Perspectiva Global Reportagens Humanas

Sudão vive piora de um conflito com efeitos arrasadores, alertam peritos BR

Uma pessoa caminha por um campo de deslocados apoiado pelo ACNUR em Renk, Sudão do Sul, enquanto outras estão sentadas em um abrigo improvisado com fumaça subindo.
© Acnur/Reason Moses Runyanga Vários vilarejos foram atacados, incendiados e saqueados

Sudão vive piora de um conflito com efeitos arrasadores, alertam peritos

Paz e segurança

Especialistas da ONU pedem embargo de armas e responsabilização por graves violações de direitos humanos; Missão Independente de Investigação alerta para aumento da violência, fome e abuso sexual em meio à intensificação dos ataques.

A Missão Internacional Independente da ONU sobre Apuração de Fatos* para o Sudão alerta que a guerra civil está piorando e os efeitos arrasadores para inúmeros civis envolvidos.

Em apresentação ao Conselho de Direitos Humanos, em Genebra, o grupo aponta o uso de mais armamento pesado em áreas povoadas e a piora acentuada da violência sexual e de gênero.  A ajuda humanitária vem sendo usada como tática de guerra com o isolamento de hospitais e instalações médicas.

Sofrimento humano

Para o presidente da Missão, deve haver clareza. Segundo ele, o conflito no Sudão está longe de terminar.  Mohamed Chande Othman diz que “a dimensão do sofrimento humano continua a se aprofundar.”

Uma mulher deslocada passa as cinzas e os pertences queimados num acampamento no Sudão após o conflito e um incêndio, destacando a crise humanitária.
© Unicef/Mohammed Jamal Houve ainda uma alta acentuada da violência sexual e de gênero, com mulheres e meninas vítimas de estupro

Ele assinalou que “a fragmentação da governança, a militarização da sociedade e o envolvimento de atores estrangeiros estão alimentando uma crise cada vez mais mortal.”

Em visita a áreas povoadas, os especialistas constataram o uso intenso de armamento pesado por ambos os lados.

Ataque com mais de 100 mortos

Nos arredores da área de El Fasher, civis foram agredidos, detidos e mortos. Vários vilarejos foram atacados, incendiados e saqueados pelos rebeldes das Forças Revolucionárias da Sudão, RFS.

Um dos exemplos foi um ataque em que morreram mais de 100 civis. Outro foi o um bombardeio das Forças Revolucionárias da Sudão, SAF, em Al Koma que matou pelo menos 15.

Em áreas reconquistadas pelas RFS, como a capital Cartum, Gezira e Senar, apoiadores do grupo incluindo ativistas dos direitos humanos, profissionais de saúde e humanitário sofreram prisões arbitrárias, tortura e, em alguns casos, execução. 

Bloqueio para causar fome

Houve registo de atos de represália que mataram 30 civis no bairro de Al-Salha, em Omdurman, a finais de abril.

As restrições à ajuda humanitária envolvem questões burocráticas impostas pelo Exército, enquanto as Forças Revolucionárias do Sudão saquearam comboios e bloquearam completamente o auxílio provocando fome, especialmente em Darfur.

Dois funcionários humanitários do WFP , vestindo uniformes azuis e capacetes, estão em meio a pilhas de suprimentos alimentares em uma passagem de fronteira no Sudão.
© WFP Restrições à ajuda humanitária envolvem questões burocráticas impostas pelo Exército

Os especialistas destacam ainda a morte, em 2 de junho, de cinco funcionários do setor num ataque a um comboio da ONU em Al Koma a caminho de El Fasher.

As RSF bombardearam ainda o hospital local por mais de 10 vezes. Em maio, um ataque de drones ao Hospital Internacional Obeid, em Kordofan do Norte, matou seis civis e fechou uma das últimas clínicas em funcionamento na região.

Violência sexual a mulheres e meninas

Houve ainda uma alta acentuada da violência sexual e de gênero, com mulheres e meninas vítimas de estupro coletivo, sequestro, escravidão sexual e casamento forçado, principalmente em campos de deslocados controlados pelas RSF.

Othman apelou a todos os países para que cumpram e façam cumprir obrigações legais, particularmente o embargo de armas imposto pela Resolução 1556 do Conselho de Segurança e outras resoluções aprovadas na subsequência.

O apelo aos países com influência sobre os dois lados do conflito é que “atuem de imediato em favor do respeito e da garantia de observação do direito internacional humanitário e evitem o risco de cumplicidade em violações graves.”

*Os relatores de direitos humanos são independentes da ONU e não recebem saláiro pelo seu trabalho.