Perspectiva Global Reportagens Humanas

Síria abre espaço para investigação da ONU sobre crimes internacionais graves BR

Um comboio de SUVs brancos da ONU com emblemas da ONU está reunido numa área aberta e empoeirada na Síria, com várias pessoas nas proximidades.
Ocha/Bilal Alhammoud Veículos da ONU param durante viagem por Alepo, na Síria

Síria abre espaço para investigação da ONU sobre crimes internacionais graves

Legislação e prevenção de crimes

Mecanismo criado em 2016 recebe acesso ao país, pela primeira vez, a convite do governo interino; após concluir visita a Damasco, chefe do órgão menciona “montanhas de documentos” indicando sistematização dos crimes de atrocidade; ele destacou “desumanidade inimaginável” sofrida pelos sírios ao longo de 14 anos.

Após um acordo histórico com o governo interino da Síria, o Mecanismo Internacional, Imparcial e Independente, Iiim, foi autorizado a entrar no país, pela primeira vez. O grupo foi criado há oito anos.

O chefe do órgão, Robert Petit, considera esse um passo crucial para avançar na preservação de evidências de crimes internacionais cometidos na Síria e na responsabilização dos culpados.

“Assustadora sistematização dos crimes”

Após visitar Damasco, nesta segunda-feira Petit declarou que o foco do Mecanismo é “apoiar os processos de justiça para as inúmeras vítimas impactadas ao longo dos últimos 14 anos”.

Para o especialista, “a queda do regime do ex-presidente sírio, Bashar al-Assad representa uma oportunidade significativa” para o cumprimento do mandato do Iiim.

Durante a visita, Petit se encontrou com membros do governo interino e visitou locais com “montanhas de documentação governamental” que revelam a “eficiência assustadora na sistematização dos crimes de atrocidade do regime”.

Ele destacou a urgência de preservar essas evidências antes que sejam perdidas para sempre, ressaltando que “há uma pequena janela de oportunidade para proteger esses locais e os materiais que eles contêm”.

Segundo Petit, cada dia perdido coloca em risco a chance de uma “responsabilização abrangente”.

Um homem carregando uma mala no ombro na passagem de fronteira de Masnaa, entre o Líbano e a Síria, em 9 de dezembro de 2024.
Acnur/Ximena Borrazas Milhares de pessoas atravessam a Síria do Líbano através da fronteira de Masnaa

Perdas, exílio e “desumanidade inimaginável”

Petit se reuniu com diversos sírios impactados pelos crimes cometidos na última década. O grupo inclui os exilados que retornaram ao país. Seus depoimentos ressaltaram uma “demanda generalizada por verdade, justiça e inclusão”.

O chefe do Iiim falou de “um lembrete sóbrio do custo humano deste conflito”.

Muitas pessoas exigem respostas sobre seus entes queridos e pedem justiça.

Para Petit, é “profundamente comovente” ver a resiliência dos sírios após suportarem anos de uma “desumanidade inimaginável”.

Prioridades

O chefe do Iiim disse que o órgão está “plenamente comprometido” em apoiar as jurisdições com foco nas vítimas e sobreviventes.

Para ele, a punição dos culpados exigirá cooperação e coordenação entre diversos atores. E “nenhuma entidade isolada pode enfrentar esse desafio sozinha”.

A preservação das evidências, o esforço de evitar duplicações e a garantia de que todas as vítimas sejam representadas de forma inclusiva na busca por justiça devem ser prioridades.

O Mecanismo Internacional, Imparcial e Independente é uma organização das Nações Unidas, estabelecida em 2016 pela Assembleia Geral. O mandato é auxiliar na investigação e acusação de indivíduos responsáveis pelos crimes internacionais mais graves, incluindo crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio, cometidos na Síria desde março de 2011.

Mandato do Iiim

O órgão é independente porque atua sem instruções ou influências externas; imparcial, pois abrange todos os crimes internacionais cometidos por todas as partes no conflito; e rigoroso na aplicação de metodologias do direito penal internacional em todas as suas atividades.

O Iiim não é um tribunal ou corte penal, não pode emitir acusações ou conduzir julgamentos.

O trabalho consiste em preservar evidências de múltiplas fontes, compartilhar informações, evidências e análises com jurisdições competentes e adotar uma abordagem centrada nas vítimas.

Desde sua criação, o Iiim buscou cooperação com a Síria, mas suas solicitações nunca foram respondidas pelo ex-governo.

Em dezembro de 2024 o mecanismo foi convidado a acessar o país pela primeira vez. Em apenas 48 horas, o chefe do grupo chegou a Damasco com uma pequena delegação para cumprir o mandato no terreno.