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No Dia Mundial da Diabetes, OMS foca em prevenção e sinais silenciosos

Uma pessoa com unhas pintadas de roxo escuro estende um dedo enquanto outra pessoa usa um medidor de glicose no sangue para fazer um teste de diabetes.
Marcelo Camargo/Agência Brasil Diabetes e outras doenças crônicas podem ser causadas pelo consumo de bebidas açucaradas

No Dia Mundial da Diabetes, OMS foca em prevenção e sinais silenciosos

Por Afonso Vilas Boas* 
Saúde

ONU News entrevistou médica portuguesa, Sara Ribeiro, que falou sobre mitos, desinformação e disciplina; segundo ela, muitas vezes, “a diabetes só dá sinais quando já é demasiado tarde”; 150 minutos de exercício físico por dia ajudam a prevenir a doença entre outras ações. 

“A diabetes só dá sinais quando já é demasiado tarde”. Foi assim que a médica de medicina geral e familiar, Sara Ribeiro, descreveu muitos casos da doença que afeta 830 milhões de pessoas em todo o mundo.

Neste 14 de novembro, a Organização Mundial da Saúde marca o  Dia Mundial da Diabetes focando na necessidade de prevenção e no cuidado “ao longo da vida”.

Doença silenciosa com complicações graves

A doença continua a crescer a um ritmo alarmante, afetando cada vez mais jovens e adolescentes. Reconhecer sinais precoces, desmontar mitos e dar importância à mente e ao corpo além de ser consistente na prevenção ajudam a controlar a enfermidade.

Em entrevista à ONU News, a médica Sara Ribeiro, que atua na medicina geral e familiar na USF Vimaranes, em Guimarães, Portugal, afirma que  desmascarar mitos, valorizar a saúde e a disciplina diária são os pilares para dominar a doença.

Se eu estivesse neste caso e quisesse evitar o meu risco, ou pelo menos diminuir o meu risco de ter diabetes no futuro, eu pensaria em quatro pilares estratégicos que eu podia mudar comportamentos para me ajudar nesse sentido. Ter um peso normal e acima de tudo peso. Porque sabemos que a avaliação pelo índice de massa corporal tem algumas limitações. Ter uma percentagem de massa gorda dentro dos parâmetros da normalidade para géneros e para idades. Depois, a prática de exercício físico é muito importante para reduzir tanto a diabetes como outras doenças crónicas, metabólicas e cardiovasculares. Ali, nos 150 minutos por semana, exercício moderado, vigoroso, como recomenda a Organização Mundial da Saúde, terceiro, uma alimentação equilibrada com base na dieta mediterrânica e uma boa qualidade de hidratos de carbono ingeridos. E, por fim, evitar as bebidas alcoólicas e o tabaco. Sem dúvida.”

Cegueira e insuficiência renal

Até 80% dos casos de diabetes tipo 2 podem ser evitados com mudanças simples no estilo de vida. Para a Dra. Sara Ribeiro, o desafio está em educar, prevenir e desmistificar a narrativa em torno da diabetes

A diabetes é uma doença crónica e silenciosa que, segundo a Organização Mundial da Saúde, OMS, afeta 8,5% da população adulta; um número que quase duplicou desde 1980. Está associada a complicações graves, como cegueira, insuficiência renal e doenças cardiovasculares.

A OMS recomenda 150 minutos semanais de atividade física moderada, algo que, segundo a médica, não exige ginásios ou equipamentos caros. Segundo ela, caminhar a passo rápido, subir escadas, usar sacos de arroz como pesos em casa são uma ajuda útil, mas acima de tudo, “o importante é deixar de ser sedentário.”

