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Ação contra resistência antimicrobiana é tão urgente quanto a climática, diz chefe da OMS

Pessoas entram na Quarta Conferência Ministerial Global de Alto Nível sobre Resistência Antimicrobiana no Ministério da Saúde da Arábia Saudita, em Riade.
Ministério da Saúde da Arabia Saudita Entrada da 4ª Conferência Ministerial Global de Alto Nível sobre Resistência Antimicrobiana, realizada em Jeddah, na Arábia Saudita

Ação contra resistência antimicrobiana é tão urgente quanto a climática, diz chefe da OMS

Saúde

Desafio de saúde mata 1,3 milhões de pessoas por ano e requer ação conjunta dos países para que medicamentos que combatem vírus, fungos e bactérias não se tornem ineficazes; semana de conscientização ocorre na sequência da 4ª Conferência Ministerial Global de Alto Nível sobre o tema, realizada em Jeddah, na Arábia Saudita

Começa nesta segunda-feira a Semana de Conscientização sobre Resistência Antimicrobiana, ou RAM, com o tema “Educar, defender e agir agora”. A capacidade de bactérias, vírus, fungos e parasitas de resistir à ação de medicamentos é considerada pela Organização Mundial da Saúde, OMS, uma crise global urgente.

O problema faz com que as infecções se tornem difíceis ou impossíveis de tratar aumentando o risco de disseminação de doenças graves e morte.

4ª Conferência Ministerial Global na Arábia Saudita

O diretor-geral da OMS afirmou que não se trata apenas de um risco futuro, pois “as infecções por superbactérias já matam 1,3 milhões de pessoas todos os anos”. Para Tedros Ghebreyesus a ação contra a resistência antimicrobiana “é tão urgente quanto a ação climática”.

O líder da OMS adicionou que “a ironia da RAM é que ela é motivada pelo uso inadequado de antimicrobianos e, ainda assim, um grande número de pessoas também morre porque não conseguem ter acesso a esses medicamentos”.

O pronunciamento foi feito na 4ª Conferência Ministerial Global de Alto Nível sobre Resistência Antimicrobiana, realizada em Jeddah, na Arábia Saudita, em antecipação à semana de conscientização.

O encontro, encerrado no sábado, reuniu representantes de 57 países, incluindo 48 ministros e vice-ministros, e mais de 450 participantes das principais organizações internacionais e da sociedade civil, incluindo escritórios e agências da ONU.

Dra. Hanan Balkhy, Diretora Regional da OMS para o Mediterrâneo Oriental, discursando na 4ª Conferência Ministerial sobre Resistência Antimicrobiana na Arábia Saudita.
Ministério da Saúde da Arabia Saudita A diretora regional da OMS para o Mediterrâneo Oriental, Hanan Al Balkhy

Três prioridades

Tedros pediu aos participantes para “acelerar a ação contra a RAM, estabelecer uma colaboração mais forte e proteger os medicamentos que nos protegem”.

Ele disse que a Declaração Política sobre a RAM acordada em setembro pela Assembleia Geral da ONU estabelece objetivos claros e a tarefa agora é traduzi-la em ações concretas.

As prioridades da OMS são aumentar o financiamento de fontes nacionais e internacionais, o acesso equitativo e garantir o uso adequado de medicamentos antimicrobianos além de promover a pesquisa e o desenvolvimento de novos medicamentos.

“O mercado de antibióticos está quebrado”

Durante a conferência, o enviado especial da ONU News conversou com o representante do secretariado da AMR Industry Alliance, Michiel Peters, que engloba organizações de pesquisa, empresas farmacêuticas e de genéricos, biotecnologia e diagnóstico.

Peters disse que os antibióticos são “fundamentalmente diferentes” de qualquer outro produto lançado no mercado “onde o objetivo é vender o máximo possível”. Ele explicou que com os antibióticos o objetivo é levar “o medicamento certo à pessoa certa quando ela precisa”, o que nem sempre é um negócio lucrativo.

O representante da indústria também observou que o desenvolvimento de antibióticos requer uma “quantidade incrível de tempo e investimento” e, em muitos casos, os medicamentos nem chegam aos consumidores. Para ele, “o mercado de antibióticos está quebrado”.

Peters acrescentou que há uma grave falta de financiamento e incentivos governamentais para a pesquisa e desenvolvimento de novos antibióticos e que muitos pesquisadores estão abandonando este campo.

O representante do setor privado disse que foram feitos muitos progressos desde que a primeira Reunião de Alto Nível sobre a RAM foi realizada em 2016, mas ainda há muito mais a fazer e “ninguém pode resolver o problema sozinho”.

Uma cientista em um laboratório utiliza uma pipeta para testar uma amostra dentro de uma cabine de segurança biológica.
CDC OMS endossou plano de ação global para combater a resistência a antibióticos e outros medicamentos antimicrobianos

Propagação em zonas de conflito

A diretora regional da OMS para o Mediterrâneo Oriental, Hanan Al Balkhy, disse que a RAM não é uma questão ligada apenas ao terceiro Objetivo de Desenvolvimento Sustentável, relacionado com a saúde, mas sim a pelo menos 11 dos 17 objetivos globais, da produção alimentar à equidade.

Em conversa com a ONU News, ela afirmou que é por isso que diálogos multissetoriais como a reunião em Jeddah são tão importantes.

Al Balkhy disse que o esforço para combater a RAM é ainda mais difícil em zonas de conflitos, pois as pessoas não têm as ferramentas adequadas de higiene e saúde para se manterem seguras, evitando a criação de um terreno fértil para a resistência antimicrobiana.

A diretora regional disse que a OMS está a tentando ser “o mais inovadora possível” para proteger as pessoas em zonas de conflito da propagação da RAM, com ações como fornecimento de água potável e mitigando os desafios da defecação a céu aberto.

Ela sublinhou que “as bactérias têm um objetivo na vida: sobreviver. A especialista lembrou que estes microrganismos existem desde antes do surgimento do ser humano e podem continuar sobrevivendo milhões de anos depois da atual geração. Por isso, ela destacou que “a coisa mais inteligente a fazer é pelo menos acompanhar a evolução destes micróbios” e garantir que eles não prejudiquem a humanidade.