Perspectiva Global Reportagens Humanas

Agência da ONU para Palestinos já sofre impactos de banimento por Israel BR

Mulheres e meninas palestinas, muitas usando lenços na cabeça, se apoiam em uma barreira de metal em frente a um prédio danificado em Gaza.
UNRWA Mulheres em Gaza fazem fila num ponto de distribuição de alimentos

Agência da ONU para Palestinos já sofre impactos de banimento por Israel

Ajuda humanitária

Entraram em vigor nesta quinta-feira duas leis israelenses que proíbem atuação da entidade em Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental; equipes internacionais foram evacuadas para Jordânia; representantes relatam impacto profundo em operações humanitárias, serviços de saúde e educação.

A legislação israelense que proíbe a atuação da Agência da ONU de Assistência aos Refugiados Palestinos, Unrwa, já está em vigor após aprovação pelo Parlamento do país, a Knesset.

A entidade não pode mais atuar em Gaza, Jerusalém Oriental e Cisjordânia e teve seu contato com autoridades de Israel impedido.

Agência não recebeu ainda uma comunicação oficial

A chefe de Comunicações da Unrwa, Juliette Touma, disse que a agência não recebeu até agora qualquer comunicação oficial sobre como serão implementados os projetos de lei.

Segundo ela, as equipes permanecerão cumprindo seu dever de fornecer serviços e assistência humanitária onde quer que estejam.

Para Touma, a proibição “aprofundará e aumentará” o sofrimento do povo palestino que depende da agência para sobreviver. Apenas em Jerusalém Oriental, a agência presta cuidados de saúde a 70 mil pacientes.

O edifício da sede da UNRWA em Jerusalém Oriental, com uma estrutura branca com uma bandeira da ONU voando no topo, emoldurada por árvores.
UNRWA Sede da Unrwa em Jerusalém Oriental

Equipes internacionais “despejadas”

Em entrevista para a ONU News o porta-voz da Unrwa, Jonathan Fowler, explicou que mesmo antes de entrar em vigor a proibição já está causando impactos.

Israel encurtou todos os vistos para a equipe internacional da Unrwa, de modo que expirassem na quarta-feira. Para Fowler, isso "equivale a ser despejado ou declarado persona non grata”.

Como consequência, a equipe internacional que trabalhava na sede da agência em Jerusalém Oriental teve que ser evacuada para Amã, na Jordânia. Equipamentos e veículos foram levados às pressas e os esforços continuam para digitalizar os arquivos.

A equipe nacional permanecerá em Jerusalém Oriental, mas enfrenta riscos, incluindo protestos de manifestantes israelenses. Durante a guerra em Gaza, o complexo da Unrwa foi alvo de manifestações violentas e ataques com fogo.

Compromisso de permanecer

Fowler enfatizou que a agência continua “absolutamente comprometida em permanecer e trabalhar”. Ele afirmou que a equipe não está desistindo nem se curvando, mas ressaltou que a incerteza pode afetar as operações de maneira profunda.

A Unrwa é considerada a spinha dorsal da assistência humanitária na Faixa de Gaza arrasada pela guerra. Durante os três primeiros dias do cessar-fogo de 19 de janeiro, a Unrwa forneceu alimentos e corbertores para um milhão de pessoas.

Para o porta-voz, nenhuma outra agência tem a “escala e a profundidade” para fazer o que a Unrwa faz em assistência humanitária e, especialmente, em serviços de saúde e educação.

Uma mãe palestina e seus dois filhos pequenos estão sentados em um tapete dentro de um abrigo temporário, identificado como uma escola da UNRWA em Gaza.
UN News Uma palestina deslocada e os seus filhos vivem numa escola da Unrwa em Gaza

Risco de criar um “novo normal”

Apoiadores da agência, Estados-membros da ONU e oficiais da organização tentam pressionar Israel para reverter a decisão.

Fowler alertou para o precedente perigoso que essa situação pode estabelecer para outras operações da ONU no mundo. De acordo com ele, “nunca antes um Estado-membro da ONU tentou desfazer o mandato de uma agência da organização”.

O porta-voz da Unrwa teme que essa abordagem se torne um “novo normal”. Para ele, este é “um golpe unilateral contra o multilateralismo”.

Fowler clamou pela continuidade dos esforços para convencer as autoridades israelenses a pelo menos congelar essa decisão ou anular as leis completamente.

Que papel Israel teria daqui para frente?

Pela lei internacional, Israel é responsável por todos os serviços prestados às populações que vivem no Território Palestino Ocupado desde que tomou as áreas em 1967.

Um acordo feito naquele ano entre Israel e a Unrwa reconheceu a agência e suas tarefas determinadas pela Assembleia Geral para atender Gaza, Jerusalém Oriental e a Cisjordânia.

Com a nova legislação que, na prática, cancela esse acordo, Israel continua sendo responsável por todos os serviços públicos. Como tal, Israel precisará absorver o custo. O orçamento anual da Unrwa gira em torno de US$ 1 bilhão todos os anos.

Para além dos territórios incluídos na legislação israelense, a agência também presta serviços aos palestinos na Jordânia, Líbano e Síria, áreas onde o banimento não teria efeito.