Uma mulher grávida recebe um teste de glicose no sangue de um profissional de saúde em uma clínica.
© OMS/Panos/Eduardo Martino Profissional de saúde verifica nível de glicemia de gestante e diabética no Centro de Assistência ao Diabetes e Endocrinologia da Bahia, Brasil

Pais como exemplo na educação

O aumento da diabetes tipo 2 entre jovens é uma das maiores preocupações atuais. Para a médica, a prevenção começa dentro de casa, com o exemplo dos pais, pois “os filhos fazem muito mais aquilo que veem fazer do que aquilo que lhes dizem”.

Reduzir o tempo de ecrã, promover atividades ao ar livre e extracurriculares, e incentivar uma alimentação equilibrada são passos essenciais na educação. Segundo a médica portuguesa, não é preciso impor demasiadas regras, mas ensinar o que é comer bem e viver de forma saudável; “uma das maiores heranças que os pais podem deixar.”

A médica sublinha ainda que o equilíbrio é mais eficaz que o extremismo, pois pequenas mudanças consistentes no quotidiano familiar podem ser decisivas para travar uma epidemia que começa cada vez mais cedo.

Sinais silenciosos não devem ser ignorados

Segundo a médica, “a diabetes é traiçoeira porque, quando dá sinais, muitas vezes já causou danos”. No entanto, alguns sintomas devem servir de alerta: sede excessiva, fome constante, perda de peso repentina, urinar com frequência e visão turva.

Contudo, ela lembrou que, mesmo assim, é possível ter diabetes sem apresentar nenhum desses sinais, daí o rastreio regular ser fundamental, especialmente em pessoas com excesso de peso, histórico familiar ou vida sedentária. A especialista reforçou ainda que muitos mitos dificultam o controlo da doença.

Segundo ela, “a maior mentira é achar que controlar a diabetes significa nunca mais comer açúcar”, pois corpo precisa de glicose para funcionar: o que importa é a fonte. Deve-se escolher carboidratos de qualidade, como frutas, legumes e cereais integrais, constituindo uma dieta mais saudável e equilibrada.

Uma mulher usando um hijab roxo e uma camisa azul está preparando uma injeção de insulina com uma seringa em frente a uma parede de blocos de concreto.
WHO/T. Habjouqa Raghad vive em campo de refugiados na Jordânia e tem diabetes tipo 1.

Alternativas acessíveis e o papel da mente

Nem todos têm acesso a monitores contínuos de glicose, mas a médica destaca que nem sempre são necessários. Muitos doentes tipo 2 controlam-se apenas com medicação oral e mudanças de estilo de vida, e para quem precisa de monitorizar, existem tiras capilares e/ou as mais recentes aplicações ligadas por Bluetooth aos dispositivos individuais, que ajudam a acompanhar o açúcar no sangue.

Outro fator decisivo é o controlo emocional. A médica ressaltou que o stress constante faz o corpo produzir hormonas como o cortisol e a adrenalina, que aumentam o açúcar no sangue, e, consequentemente, “tratar a ansiedade, a depressão e dormir bem pode reduzir a resistência à insulina tanto quanto uma dieta equilibrada”.

De forma otimista, a especialista afirma que “a boa notícia é que este impacto é reversível”, através de se fazer exercício e terapia quando necessário, pilares que ligam a saúde mental à metabólica.

Educar para viver bem

Questionada sobre o que colocaria num aviso de frigorífico para se poder ler todas as manhãs, a médica respondeu sem hesitar: “o meu corpo agradece aquilo que eu faço por ele hoje.”

Para ela, a consistência é mais importante que a perfeição. As escolhas dos 20 e 30 anos definem o adulto que seremos aos 50, 60 e 70. É possível ter prazer e equilíbrio, “o segredo está em permitir pequenos exageros e compensar depois.”

A diabetes é um desafio global, mas também uma oportunidade de repensar a relação entre corpo, mente e hábitos.

Como resume a Dra. Sara Ribeiro, prevenir é cuidar, e cuidar é escolher, todos os dias, um estilo de vida que valorize a saúde e o bem-estar.

*Afonso Vilas Boas é estagiário da ONU News sob supervisão da redação.