganistão, Unama, destacou que os estudos são essenciais para orientar a resposta das autoridades de facto, dos doadores e das Nações Unidas.

A representante defende uma abordagem centrada nas pessoas, baseada no combate ao estigma e à discriminação, e reafirmando a prevenção como a estratégia mais essencial e custo-eficaz.

Recomendações da Unodc

Com base nos três volumes do inquérito e em normas internacionais, o Unodc recomenda a expansão de serviços voluntários de tratamento e redução de danos, baseados em direitos, para homens e mulheres.

O relatório defende investimentos na formação de profissionais de saúde, no estabelecimento de padrões mínimos para instalações, e na ligação destas respostas aos cuidados de saúde primários.

As áreas cobertas incluem saúde mental, apoio psicossocial, proteção social e assistência ao emprego, com intervenções adaptadas às realidades provinciais e às necessidades das famílias.