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Chegada do inverno agrava crise humanitária em Gaza BR

Escola em Gaza
ONU News
Escola em Gaza

Chegada do inverno agrava crise humanitária em Gaza

Ajuda humanitária

Centenas de milhares de famílias enfrentam frio sem abrigo adequado, enquanto o acesso se mantém limitado; apenas 4% das terras agrícolas do território são utilizáveis; apesar do avanço na ajuda humanitária, há um risco crescente de doenças e fome. 

A situação humanitária na Faixa de Gaza continua crítica. O Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários, Ocha, informou que a destruição generalizada e as restrições ao acesso seguem, o que impede a recuperação de serviços básicos. Milhões de pessoas dependem de ajuda para sobreviver. 

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, disse que, embora o volume da assistência tenha aumentado, ainda está longe do necessário para garantir condições de vida dignas à população palestina. 

 

Acesso humanitário continua limitado 

 

A entrada de ajuda humanitária permanece restrita a duas passagens, Kerem Shalom e Kissufim, sem acesso direto ao norte de Gaza desde setembro.  

Desde outubro, mais de 32 mil toneladas de ajuda foram recolhidas, mas centenas de pedidos continuam a ser rejeitados pelas autoridades de Israel, incluindo alimentos frescos e materiais escolares, considerados fora do âmbito humanitário. 

Acampamento em Khan Younis
© WFP/Ali Jadallah

Entre 29 de outubro e 3 de novembro, 48 missões humanitárias foram coordenadas com as autoridades israelenses.  E 26 missões foram facilitadas, enquanto outras foram impedidas, canceladas ou negadas. A lista incluía operações de busca e salvamento, de reparação, limpeza de estradas ou movimentos de profissionais humanitários. 

 

Famílias sem abrigo à beira do inverno 

 

O grupo de gestão local revelou que a maioria das pessoas deslocadas está em abrigos improvisados e superlotados, em áreas abertas e consideradas inseguras.  

A entrada de materiais destinados a abrigos, especialmente tendas, continua a enfrentar grandes restrições, impedindo a preparação e implementação de planos apropriados à chegada do inverno.  

A destruição generalizada, os bloqueios à entrada de materiais e a falta de maquinaria para remoção de destroços dificultam os esforços de reconstrução. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, Pnuma, mais de 61 milhões de toneladas de escombros foram geradas pelo conflito. 

 

Acesso à água e saneamento em colapso 

 

Mais de 85% das infraestruturas de água em Gaza foram danificadas desde outubro de 2023, e a produção de poços subterrânea opera a apenas um quarto da capacidade anterior.  

As sete estações de tratamento de água estão fora de serviço, e 20 das 73 estações de bombagem foram destruídas, enquanto 27 sofreram danos parciais. 

De forma a melhorar o acesso à água, organizações parceiras distribuem água potável através de 1,900 pontos de abastecimento, mas as restrições à entrada de geradores, baterias ou peças de reposição continuam a comprometer o funcionamento das redes. 

 

Vacinação para 44 mil crianças 

 

Em coordenação com o Ministério da Saúde em Gaza, a Organização Mundial da Saúde, OMS, o Fundo das Nações Unidas para a Infância, Unicef, e a Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina, Unrwa, lançaram uma campanha integrada de vacinação e rastreio nutricional para 44 mil crianças que perderam o acesso a serviços essenciais. 

Crianças em Gaza, entre as maiores vítimas do conflito
UNICEF

Segundo a OMS, antes de outubro de 2023, Gaza contava com 54 centros de vacinação e uma cobertura vacinal de 98%.  

Atualmente, mais de metade foi destruída e a taxa caiu para menos de 70%.  

A campanha, que decorrerá em várias fases até janeiro, pretende restaurar a imunização básica e prevenir surtos de doenças evitáveis durante o inverno. 

 

Produção agrícola gravemente afetada 

 

Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, FAO, a maioria dos terrenos agrícolas da Faixa de Gaza foram destruídos. Cerca de 87% dos poços e 86% das infraestruturas agrícolas foram destruídos, com perdas severas nas estufas e pomares. A proibição do acesso ao mar continua a afetar milhares de pescadores. 

O Programa Mundial de Alimentos, WFP, e parceiros distribuem diariamente 1,2 milhão de refeições e 150 mil pães, mas alertam que a ajuda alimentar é insuficiente para travar a fome.  

Padaria em Gaza
© Unocha/Charlotte Cans

A ONU defende a reabilitação urgente de terras agrícolas e o restabelecimento de sistemas de produções locais para reduzir a dependência externa. 

 

Apoio financeiro cobre apenas um terço 

 

Até 5 de novembro, os Estados-Membros desembolsaram US$1,46 bilhão, o equivalente a 36% dos US$ 4 bilhões solicitados pela ONU para responderem às necessidades humanitárias de, pelo menos, 3 milhões de pessoas em Gaza e na Cisjordânia.  

Cerca de 88% dos fundos destinam-se à resposta em Gaza e 12% para a Cisjordânia.   

Em outubro de 2025, o Fundo Humanitário para o Território Palestino geriu  135 projetos, a maioria executados em parceira entre agências da ONU e organizações não-governamentais nacionais e internacionais, para atender a necessidades urgentes de abrigo, alimentação, saúde e