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Dia Internacional da Abolição da Escravatura enfatiza escravidão moderna BR

Um close do memorial "Arca do Retorno" na sede da ONU em Nova York, mostrando uma figura de mármore branco com um braço e uma mão em tom de pele negra. As palavras "Considere o legado" estão gravadas na base de mármore.
ONU/Devra Berkowitz Memorial permanente em reconhecimento à tragédia e em consideração ao legado da escravidão e do comércio transatlântico de escravos

Dia Internacional da Abolição da Escravatura enfatiza escravidão moderna

Assuntos da ONU

Em 2025, Data destaca a subida global dos casos de escravidão moderna e reforça o apelo do secretário-geral para ações urgentes que protejam os 50 milhões de vítimas atuais.

Assinalado esta terça-feira, o Dia Internacional para a Abolição da Escravatura sublinha que, apesar de ser frequentemente associada ao passado, a escravidão permanece uma realidade crescente.

As mais recentes estimativas da Organização Internacional do Trabalho, OIT, revelam que, entre 2016 e 2021, mais 10 milhões de pessoas foram empurradas para situações de trabalho ou casamento forçados, elevando o total para 50 milhões de vítimas.

Crise contemporânea e apelo à ação

Na sua mensagem para a data, o secretário-geral da ONU, António Guterres, lembra os mais de 15 milhões de africanos que foram “capturados, acorrentados e vendidos” como escravos para o outro lado do oceano, ou pereceram durante a travessia.

Ele sublinha que a escravidão moderna se manifesta hoje em quase todos os países, afetando desproporcionalmente mulheres, crianças, migrantes e pessoas em situação de pobreza extrema ou discriminação.

O secretário-geral descreveu a escravidão como “um horror dos livros de história” e “uma crise contemporânea implacável”. Ele alerta que milhões continuam presos a redes criminosas que exploram a vulnerabilidade causada por pobreza extrema, discriminação ou degradação ambiental.

Guterres apelou a que governos, empresas, sociedade civil e sindicatos se unam para travar práticas como trabalho forçado, tráfico de pessoas e casamentos forçados. Defendeu ainda que as vítimas devem ter acesso a justiça efetiva, compensação, reabilitação e garantias de não repetição.

Casas tradicionais de barro com telhados de palha em um assentamento rural brasileiro.
Vercilene Dias/Arquivo Pessoal Quilombo Kalunga, em Goiás, no Brasil. Em 2024, houve um pedido formal de desculpas aos afrodescendentes pelos períodos da escravatura e da escravidão ocorridas no país

Escalada da escravidão moderna e lucros ilegais crescentes

Dados divulgados pela OIT mostram um agravamento significativo das formas contemporâneas de escravidão. Em 2021, 27,6 milhões de pessoas estavam envolvidas em trabalho forçado. O aumento corresponde a 2,7 milhões em relação a 2016, sobretudo devido à exploração imposta por atores privados.

A escravidão moderna abrange práticas como servidão por dívida, exploração laboral, tráfico de pessoas, casamento forçado e exploração sexual, frequentemente marcadas por coerção, violência ou abuso de poder.

Para a OIT, o trabalho forçado gera US$ 236 bilhões por ano em lucros ilegais, valores resultantes de salários roubados e que fortalecem redes criminosas, reduzem receitas fiscais e alimentam ciclos de exploração.

A maioria dos casos ocorre nos setores da indústria, serviços, agricultura, trabalho doméstico e exploração sexual, atingindo todas as regiões do mundo, com prevalência mais elevada nos Estados Árabes.

Formas persistentes e novas expressões da exploração

Para além das formas tradicionais de escravidão, a ONU identifica novas dinâmicas de exploração relacionadas com migrações, conflitos armados e desigualdades económicas.

O trabalho infantil continua a afetar uma em cada dez crianças no mundo, muitas vezes em atividades perigosas e prejudiciais ao seu desenvolvimento.

O tráfico de pessoas, que inclui recrutamento, transporte ou acolhimento de indivíduos para fins de exploração, permanece disseminado, independentemente do consentimento das vítimas, e constitui automaticamente um crime quando envolve crianças.

Um conjunto de esculturas de concreto representando crianças e jovens africanos acorrentados, formando um monumento memorial.
Foto: Israa Hamad Memorial sobre a escravidão em Stone Town em Zanzibar, Tanzânia.

Liberdade, dignidade e justiça para todos

Com a aproximação do centenário da Convenção da Escravatura, em 2026, a ONU recorda que erradicar a escravidão moderna é uma responsabilidade coletiva e urgente.

Para o secretário-geral, construir “um mundo assente na liberdade, dignidade e justiça para todos” não é apenas possível. Guterres diz ser um compromisso partilhado que deve orientar a ação global para proteger as milhões de pessoas ainda privadas dos seus direitos e da sua humanidade.